Mistério do Antigo Egipto Decifrado por Arqueólogos

Há muito tempo que os investigadores especulavam sobre o propósito e o significado dos "cones na cabeça" retratados na arte egípcia. Agora, foi confirmada a descoberta do objeto físico.

Monday, December 23, 2019,
Por Erin Blakemore
Mulheres representadas num banquete de há 3300 anos com objetos em forma de cone na cabeça. ...
Mulheres representadas num banquete de há 3300 anos com objetos em forma de cone na cabeça. Estas representações eram comuns no antigo Egito, dando origem a especulações sobre se os cones eram um símbolo artístico – como se fossem uma auréola – ou objetos físicos reais que tinham uma utilidade prática.
Fotografia de Werner Forman, Universal Images Group/Getty

A arte egípcia antiga está repleta de imagens de pessoas com cones na cabeça. Homens e mulheres são representados com estes objetos em papiros e caixões, enquanto participam em festas e rituais divinos. Por vezes, as mulheres com cones também são retratadas durante o parto, uma atividade associada a alguns deuses.

Apesar de estes cones serem relativamente comuns na arte egípcia, o seu propósito e existência eram um mistério. Estes objetos nunca tinham sido encontrados pelos arqueólogos, levando alguns estudiosos a encarar os cones como representações meramente simbólicas – o equivalente às auréolas que aparecem nos santos e anjos da iconografia cristã.

Mas agora, de acordo com um artigo publicado na revista Antiquity, uma equipa internacional de arqueólogos encontrou a primeira evidência física destes objetos.

Esta sepultura de uma mulher adulta, em Amarna, no Egito, continha um objeto de cera em forma de cone na cabeça.
Fotografia de THE AMARNA PROJECT, ANTIQUITY PUBLICATIONS LTD

A descoberta foi feita nos cemitérios de Amarna, uma antiga cidade egípcia cujos templos foram erguidos por Aquenáton, um faraó que se acredita ter sido o pai de Tutankhamon. Esta cidade, construída de forma apressada no século XIV a.C. e que foi relevante durante apenas 15 anos, abrigava perto de 30.000 pessoas. Cerca de 10% da sua população pertencia à elite mais abastada e que foi enterrada em túmulos opulentos; o resto eram pessoas comuns que foram enterradas em sepulturas modestas. Foi nestas sepulturas, que geralmente não têm muito valor, que os membros do Projeto Amarna, um projeto liderado pela Universidade de Cambridge com financiamento da National Geographic Society e de outras instituições, que foram inicialmente encontrados os restos de um cone em 2009.

Agora que passou uma década desde que estas escavações foram feitas, Anna Stevens, arqueóloga na Universidade Monash, diretora assistente do Projeto Amarna e codiretora das investigações que estão a decorrer nas sepulturas pobres dos cemitérios da cidade, recorda o dia em que o primeiro cone foi encontrado. "Acho que encontrámos um daqueles cones!", disse Mary Shepperson, uma colega sua de trabalho. Quando Anna foi investigar, viu indícios por cima do crânio de um esqueleto de uma mulher.

"Era obviamente muito, muito diferente, era algo que nunca tínhamos visto anteriormente", diz Anna. Mas este objeto pontiagudo era muito parecido com os estranhos adornos de cabeça representados na arte egípcia que alguns estudiosos tinham descartado como sendo uma peça artística. E noutro enterro de uma pessoa adulta, que não pôde ser identificado como homem ou mulher, também encontraram outro cone.

Foi preciso quase uma década para os estudiosos conseguirem financiamento para concluir um exame substancial aos cones, permitindo testar outra teoria sobre estes objetos invulgares que dizia que os cones eram pedaços sólidos de gordura perfumada que derretiam sobre as cabeças dos seus utilizadores e que agia como uma espécie de fragrância de gel para o cabelo.

Mas as descobertas feitas em Amarna parecem eliminar esta teoria. Os cones não eram sólidos – eram formas ocas dobradas em torno de uma matéria orgânica que a equipa acredita ser tecido. Ambos os cones tinham assinaturas químicas de cera deteriorada; a equipa concluiu que eram feitos de cera de abelha, a única cera biológica que os antigos egípcios usavam. Para além disso, não foram encontrados vestígios de cera nos cabelos do esqueleto que está mais bem preservado.

Dadas as associações dos objetos com o parto e o facto de pelo menos um dos espécimes ser uma mulher adulta, a equipa sugere que os cones podem estar relacionados com a fertilidade. Mas como foram encontrados num cemitério que não pertencia à elite dificulta a interpretação do seu significado.

O antigo cemitério em Amarna, no Egito, onde foram encontradas as sepulturas com os cones.
Fotografia de THE AMARNA PROJECT, ANTIQUITY PUBLICATIONS LTD

Na iconografia egípcia, as pessoas representadas com cones na cabeça pertenciam na sua maioria à elite, embora algumas possam ter sido servas, diz Nicola Harrington, arqueóloga na Universidade de Sydney. Os túmulos de Amarna têm menos obras de arte do que os outros cemitérios, mas algumas imagens mostram pessoas a usar os cones enquanto se preparavam para os enterros e faziam oferendas. "Os cones eram usados na presença do divino", diz Nicola.

Mas Nicola Harrington também tem a sua própria teoria sobre as identidades das mulheres que usavam os cones: talvez fossem bailarinas. Ambos os espécimes apresentavam fraturas na coluna vertebral e um deles demonstrava sinais de uma doença articular degenerativa. Apesar de estes problemas ósseos poderem ser atribuídos a uma vida árdua e ao intenso trabalho feito pelos egípcios que não pertenciam à elite, Nicola salienta que as fraturas de stress e compressão são comuns entre os bailarinos profissionais. “Talvez os cones identificassem os bailarinos enquanto membros de uma comunidade que servia os deuses.” Isso poderia explicar porque razão estas pessoas foram enterradas com os cones, sugere Nicola, apesar da modéstia dos seus túmulos.

Porém, na ausência de mais provas arqueológicas, não há forma de saber qual era a utilização real dos cones – ou se foram usados de forma mais generalizada. Infelizmente, diz Anna Stevens, podemos nunca vir a descobrir. "Nos primórdios da egiptologia, os trabalhos eram muito apressados e um bocado aleatórios", diz Anna. Esperamos que as técnicas arqueológicas mais cuidadosas da atualidade protejam e identifiquem estes cones em escavações futuras, mas a sua presença noutros túmulos pode ter sido completamente ignorada.

Mas mesmo que estes cones sejam os únicos que sobreviveram até hoje, a descoberta continua a ter valor. Os arqueólogos sabem muitas coisas sobre a elite do antigo Egito devido aos registos administrativos e aos túmulos elaborados, mas a escassez de registos escritos e artísticos sobre a população mais pobre faz com que as suas vidas sejam mais misteriosas para os investigadores modernos. A falta de informação sobre a vida da maioria das pessoas que viviam no antigo Egito torna este achado ainda mais precioso – e serve para nos lembrar das milhões de histórias aqui enterradas que estão por contar.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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