Veteranos da Segunda Guerra Mundial Recordam ‘Última Aposta’ de Hitler

Há 75 anos, na Batalha das Ardenas, o ditador nazi fez uma tentativa desesperada para mudar o rumo da guerra.

Monday, December 30, 2019,
Por Bill Newcott
Um soldado americano tenta fugir debaixo de fogo alemão.
Um soldado americano tenta fugir debaixo de fogo alemão. Morreram cerca de 19.000 soldados norte-americanos na terrível Batalha das Ardenas – o confronto mais mortífero enfrentado pelas forças americanas na Segunda Guerra Mundial.
Fotografia de BRIDGEMAN IMAGES

Em dezembro de 1944, o exército alemão estava em fuga. Desde a invasão do Dia D, feita em junho desse mesmo ano, que as forças aliadas avançavam pela Europa e agora estavam prontas para entrar na própria Alemanha, mas não confrontavam as forças de Hitler em grandes batalhas há semanas.

Na Bélgica, na floresta das Ardenas, Chris Carawan, soldado de infantaria dos EUA e outros militares capturaram dois soldados alemães que pareciam estar perdidos. Um deles falava inglês quase perfeito.

Soldados de infantaria alemães a passar por veículos americanos em chamas durante a Batalha das Ardenas. Os comboios de veículos do Reich eram frequentemente liderados por tanques que tinham sido capturados aos aliados, confundindo as tropas aliadas.
Fotografia de ASSOCIATED PRESS

“É melhor vocês desaparecerem daqui”, disse o soldado alemão a Chris. “Estamos prestes a empurrar-vos para o mar.”

Chris Carawan e companhia passaram a informação aos seus superiores, mas eles não acreditaram e começaram a rir. Conversa fiada de um inimigo derrotado, disseram os generais. Havia muito ruído de maquinaria pesada nas florestas para além da fronteira, mas provavelmente seria o Terceiro Reich em retirada. Hitler estava acabado.

Até que chegámos à manhã de 16 de dezembro.

Mapas oficiais do Exército dos EUA registam o progresso da Batalha das Ardenas, de 25 de dezembro de 1944 a 31 de janeiro de 1945.
Fotografia de Matthew W. Chwastyk, NGM Staff. Fonte: Library of Congress

“Primeiro houve um ataque de artilharia avassalador”, lembra Carawan. O ataque de 90 minutos partiu de uma força bruta de 1900 peças de artilharia escondidas atrás da linha das árvores.

"Foi, talvez, o fogo de barragem mais pesado de toda a Segunda Guerra Mundial", diz Alex Kershaw, cujo livro O Longo Inverno documenta a Batalha das Ardenas. “Foi devastador. Chocante."

Chris Carawan, agora com 94 anos, sentado na sua casa em Colúmbia, na Carolina do Sul, sorri ligeiramente para a sua esposa de 74 anos, Alma, sentada do outro lado da sala. Mas pelos olhos de Carawan, parece evidente que ele regressou àquele soldado aterrorizado com 20 anos, perante uma das maiores batalhas terrestres da guerra moderna.

"Depois, veio o fogo de metralhadora. Parecia que o exército inteiro de Hitler estava a sair da floresta."

Esquerda: No pico do inverno, sem roupas adequadas, um soldado agasalha-se com tudo o que conseguiu encontrar. Direita: No dia 17 de dezembro, ainda confiantes de que o seu ataque surpresa vai funcionar, soldados alemães Waffen-SS protegem-se ao lado de um veículo American M3 destruído.
Fotografia de BRIDGEMAN IMAGES (ESQUERDA) E AKG-IMAGES / INTERFOTO (DIREITA)

Chris não andava muito longe da realidade: atrás daquelas árvores espreitavam mais de 400 mil homens e cerca de 1400 tanques. Hitler, perante uma derrota que parecia certa na frente soviética, apostava na capacidade de lançar uma ofensiva extremamente veloz através das Ardenas, dividindo as forças aliadas e abrindo caminho até ao porto de Antuérpia, onde poderia extrair os mantimentos dos quais necessitava desesperadamente – sobretudo combustível para os tanques. O führer esperava conseguir cercar as tropas aliadas e forçar a negociação de um acordo de paz favorável à Alemanha.

Os Aliados, confiantes na vitória, não faziam ideia do que iam enfrentar.

Esquerda: Vernon Brantley, na altura com 20 anos, usa orgulhosamente o seu Distintivo de Ação de Combate do Exército. Direita: Como acontece com a maioria dos veteranos da Batalha das Ardenas, também Vernon Brantley ficou relutante em falar sobre as suas experiências de guerra. "Nos primeiros 10 anos a seguir à guerra, se alguém começasse a falar sobre as suas façanhas no campo de batalha, 95% das vezes estavam a mentir."
Fotografia de VERNON BRANTLEY (ESQUERDA) E STACY PEARSALL, NATIONAL GEOGRAPHIC (DIREITA)

"Era uma frente de batalha muito extensa, desde o Canal da Mancha até Itália", diz o autor Kershaw. "Não havia mantimentos, equipamentos ou homens suficientes."

Os alemães centraram as suas atenções numa zona em particular: um trecho de floresta com defesas fracas, com quase 130 km, na Bélgica e no Luxemburgo. Nesta zona, os Aliados eram impotentes contra o feroz ataque das forças alemãs que, numa questão de dias, provocariam uma fratura perigosa na linha dos Aliados.

Quase de imediato, dois regimentos da 106ª Divisão de Infantaria que estavam estacionados ao longo da zona da frente foram mortos ou capturados – incluindo um jovem soldado chamado Kurt Vonnegut cuja experiência brutal enquanto prisioneiro de guerra inspiraria o seu famoso romance Matadouro-Cinco.

Ainda a recuperar do ataque de 16 de dezembro, soldados dos EUA avançam por um campo perto de Bastogne, na Bélgica, pouco antes do Natal.
Fotografia de Robert Capa, International Center of Photography/Magnum Photos

A batalha continuaria durante mais de um mês sob um dos invernos europeus mais frios de que há registo. Parcamente equipados, os soldados aliados não tinham roupas de inverno nem calçado adequado. Muitos dormiam com as botas porque sabiam que, se as descalçassem, os seus pés inchariam de tal forma que seria impossível calçá-las novamente na manhã seguinte. Até hoje, a maioria dos veteranos da Batalha das Ardenas sofre com os efeitos das lesões provocadas pelo gelo.

Francis Chesko tinha acabado de sair dos campos de carvão da Pensilvânia quando desembarcou em França – 24 horas depois do Dia D. Francis estava no norte da Europa quando a sua unidade foi subitamente empurrada para um comboio de tropas com destino às Ardenas.

Esquerda: No dia de Natal, enquanto guardava os caminhos de ferro de uma vila que estava em perigo, Chris Carawan reparou que um barril estava a escorrer algo através de um buraco feito por uma bala. "Era vinho!" diz Chris. "Depois, enchemos todos os nossos capacetes e fizemos um brinde de Natal." Direita: Leif Maseng, paraquedista, conseguiu evitar a morte atrás das linhas inimigas. "Eis o que aconteceu", diz Leif, “fizemos tudo o que foi possível para sobreviver, enquanto tentávamos matar alguns alemães pelo caminho”.
Fotografia de STACY PEARSALL, NATIONAL GEOGRAPHIC

"Pensámos que nos estavam a levar para descansar e recuperar", diz Francis Chesko, que veste um uniforme completo do Exército enquanto nos faz uma visita guiada pela sua casa – e mostra a variedade de artefactos de guerra que colecionou. “Bem, nós estávamos errados. Saímos daquele comboio e parecia que o inferno se estava a abater sobre nós. Aquele som! É o pior som do mundo. É como trovões e relâmpagos mesmo por cima da nossa cabeça."

Para além de todo o poderio militar alemão, diz Chesko, o inimigo mostrou uma desenvoltura diabólica.

"Os alemães lançavam paraquedistas com uniformes dos Aliados. Trocavam todos os sinais de trânsito para nos conduzirem até armadilhas e, por vezes, ficavam ali nos cruzamentos, enviando-nos na direção errada! A maioria também falava inglês quase perfeito. Mas precisavam de saber a senha. Nós dizíamos 'Pequena' e, se eles não respondessem ‘Orfã Annie', bem, tínhamos problemas.”

Nos primeiros dias da batalha, o mau tempo obrigou os aviões Aliados a ficarem em terra, mas no início de janeiro de 1945 a superioridade aérea foi restabelecida, permitindo dar apoio às tropas que estavam há mais de uma semana a tentar proteger a cidade de Bastogne, na Bélgica.
Fotografia de Bridgeman Images

Vernon Brantley, agora com 95 anos, bebe um copo de sumo de laranja com vinho do porto – diz que é uma receita sua – na cozinha de sua casa, também em Colúmbia. Com um sotaque subtil do sul, lembra o caos que se seguiu quando o jipe que conduzia capotou depois de ser atingido por um morteiro alemão.

“Os outros três rapazes conseguiram saltar, mas o jipe aterrou em cima de mim. Não me lembro de nada, disseram-me que parecia que eu estava a sangrar de todos os poros.”

Brantley foi prontamente levado para um hospital de campanha, e depois para instalações médicas em Paris. Em poucos meses estava de regresso à sua unidade.

O rumo da batalha já tinha mudado no início de janeiro, quando um prisioneiro alemão ajudou as tropas da Terceira Divisão do Exército dos EUA a transportar um soldado alemão ferido.
Fotografia de Bridgeman Images

Entretanto, ouvimos bater na porta da cozinha. É o velho amigo de Brantley e veterano das Ardenas, Gerald White, que tem 93 anos. Gerald senta-se à mesa e, como costumam fazer, os dois amigos começam a partilhar histórias de guerra.

"Eu nem sequer tinha barba", diz Gerald White, que tinha 18 anos quando o destino o colocou na Batalha das Ardenas. “Meteram-me a conduzir um jipe com um atrelado cheio de munições. Acredito que, se tivesse sido atingido por um morteiro, não restaria nada. Disseram-me que eu era o segundo substituto neste trabalho, ou seja, havia dois indivíduos antes mim, mas nunca me disseram o que lhes aconteceu.”

Durante a batalha, Gerald White estava de serviço na cozinha quando lhe disseram para queimar lixo. "Aquilo explodiu na minha cara – e cegou-me totalmente", diz Gerald. A cegueira durou 3 dias, e o seu rosto ainda tem as cicatrizes.
Fotografia de Stacy Pearsall, National Geographic

Joe Watson era outro jovem que transportava cargas perigosas pela zona rural das Ardenas. Watson era responsável por uma unidade móvel de morteiro, o que significava que, enquanto conduzia a sua unidade de um local para outro, era um alvo prioritário.

“Nós levávamos a nossa unidade pela estrada e os morteiros inimigos rebentavam de forma continuada atrás de nós. Eram explosões atrás de explosões! Parecia um filme.”

Joe Watson, atualmente com 96 anos, vive no mesmo bosque onde cresceu em Springfield, na Carolina do Sul. Apesar da dificuldade que tem em andar – efeitos das lesões provocadas pelo gelo – planeia regressar à Bélgica para assinalar o 75º aniversário da batalha.

"A razão pela qual os soldados mais jovens são os melhores soldados é simples", diz Joe, olhando para o lago onde pescou durante grande parte da sua vida. "Os jovens acreditam que nunca vão morrer. Por isso, quando lhes pedimos para fazerem uma loucura, eles dizem simplesmente 'sim, senhor' e vão-se embora.”

O paraquedista Leif Masing foi largado em França antes da invasão do Dia D, estando por isso habituado a estar atrás das linhas do inimigo. Nos primeiros dias da Batalha das Ardenas, o mau tempo não deixou os aviões dos Aliados levantar voo, por isso, Leif e os seus amigos foram secretamente transportados de camião para as suas posições remotas.

Esquerda: Soldados da 9ª Divisão de Infantaria dos EUA fazem uma pausa para fumar atrás de um tanque M-4 Sherman. Direita: Em desvantagem perante o avanço das forças alemãs, membros da 101ª Companhia de Engenheiros do Exército dos EUA retiram-se da zona de batalha no Luxemburgo.
Fotografia de AKG-IMAGES

“Os paraquedistas recebem formação para agir por conta própria”, diz Masing, de 95 anos, sentado com a filha Nancy na sua sala de estar, numa casa de cuidados assistidos na Colúmbia. "Nós nem sempre sabemos onde é que andam os nossos camaradas, e precisamos de tomar decisões num ápice.”

Alto, magro e de olhos azuis, Masing ainda tem uma silhueta imponente. É fácil imaginá-lo a desaparecer no escuro da noite, em operações secretas, com batalhas a poucos quilómetros de distância.

“Uma noite, por volta das 4 da manhã, eu estava a atravessar o quintal de uma residência. O proprietário veio à janela e gritou: 'Quem é que anda aí?' Não aguentei e comecei a rir. Vendo bem, estávamos em guerra por todo o lado!”

No início de janeiro de 1945, na tentativa de minimizar as baixas civis, as tropas da 1ª Divisão do Exército dos EUA evacuaram os habitantes de Odeigne, na Bélgica, enquanto avançavam pela cidade.
Fotografia de Bridgeman Images

Chris Carawan, no aconchego do seu lar, baixa a voz até ficar quase inaudível. "Eles disseram-nos sempre para não criarmos laços emocionais com ninguém, mas é óbvio que isso era impossível."

Carawan lembra-se de estar a atravessar um campo aberto com o seu melhor amigo, Doyle Griffith, e o seu oficial favorito, Harry Stone, quando de repente um tanque alemão abriu fogo sobre eles.

"Quase que desfez o Doyle ao meio", diz Carawan. “Ele começou a chamar pela mãe. Eu disse para ele aguentar e chamei um médico. Não sei como, mas ele conseguiu sobreviver. Mas o oficial morreu sem saber o que o atingiu.”

As tropas aliadas perceberam o desespero dos alemães quando começaram a capturar crianças que tinham sido pressionadas a servir. Estes jovens oficiais da SS foram capturados perto de Bastogne, na Bélgica.
Fotografia de Bridgeman Images

"Porque razão aquele tanque não me fez um arranhão, eu nunca vou saber. Mas vou dizer-lhe uma coisa: acordei hoje de manhã a pensar no Harry Stone. Aqui estou, tenho 94 anos e estes rapazes mal chegaram aos 20 anos. Às vezes, sinto que também estou a viver a minha vida por eles."

No dia de Ano Novo, o rumo da Batalha das Ardenas já tinha mudado, mas os combates prolongaram-se até ao dia 24 de janeiro. Cerca de 19.000 americanos perderam a vida. O progresso alemão não foi para além de uma fratura. A resistência aliada retardou o avanço nazi, negando o acesso aos mantimentos que precisavam desesperadamente de Antuérpia.

Ainda assim, diz o autor Kershaw, perante uma causa perdida, foi a melhor aposta de Hitler para uma reviravolta de última hora.

"Na guerra, é impossível prever o que vai acontecer, foi uma operação de risco muito elevado. Era preciso eles terem muita sorte – e a sorte deles acabou.”

Quando as coisas acalmaram, Chris Carawan conseguiu uma licença prolongada. "Eu estava a andar por Paris quando ouvi uma música", diz Chris, com os olhos perdidos na memória. “Era muito familiar. Eu segui o som pelas esquinas e ruas, e cheguei a uma área aberta. Depois, ouvi isto...”.

Após o sucesso inicial, a maré virou-se rapidamente contra as tropas da Alemanha. Este grupo, perto de Bastogne, na Bélgica, rendeu-se em massa.
Fotografia de Robert Capa, International Center of Photography/Magnum Photos

Com a mão ligeiramente a tremer, Carawan aponta para um leitor de CD que está no outro lado da sala, perto de Alma, que sorri docemente. O som de Slumber Song de Glenn Miller começa a preencher a casa.

“Eu nem conseguia acreditar”, diz Carawan. “O Glenn Miller estava mesmo ali. Era quase como estar em casa. Era quase como estar com a Alma.”

Os saxofones e trompetes da Banda da Força Aérea do Exército de Miller flutuam pela casa de Chris Carawan, envolvendo as medalhas na parede e as fotografias de um jovem soldado com a sua noiva corada.

Chris e Alma olham um para o outro.

Estamos em 1945. E eles estão a dançar.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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