Quem Eram os Mouros?

O termo é familiar, não só pela história, arte e literatura, mas ainda gera alguma confusão.segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

O termo "mouro" ainda gera alguma confusão, mas existe um motivo para isso: embora o termo possa ser encontrado nos livros de história, na literatura e em várias representações artísticas, não descreve uma etnia ou raça em específico. Em vez disso, o conceito de mouro foi usado durante séculos para descrever alternativamente o reinado dos muçulmanos em Espanha, os europeus de ascendência africana e não só.

Derivado do latim maurus, o termo foi originalmente usado para descrever os berberes e outros povos da antiga província romana da Mauritânia, onde atualmente fica o Norte de África. Com o passar do tempo, o termo foi sendo cada vez mais aplicado aos muçulmanos que viviam na Europa. Na época do Renascimento, o termo mouro também era usado para descrever qualquer pessoa de pele mais escura.

Em 711 d.C., um grupo de muçulmanos do Norte de África, liderado pelo general berbere Tariq ibn-Ziyad, invadiu a Península Ibérica. O território ibérico, na altura conhecido por Al-Andalus, transformou-se num centro cultural e económico muito próspero, onde a educação, as artes e as ciências floresceram.

Com o passar do tempo, a força do estado muçulmano começou a desvanecer, criando incursões para os cristãos que se ressentiam do domínio mouro. Durante séculos, o domínio territorial muçulmano em Al-Andalus foi ameaçado por grupos cristãos que expandiram lentamente o seu território. Estes avanços culminaram em 1492, quando os monarcas espanhóis católicos, Fernando II e Isabel I, venceram a Guerra de Granada e completaram a conquista espanhola da Península Ibérica. Eventualmente, os mouros foram expulsos de Espanha.

Mas o conceito de mouro já se tinha espalhado pela Europa Ocidental. Mouro passou a significar qualquer pessoa que fosse muçulmana ou tivesse pele escura; ocasionalmente, os europeus distinguiam entre "mouros negros" e "mouros brancos".

Uma das menções mais famosas feitas aos mouros aparece na peça de Shakespeare, A Tragédia de Otelo, o Mouro de Veneza. A personagem principal desta obra é um mouro que serve como general no exército veneziano. (Na época de Shakespeare, a cidade portuária de Veneza era etnicamente diversa e os mouros representavam um intercâmbio cada vez maior entre a Europa, o Médio Oriente, a Ásia e África.) Apesar das suas proezas militares, Otelo também é retratado como exótico, hipersexual e indigno de confiança – “um mouro lascivo” que se casa em segredo com uma mulher branca – refletindo os estereótipos históricos sobre os negros.

Mais recentemente, o termo foi adotado pelo movimento soberano de cidadãos nos Estados Unidos. Pessoas que alegam ser descendentes dos mouros e que antecederam os colonos brancos na América do Norte, ou seja, fazem parte de uma nação soberana, não estando por isso sujeitos às leis dos EUA. É a prova do fascínio contínuo dos mouros enquanto designação étnica aparentemente legítima – mesmo que o seu significado nunca tenha sido evidente.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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