Descobertos Relevos de Pedra Assírios ‘Extremamente Raros’ no Iraque

Os relevos de pedra com mais de 2.700 anos datam do reinado do poderoso rei Sargão II.

Monday, January 27, 2020,
Por Andrew Lawler
Estes relevos antigos, que raramente são encontrados fora dos palácios, retratam uma procissão de deuses assírios, ...
Estes relevos antigos, que raramente são encontrados fora dos palácios, retratam uma procissão de deuses assírios, incluindo a sua divindade principal, Assur, e a sua consorte, Mullissu, em cima de leões, dragões e outros animais.
Fotografia de Isabella Finzi Contini

No século VIII a.C., o rei assírio Sargão II governou um império rico e poderoso – que incluía grande parte do Médio Oriente da atualidade – e instigou o medo entre os seus vizinhos. Agora, uma equipa de arqueólogos curdos, italianos e iraquianos, que trabalham no norte do Iraque, descobriram 10 relevos de pedra que adornavam um sofisticado sistema de canais de irrigação. A descoberta é surpreendente porque estas esculturas, que têm detalhes meticulosos, só costumam figurar nos palácios reais. E a descoberta também revela algo mais sobre as impressionantes obras financiadas por um líder que ficou conhecido apenas pelas suas proezas militares.

"Os relevos de pedra assírios são monumentos extremamente raros", disse Daniele Morandi Bonacossi, arqueólogo na Universidade de Udine, em Itália, que coliderou a recente expedição. Salvo uma exceção, não foram encontrados relevos destes nas suas localizações originais desde 1845. "E é muito provável que existam mais relevos, e talvez até inscrições cuneiformes comemorativas monumentais, enterrados sob os detritos que cobriam o canal.”

Os arqueólogos descobriram os relevos de pedra enquanto escavavam um antigo canal de irrigação no norte do Iraque. Esta arte provavelmente honra o patrono do canal, o rei assírio Sargão II.
Fotografia de Alberto Savioli

Este sítio arqueológico fica perto da cidade de Faydah e da fronteira com a Turquia e esteve vedado aos investigadores durante meio século devido aos conflitos modernos. Em 1973, uma equipa britânica descobriu o topo de 3 painéis de pedra, mas as tensões entre os curdos e o regime Baath, em Bagdad, impossibilitaram a continuação dos trabalhos. Em 2012, uma expedição liderada pelo italiano Morandi Bonacossi regressou ao local e encontrou mais 6 relevos. Mas a invasão que se seguiu, às mãos do ISIS, interrompeu novamente os esforços de investigação; a frente de batalha entre o Estado Islâmico e as forças curdas ficava a menos de 32 km de distância, mas em 2017 os fundamentalistas muçulmanos foram derrotados.

Durante o outono do ano passado, Morandi Bonacossi e Hasan Ahmed Qasim – do departamento de antiguidades Dohuk, no Curdistão iraquiano – catalogaram um conjunto de 10 relevos ao longo das margens de um antigo canal com 6.4 km de comprimento. De acordo com o arqueólogo italiano, a cena representada pelos relevos é única.

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Fotografia de NGP

Os painéis exibem um rei – que os arqueólogos acreditam ser Sargão II – a observar uma procissão de deuses assírios, incluindo a divindade principal, Assur, a montar um dragão e um leão com chifres, e a sua consorte Mullissu num trono suportado por leões. Entre as figuras está Astarte, a deusa do amor e da guerra, Samas, o deus do sol, e Nabu, deus da sabedoria. Os arqueólogos suspeitam que estas imagens podem enfatizar a fertilidade do poder divino e do poder terreno.

"Estes relevos sugerem que as cenas carregadas de mensagens políticas sobre o poder real e sobre a sua legitimidade divina podem ter sido comuns", disse Jason Ur, arqueólogo na Universidade de Harvard, que está a investigar os antigos sistemas de água da região. Esta descoberta revela que as obras de arte “não estavam apenas nos palácios imperiais, mas por todo lado, mesmo em zonas onde os agricultores extraíam água dos canais para irrigarem os seus campos.”

O canal contorna uma extensão de colinas que ficam nas proximidades e tinha ramificações que possibilitavam a irrigação intensiva de campos de cevada, de trigo e de outras culturas. Estes campos ajudaram a alimentar os 100 mil habitantes – ou mais – de Nínive, que naquela altura era uma das maiores cidades do mundo. As ruínas desta vasta metrópole ficam a cerca de 100 km a sul, na outra margem do rio Tigre, na cidade de Mossul da atualidade.

Há cerca de 2.700 anos, este canal fornecia água às quintas que ajudavam a abastecer a cidade de Nínive, a antiga capital do Império Neo-Assírio.
Fotografia de Alberto Savioli

Sargão II governou numa época que os historiadores chamam de Império Neo-Assírio, dominando a região entre 911 a.C. e 609 a.C., sucumbindo às mãos dos persas e dos babilónios. Os assírios, o primeiro exército a usar armas de ferro, desenvolveram técnicas militares avançadas para derrotar os seus inimigos.

Quando Sargão assumiu o trono em 721 a.C., conquistou de imediato o reino rebelde no norte de Israel e deslocou à força milhares de pessoas. A Bíblia menciona que Sargão dominou a cidade costeira de Asdode, e os arqueólogos encontraram recentemente uma muralha que parece ter sido construída à pressa em torno desta povoação, mas a muralha não conseguiu dissuadir os invasores. E o reino do sul de Judá evitou o mesmo destino de Israel prestando vassalagem.

As vitórias militares de Sargão continuaram pela Anatólia e pelo Planalto Iraniano. De regresso a casa, Sargão construiu uma nova capital nos arredores de Nínive, em Dur Sharrukin, que significa "fortaleza de Sargão", mas não existem muitas informações sobre as suas atividades não-militares. De acordo com os arqueólogos, os relevos encontrados em Faydah podem representar o apoio real que era dado às terras que ficavam perto do coração de Assíria.

O filho de Sargão, Senaqueribe, expandiu esta rede e construiu aquele que pode ser o aqueduto mais antigo do mundo, uma estrutura sustentada por arcos de pedra e cimento impermeável que atravessa um rio perto de Nínive. “Sobre vales íngremes, atravessei um aqueduto de blocos de calcário branco; Eu fiz aquelas águas fluírem” – gabava-se Senaqueribe numa das inscrições.

A arqueóloga Stephanie Dalley, da Universidade de Oxford, argumenta que os lendários Jardins Suspensos da Babilónia podem ter sido construídos em Nínive para tirar partido abundância de água que chegava à cidade. Embora esta seja uma tese controversa, Jason Ur e outros investigadores afirmam que os estudiosos subestimaram as capacidades tecnológicas assírias fora dos campos de batalha.

A expedição que fez esta descoberta utilizou tecnologias avançadas, incluindo digitalização a laser e fotogrametria digital, para registar todos os detalhes dos relevos de pedra e o seu contexto. E um drone captou fotografias aéreas de alta resolução que permitem aos investigadores mapear a rede completa do canal.

Mas estes preciosos vestígios do mecenato de Sargão estão "fortemente ameaçados pelo vandalismo, pelas escavações ilegais e pela expansão da vila vizinha", alertou Morandi Bonacossi. Em maio do ano passado, um dos relevos foi vandalizado por um suposto saqueador, e outro dos painéis foi danificado quando um agricultor começou a expandir o seu estábulo. E em 2018, foi construído um aqueduto moderno que atravessa o antigo canal.

O objetivo principal, disse Morandi, é criar um parque arqueológico que inclua outros relevos e obter a proteção do Património Mundial da UNESCO para todo o sistema hidráulico – sistema que foi construído por vários governantes assírios cinco séculos antes da chegada dos romanos.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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