Algumas Pessoas Celebram o Natal em Janeiro. Porquê?

Graças a uma decisão tomada há mais de 400 anos, nem todos os cristãos celebram o Natal no dia 25 de dezembro.sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

Se o Natal acabou, porque é que 12% da população cristã de todo o mundo espera até janeiro para o celebrar? A resposta reside na decisão de muitas igrejas ortodoxas em aderir a um calendário com quase 2 mil anos que difere do usado pela maior parte do mundo.

As origens desta divisão, sobre quando reconhecer oficialmente o nascimento de Jesus Cristo, remontam a 325 d.C., quando um grupo de bispos cristãos convocou a primeira conferência ecuménica da religião. Um dos itens mais importantes na agenda do Primeiro Concílio de Niceia passava pela padronização da data do feriado mais importante da igreja, a Páscoa. Para o fazer, decidiram basear-se no calendário juliano, um calendário solar que o imperador romano Júlio César adotou em 46 a.C. seguindo o conselho do astrónomo egípcio Sosigenes para tentar abandonar o confuso calendário lunar de Roma.

Mas os cálculos de Sosigenes tinham um problema: exageravam a duração do ano solar em cerca de 11 minutos. Desta forma, com o passar dos séculos, o calendário e o ano solar ficaram cada vez mais dessincronizados.

Em 1582, as datas mais importantes dos feriados cristãos tinham-se alterado tanto que o Papa Gregório XIII ficou preocupado e convocou outro grupo de astrónomos para propor um novo calendário, conhecido por calendário gregoriano.

O novo calendário resolveu uma série de questões complicadas que se acumularam ao longo dos anos, e foi adotado por grande parte do mundo cristão. Mas a Igreja Ortodoxa, que depois de séculos de conflitos se dividiu num ramo próprio do cristianismo – durante o Grande Cisma de 1054 – opôs-se a esta mudança. Se a Igreja Ortodoxa tivesse seguido as correções feitas pelo papa Gregório, tinha de aceitar uma sobreposição ocasional entre a Páscoa judaica e a Páscoa cristã – uma medida que ia contra os textos sagrados do cristianismo ortodoxo. Portanto, a Igreja Ortodoxa rejeitou o calendário gregoriano e continuou a depender do calendário juliano.

E assim ficou durante vários séculos, e a dessincronização do calendário continuou a aumentar. Em 1923, havia uma diferença de 13 dias entre os dois calendários, colocando o Natal Ortodoxo 13 dias depois do dia 25 de dezembro.

Isto explica a existência de dois Natais, mas a crise do calendário continuou. Em maio de 1923, um grupo de líderes ortodoxos reuniu-se para debater o assunto. Em Constantinopla, o Congresso Pan-Ortodoxo reuniu as delegações das igrejas de Constantinopla, Chipre, Grécia, Roménia, Rússia e Sérvia.

Os debates foram muito acesos: o historiador Aram Sarkisian escreve que a Igreja da Rússia tinha sido pressionada a adotar o calendário gregoriano pelos bolcheviques, que abandonaram o calendário juliano no início da Revolução Russa. A revisão do calendário não era apenas uma questão de religião: para as igrejas cuja existência estava ameaçada sob o domínio do comunismo, um ajuste no calendário era uma questão de sobrevivência.

Neste congresso, o cientista sérvio Milutin Milanković propôs uma solução: uma nova versão do calendário juliano que partilhava as suas datas com o calendário gregoriano, embora não partilhasse todos os anos bissextos. Este calendário, conhecido por calendário juliano revisto, foi adotado por várias igrejas ortodoxas, incluindo as igrejas da Grécia, do Chipre e da Roménia. Estas igrejas celebram agora o Natal no dia 25 de dezembro. As outras igrejas ortodoxas, como a da Rússia e do Egito, recusaram. E outras, como na Polónia, adotaram o calendário de Milanković, mas abandonaram-no mais tarde.

Hoje, o cristianismo ortodoxo é a terceira maior denominação cristã, com um número estimado de 260 milhões de crentes. Será que esta confusão no calendário vai dar origem a outra mudança? Talvez, mas até lá, para muitos dos cristãos ortodoxos, a alegria do Natal vai ter de esperar até janeiro.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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