Alves dos Reis: o Maior Falsificador da História Portuguesa

Os 58 anos de vida do cabecilha da maior falsificação de notas de 500 escudos da História: Alves dos Reis.

Monday, January 27, 2020,
Por National Geographic
nota de 500 escudos
Nota de 500 escudos do Banco de Portugal.
Fotografia de Museu do Dinheiro - Banco de Portugal

Em setembro 1896 nasce, em Lisboa, aquele que viria a tornar-se o maior falsificador de toda a História. Artur Virgílio Alves dos Reis foi julgado como criminoso após serem descobertos vários casos de falsificação de notas, documentos e várias burlas.

O percurso criminoso começa em 1914, com 18 anos, quando emigra para Angola, após uma crise financeira no seio familiar. A casa comercial que o seu pai geria faliu no primeiro ano em que Alves dos Reis frequentava o curso de Engenharia, o qual abandonou para casar com Maria Luísa Jacobetty de Azevedo.

Sendo a sua esposa de uma família abastada, Alves dos Reis foge para Angola não apenas para tentar fazer fortuna, mas também para evitar a humilhação e cobrança por parte da família de Luísa, devido ao contraste da condição social entre ambos.

Na ida para Angola, Alves dos Reis comete o primeiro crime, falsificando um diploma que lhe conferia a categoria de engenheiro. Esse diploma era de Oxford, de uma escola que não existia. De acordo com esse mesmo diploma, Alves dos Reis teria estudos de ciência da engenharia elétrica e mecânica, geologia, geometria, física, metalurgia, matemática pura, paleografia, engenharia civil, design mecânico e civil e física aplicada.

Já em Angola, com um cheque sem cobertura, comprou a maioria das ações da companhia dos Caminhos de Ferro Transafricanos de Angola, em Moçâmedes. Com tal feito tornou-se um homem rico e com prestígio.

Caso de Ambaca – Ano de 1922
Alves dos Reis voltou para Lisboa em 1922. Nesse mesmo ano comprou uma empresa de revenda de automóveis americanos.

Empenhou-se ainda para adquirir a Companhia Ambaca, passando cheques sem cobertura. Depois da aquisição usou o dinheiro da própria companhia para cobrir os cheques sobre a sua conta pessoal. No total, apropriou-se ilegitimamente de 100 mil dólares americanos. Com esse dinheiro comprou ainda a Companhia Mineira do Sul de Angola. Contudo, antes de conseguir controlar a Companhia Ambaca na sua totalidade, foi descoberto e preso na cidade do Porto, em 1924, por desfalque e tráfico de armas.

Caso Vasco da Gama – Ano de 1924
No período encarcerado, que se resumiu a apenas 54 dias, sendo libertado em 1924 devido a pormenores processuais, Alves dos Reis conseguiu conceber o seu plano mais ousado.

A ideia agora era a de falsificar um contrato em nome do Banco de Portugal, que na época era uma instituição parcialmente privada, que lhe iria permitir obter notas ilegítimas, impressas numa empresa legítima e com a mesma qualidade das notas verdadeiras.

Durante o ano de 1924, Alves dos Reis contactou vários cúmplices a fim de obter todas as informações que necessitava. Obteu-as até mesmo através de funcionários que desconheciam as suas verdadeiras intenções.

Para este caso contou com o apoio do financeiro holandês Karel Marang Van Ljsselveere, o espião alemão Adriano Silva, Moura Coutinho, Manuel Roquette e José Bandeira, irmão de António Bandeira, embaixador português em Haia, Países Baixos.

Alves dos Reis preparou um contrato fictício e conseguiu o seu reconhecimento notarial. Através de José Bandeira, obteve a assinatura de António Bandeira. Conseguiu ainda que tal contrato fosse validado pelos consulados de Inglaterra, Alemanha e França, traduzindo também para francês e falsificando as assinaturas da administração do Banco de Portugal. Alves dos Reis falsificou também cartas supostamente remetidas pelo Banco de Portugal.

O número de notas de 500 escudos ilegítimas era quase tão elevado como o de notas legítimas impressas.
A primeira entrega ocorreu em fevereiro de 1925, um ano depois das notas verdadeiras entrarem em circulação. Passavam entre Inglaterra e Portugal com a ajuda dos seus cúmplices, incluindo José Bandeira, que fazia uso das vantagens diplomáticas do seu irmão, Karel Marang e as ligações ao consul da Libéria, em Londres.

Com o dinheiro até então ganho, Alves dos Reis fundou o Banco de Angola e Metrópole em junho do mesmo ano. Para abertura do banco recorreu também à falsificação do respetivo alvará, entre outros documentos.

Ainda nesse ano, investiu na bolsa de valores e no mercado de câmbios. Comprou o Palácio do Menino de Ouro (atual edifício do British Council, em Lisboa), adquiriu quintas e uma frota de táxis. Tentou ainda comprar o Diário de Notícias.

O expoente do seu plano era controlar o Banco de Portugal, de forma também a cobrir as falsificações e abafar qualquer investigação. Para tal, durante o verão de 1925, comprou 7 mil ações do Banco de Portugal. No final de setembro já detinha 9 mil ações e, no final de novembro, chegou às 10 mil de 45 mil ações necessárias para o controlo.

"A Capital", publicação de 8 de dezembro de 1925.
Fotografia de Hemeroteca Digital

A revelação – Ano de 1925
Em 1925 começam a surgir rumores de notas falsas, embora os especialistas de contrafação dos bancos nada detetassem.

A partir de novembro desse ano, os negócios pouco transparentes do Banco de Angola e Metrópole começam a atrair a curiosidade de vários jornalistas.

A burla acaba por se tornar publica em dezembro do mesmo ano, pelas páginas do jornal O Século.

A revelação veio quando o Banco de Portugal enviou para o Porto o inspetor do Conselho do Comércio Bancário, João Teixeira Direito, com o objetivo de investigar os vultosos depósitos pelo Banco de Angola e Metrópole em notas de 500 escudos novas. Entretanto conseguiram detetar uma nota duplicada, com o mesmo número de série, nos cofres da delegação do Porto do Banco Angola e Metrópole. Em seguida, começaram a detetar muitas mais notas com números repetidos, à medida que cada agência bancária colocavam as notas no cofre por ordem numérica, conforme instruções dadas, a fim de detetar mais duplicações.

O património do Banco de Angola e Metrópole foi confiscado e foram obtidas as provas necessárias para a prisão de Alves dos Reis, a 6 de dezembro, assim como da maior parte dos seus associados.

Prisão – Do ano de 1925 a 1930
Alves dos Reis foi preso com 27 anos. Permaneceu preso desde o julgamento a 6 de dezembro de 1925 até 8 de maio de 1930.

Nesse período conseguiu convencer um juiz de instrução que a própria administração do Banco de Portugal estava envolvida em toda a fraude, tendo sido a responsável pela falsificação de documentos na prisão. Durante este período tentou ainda suicidar-se.

Já no primeiro caso da Companhia de Ambaca, Alves dos Reis conseguiu enganar o juiz. Já nesse caso tinha conseguido uma boa fortuna com os três crimes de falsificação e desfalques.

Aos 32 anos de idade foi então julgado, no Tribunal de Santa Clara, em Lisboa, sendo condenado a 20 anos de prisão.

Durante o seu julgamento alegou que o seu único objetivo era apenas o desenvolvimento de Angola. Já na prisão, converteu-se ao protestantismo.

A Libertação – Ano de 1945
A sua libertação deu-se em maio de 1945, durante a era do Estado Novo, após a morte da sua esposa.

Já inserido na sociedade, recebeu uma proposta para empregado bancário, que veio a recusar.

Antes de morrer de ataque cardíaco, com 58 anos, foi ainda condenado por burla de venda de café de Angola. Sete anos depois de sair da prisão, burlou em 60 mil escudos um negociante de Lisboa, a quem prometera 6400 arrobas de café angolano, inexistentes. Desta vez já não cumpriu a pena respetiva, falecendo a 9 de junho de 1955.

Dos seus cúmplices, o que teve menor pena foi Karel Marang, sentenciado somente a 11 meses de cadeia, julgado na sua terra natal, em Holanda. Posteriormente, naturalizou-se francês, onde viveu até aos últimos dias da sua vida em Cannes, muito rico.

O maior dos burlões
Considerado o maior burlão da História de Portugal, Alves dos Reis, ao contrário dos banqueiros e dos políticos que até hoje lideraram Portugal, não fez desaparecer dinheiro do erário público com destino a paraísos fiscais. O seu erro foi, de facto, a ostentação, que despertou a curiosidade da imprensa e o ciúme de alguns magnatas e políticos do seu tempo.

Foi condenado, acabando por confessar todos os seus crimes e identificando todos os envolvidos nos seus planos de golpe.

A burla das notas de 500 escudos abalou o sistema politico e financeiro da época. A fraude que organizara teve repercussões em todo o país e em muitas figuras públicas e do governo, levando algumas a tribunal e até mesmo à prisão, como o governador e o diretor do Banco de Portugal.

O governo de Portugal foi ridicularizado e contestado pela opinião pública durante todo o processo. Alves dos Reis morreu na pobreza e no esquecimento geral.

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