A História das 999 Raparigas no Primeiro Transporte de Judeus para Auschwitz

No 75º aniversário da libertação do campo de extermínio, uma sobrevivente recorda como chegou a Auschwitz em março de 1942 – e os terríveis anos que se seguiram.sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Por Heather Dune Macadam

POPRAD, ESLOVÁQUIA – Há 75 anos, os soldados russos avançavam sobre Auschwitz. Estávamos no dia 27 de janeiro de 1945, quando os portões do campo de concentração foram finalmente abertos para cerca de 6 mil prisioneiros. Dias antes, os nazis tinham forçado cerca de 30 mil prisioneiros a abandonar o campo a pé durante uma tempestade de neve.

"Abrimos e fechámos Auschwitz", diz Edith Grosman sobre o martírio que passou. Tudo começou em 1942, quando Edith e mais de 900 jovens eslovacas, muitas delas adolescentes, embarcaram no primeiro transporte oficial de judeus para Auschwitz. Muitas das raparigas não conseguiram resistir, mas Edith teve a sorte de sobreviver até ao armistício do dia 8 de maio de 1945.

Edith e eu estamos sentadas num quarto de hotel da era soviética, em Poprad, uma cidade pitoresca na Eslováquia. Do lado de fora da janela, os picos cobertos de neve dos Altos Tatras pairam à distância. No interior, Edith, agora com 95 anos, fala dos eventos fatídicos que moldaram a sua vida. Ouvir a sua história inspirou-me a manter viva a memória das dificuldades e da coragem destas mulheres. Entrevistei três sobreviventes – cinco ainda estão vivas – e recorri aos testemunhos preservados no arquivo da Fundação USC Shoah. O meu livro, 999: As Jovens Extraordinárias Do Primeiro Transporte Oficial De Judeus Para Auschwitz, marca o 75º aniversário da sua libertação.

“Era de manhã, tínhamos acabado de acordar”, diz Edith, estendendo lentamente as mãos e gesticulando no ar, “e do lado de fora da janela vimos cartazes colados nas paredes das casas. Os cartazes diziam que todas as raparigas judias solteiras, com 16 anos ou mais, tinham de se apresentar na escola, no dia 20 de março de 1942, para trabalhar.”

Edith Friedman, na altura com 17 anos, sonhava em ser médica; Lea, a sua irmã de 19 anos, queria ser advogada. Mas estas aspirações foram frustradas dois anos antes, quando a Alemanha de Hitler anexou a Eslováquia. O governo da República Eslovaca, em conluio com os nazis, começou a implementar leis draconianas contra os judeus, revogando inclusivamente o direito à educação após os 14 anos de idade. “Nem sequer podíamos ter um gato”, diz Edith, incrédula, erguendo as sobrancelhas.

Edith faz uma pausa e depois suspira de forma pesarosa enquanto recorda as leis instituídas. “Os meus pais estavam prontos para enviar duas filhas.”

Hanna, a mãe de Edith, objetou contra esta decisão. “Ela disse que era uma lei má!”

Mas as autoridades de Humenné, a sua cidade, garantiram aos pais que as filhas iam trabalhar como “voluntárias contratadas” numa fábrica de botas para as tropas. Foi então que a mãe colocou as poucas posses que tinha das suas filhas em sacolas e enviou Edith e Lea para se registarem nesta nova força de trabalho feminina. Hanna pensava que as filhas iam regressar a casa para almoçar.

Edith conhecia grande parte das cerca de duzentas jovens, muitas delas também adolescentes, que estavam na fila. “Humenné era como uma família grande – todas as pessoas se conheciam.” As autoridades locais e militares fizeram o registo, mas entre as autoridades estava um homem com um uniforme das SS, ou Schutzstaffel (Tropas de Proteção). “Eu achei estranho ver um membro das SS ali”, diz Edith.

Depois de efetuados os registos, um médico ordenou que as raparigas se despissem, para fazerem um exame de saúde. Tirar a roupa em frente a homens desconhecidos era inédito, mas quem eram elas para questionar a autoridade? “Não foi um exame real”, diz Edith em tom de escárnio. “Nenhuma foi rejeitada.”

Os pais reuniram-se à porta da escola, mas a hora de almoço passou sem notícias das raparigas. Foi então que começaram a ficar preocupados – porque é que estavam a demorar tanto, sobretudo a uma sexta-feira, quando as famílias se estavam a preparar para o Sabat judaico. Depois, alguém reparou que os guardas tinham levado as raparigas pela porta das traseiras da escola, em direção à estação de comboio. Os pais, completamente agitados, perseguiram as autoridades aos gritos, exigindo saber qual era o destino das suas filhas. Mas não obtiveram resposta.

Na estação, as raparigas entraram nas carruagens sem sequer terem a oportunidade de dar um beijo de despedida aos seus pais. Edith conseguia ouvir a voz da mãe no meio da multidão. “Não estou muito preocupada com a Lea, mas a Edith parece uma vara verde.” Era uma piada de família, eles diziam que, se a Edith não tivesse cuidado, podia ser levada pelo vento.

Quando o comboio partiu da estação, algumas das raparigas mais velhas tentaram animar as mais novas. “Eu pensei que estávamos de partida para uma aventura”, disse Margie Becker, uma das amigas de infância de Edith. “Quando vimos as montanhas maravilhosas – Montanhas Tatra – estávamos todas a cantar As Belas Montanhas e o hino nacional da Eslováquia.”

Em Poprad, a cerca de 120 km a oeste de Humenné, Edith e as suas amigas desembarcaram do comboio e foram levadas para um quartel vazio do exército. Na manhã seguinte, os guardas colocaram-nas a trabalhar na limpeza do quartel. “Nós pensámos, talvez seja isto”, diz Edith. “Talvez seja este o trabalho que vamos fazer.” Depois, chegou outro comboio cheio de raparigas. E no dia seguinte, chegaram mais comboios vindos das regiões circundantes, todos cheios de jovens solteiras judias.

Cinco dias depois do grupo de Edith ter partido de Humenné, já tinham chegado a Poprad quase mil jovens. Depois, os guardas disseram às raparigas para fazerem as malas. Quando saíram do quartel, viram carruagens para o gado alinhadas na linha férrea. “Estávamos todas a chorar”, diz Edith. “E cheias de medo.”

Edith diz que as raparigas se recusaram a entrar no comboio, mas foram espancadas pelos guardas até entrarem nos vagões húmidos e que tresandavam a estrume. “Eu estava com a minha irmã e com as nossas amigas mais chegadas – queríamos ficar juntas. Não havia nada dentro da carruagem. Não havia um balde. Não havia água. Nada. Só uma janela minúscula.” Edith desenha um pequeno retângulo com os dedos para mostrar o tamanho da janela. “E estava trancada do lado de fora.”

As raparigas não faziam ideia para onde iam, e por mais aterrorizada que Edith estivesse, sentia alguma segurança por estar com Lea, a sua irmã; e com Margie, a rapariga da loja perto de sua casa; com Adela Gross e os seus cabelos vermelhos fogosos; com Anna Herskovic, que adorava ir ao cinema com Lea; e com outras raparigas que conheciam da escola, da sinagoga e do mercado.

Depois de horas de viagem, a meio da noite, o comboio parou na fronteira entre a Eslováquia e a Polónia. A transação secreta entre os dois governos estava concluída, e os eslovacos ainda pagaram 500 reichsmarks (cerca de 250 euros) aos nazis por cada jovem levada para trabalhos forçados. E assim, a primeira remessa oficial com vítimas da “solução final” de Hitler chegou à ponta sudoeste da Polónia.

Vida – e morte – em Auschwitz

Porque é que o plano de Hitler – erradicar os judeus através de campos de trabalho forçado na Polónia – começou com 999 raparigas? O governo fascista queria eliminar as mulheres férteis, mulheres capazes de gerar a próxima geração de judeus, mas também, segundo o historiador eslovaco Pavol Mešťan, era mais fácil fazer com que as famílias abdicassem das filhas do que dos filhos. Para além disso, acreditava-se que as raparigas poderiam atrair as suas famílias para os campos de trabalho, diz Mešťan, onde os judeus estavam a ser realojados – um eufemismo nazi para exterminados.

Quando o comboio finalmente parou, Edith, Lea e as suas amigas encontravam-se no que parecia ser um terreno baldio, com nada para além de neve até onde a vista conseguia alcançar. “Era um lugar vazio – não havia ali nada”, exclama Edith.

Os guardas ordenaram outros homens – com uniformes às listas – para usarem bastões e expulsar as mulheres do comboio. Um sobrevivente polaco lembra-se de sussurrar para as raparigas: “Vão depressa! Não vos queremos magoar.” Depois de terem passado quase 12 horas dentro de um vagão gelado, Edith e as outras raparigas tiveram muitas dificuldades para conseguirem levar os seus pertences através dos campos nevados, em direção ao que uma das sobreviventes descreveu como “luzes intermitentes e caixas”. Até então, Auschwitz tinha servido como um campo de concentração para homens, principalmente prisioneiros de guerra e membros da resistência. Edith não fazia ideia de que os homens com bastões eram prisioneiros. E muito menos de que, também ela, era prisioneira, embora se interrogasse sobre as vedações de arame farpado.

Quando as raparigas entraram no campo, Linda Reich, uma das sobreviventes, sussurrou para uma amiga: “Esta deve ser a fábrica onde vamos trabalhar.” A estrutura a que Linda se referia era uma câmara de gás.

Durante os três anos que se seguiram, foram construídas cinco câmaras de gás e um crematório dentro de um complexo de quartéis que cobria uma área com mais de 40 km quadrados. Apesar de naquela altura o Reich ainda não ter as câmaras de gás completamente operacionais, os nazis tinham outras formas para eliminar mulheres jovens e saudáveis – uma dieta de fome, com cerca de 600 calorias por dia, combinada com trabalho árduo que incluía a demolição de edifícios e a limpeza de pântanos com as próprias mãos. “As raparigas começaram a morrer.”

“Algumas pessoas dizem que os anjos têm asas”, diz Edith com uma voz suave e introspetiva. “Mas os meus anjos tinham pés.” Um dos trabalhos menos árduos do campo era separar as roupas e os pertences dos novos prisioneiros. Margie Becker foi designada para essa tarefa e, quando os sapatos de Edith se estragavam, Margie arranjava-lhe um par em condições. “Os sapatos podem salvar uma vida”, diz Edith.

Mas, para salvar a irmã de Edith, era preciso mais do que um par de sapatos. Em agosto de 1942, as mulheres foram transferidas para outro campo no complexo de Auschwitz: Birkenau. Neste campo, as condições de vida eram tão precárias que uma epidemia de febre tifoide alastrou rapidamente pelos blocos de celas dos homens e mulheres, matando não só prisioneiros como guardas das SS.

Quando Lea adoeceu, fazia um trabalho que exigia ficar o dia todo de pé, dentro de água fria, a limpar valas. Durante várias semanas, Edith deu a sua sopa a Lea, porque ela não conseguia engolir pão. Depois, chegou a um ponto em que já não se conseguia levantar, estava febrilmente doente.

De alguma forma, Edith teve a sorte de ser designada para a seleção de roupas e, uma noite, quando regressava para o seu bloco de celas depois do trabalho, teve conhecimento de que Lea tinha sido transferida para o Bloco 22, a enfermaria. Ninguém regressava do Bloco 22, era onde os prisioneiros aguardavam até serem levados de camião para as câmaras de gás.

Edith ainda conseguiu esgueirar-se para ver Lea, mas encontrou-a deitada no chão de terra. “Segurei-lhe a mão e dei-lhe um beijo no rosto. Eu sei que ela me conseguia ouvir. Eu estava ali sentada, a olhar para aquela cara bonita, e sentia que devia ser eu no lugar dela. A culpa de quem sobrevive nunca desaparece.”

No dia seguinte, 5 de dezembro, Edith regressou ao Bloco 22 antes de ir trabalhar, mas Lea ainda estava deitada na terra. Ela estava a “definhar”, diz Edith. “Estava tanto frio que ela já estava coma.” Edith não teve outra escolha, a não ser abandonar a irmã.

Nesse mesmo dia, os nazis tomaram medidas para limpar o campo de prisioneiros infetados com febre tifoide. Quando as mulheres do grupo de Edith regressaram do trabalho, foram obrigadas a despir-se e a marchar nuas pelos portões, passando pelos guardas das SS. As mulheres que tinham marcas visíveis de febre tifoide foram imediatamente levadas para as câmaras de gás.

A vista dentro dos portões deixou Edith perplexa. “O campo estava vazio.” A sobrevivente Linda Reich lembra-se de ter encontrado cerca de vinte mulheres no seu bloco, mas naquela manhã estavam lá mil. Foram todas levadas para as câmaras de gás, e Lea estava entre elas.

A vida sem Lea não era uma vida que Edith quisesse viver, mas ela era uma lutadora. “Porque razão sobrevivemos, se não for para contar?” Para Edith, a coragem para continuar a lutar – e a vontade de sobreviver – veio de um dos seus anjos com os pés, Elsa Rosenthal, que tinha 16 anos. As lagerschwestern, ou irmãs de campo, eram como se fossem irmãs verdadeiras para as raparigas que precisavam de ajuda, sobretudo depois da morte de um familiar. Elsa, irmã de campo de Edith, certificava-se de que ela comia, e também dormia ao lado dela durante a noite para a manter quente. E também disse a Edith: “Não consigo sobreviver sem ti”.

“Por isso, tive de sobreviver”, diz Edith.

Abandonar Auschwitz – “a neve estava vermelha de sangue”
Quase três anos depois de chegarem a Auschwitz, Edith e as poucas amigas que restavam enfrentaram uma provação final. Os nazis estavam a planear evacuar o campo para fugirem do exército soviético que se aproximava. Ao longe, o céu noturno brilhava em tons de vermelho e amarelo enquanto Cracóvia ardia. No dia 18 de janeiro de 1945, no meio de uma tempestade de neve, os últimos prisioneiros de Auschwitz foram forçados a participar naquela que ficou conhecida como a marcha da morte. Estima-se que morreram cerca de 15 mil prisioneiros dos campos de Auschwitz nestas marchas de vários dias – que atravessavam a Polónia em direção à fronteira com a Alemanha.

Entre todos os horrores sofridos pelas raparigas do primeiro transporte, “este foi o pior”, diz Edith. “A neve estava vermelha de sangue.” Se um prisioneiro tropeçasse e caísse, ele ou ela eram imediatamente abatidos. As irmãs de campo tinham a vida pendurada por um fio. Se uma das suas amigas caísse na neve, Elsa e Edith ajudavam-na rapidamente a levantar-se, antes de serem abatidas pelos oficiais das SS. Quando Edith sentiu que não já não conseguia dar mais um passo, foi a sua amiga de infância, Irena Fein, que insistiu para ela continuar. Não havia comida e dormiam em celeiros. “Fui com a minha perna a coxear até ao fim, não sei como é que consegui sobreviver e as outras raparigas mais saudáveis não.”

Os soldados soviéticos libertaram Auschwitz no dia 27 de janeiro de 1945 e encontraram 7 mil prisioneiros cadavéricos – 4 mil eram mulheres – e centenas de mortos abandonados por todo o lado. Nas semanas seguintes, outras centenas iriam morrer de fome ou devido a doenças.

Enquanto isso, os alemães escravizavam Edith e milhares de outras prisioneiras sobreviventes em Ravensbrück – o infame campo de extermínio de mulheres – e em campos como Bergen Belsen, na Alemanha, e Mauthausen, na Áustria. A sobrelotação e a fome ameaçavam a vida de todos. Quando uma tijela de sopa caía no chão, as mulheres ajoelhavam-se e tentavam lambê-la, lembra Linda Reich.

Edith e Elsa foram enviadas para outro campo de trabalho onde limpavam as pistas de aterragem que estavam a ser repetidamente bombardeadas pelos Aliados. Edith diz que, quando os bombardeiros começaram a atacar as instalações, os guardas das SS correram para os seus bunkers, mas os prisioneiros correram para a cozinha – “Para termos uma vida melhor, só precisávamos de comida.”

No dia 8 de maio de 1945, foi declarado o armistício na Europa. Das 999 jovens do primeiro transporte oficial de judeus para Auschwitz, estima-se que tenham sobrevivido menos de 100, entre elas estavam 8 amigas de infância de Edith. Foram necessárias mais 6 semanas para Edith e Elsa regressarem a casa, na Eslováquia. Já em casa, Edith enfrentou outra provação. Tinha contraído tuberculose óssea em Auschwitz e, depois da libertação, adoeceu gravemente. “Fiquei fisicamente incapacitada por Auschwitz. E a Elsa ficou muito debilitada psicologicamente” – viveu atormentada pelo medo e pela ansiedade o resto da vida.

Apesar da sua doença, Edith diz: “Senti tanta esperança pelo mundo, pela humanidade, pelo nosso futuro. Pensei, agora o mundo vai mudar para sempre.” E Edith também estava apaixonada. Em 1948, casou-se com o argumentista e escritor Ladislav Grosman, cujo filme, A Loja da Rua Principal, ganhou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1965. Ladislav morreu em 1981.

Embora o sonho de Edith em seguir medicina lhe tenha sido negado, terminou o ensino secundário e trabalhou como bióloga na Checoslováquia comunista, e mais tarde em Israel. Agora, vive em Toronto, no Canadá, perto dos seus netos e bisnetos.

“Temos os nossos pequenos infernos, mas também temos os nossos pequenos paraísos", diz Edith sobre a sua vida. “Eu tive de tudo nesta Terra.”

Contudo, mais de 75 anos depois de Auschwitz, Edith ainda sente intranquilidade – o mundo não correspondeu à esperança que sentiu em 1945. O antissemitismo está novamente em ascensão. Os crimes de ódio contra as minorias assombram as notícias. “Porque é que ainda existem guerras?”, pergunta Edith. “Por favor, por favor, precisamos de perceber que, na guerra, não existem vencedores.” A voz de Edith está frágil, mas revela um sentido de urgência. “Uma guerra é a pior coisa que pode acontecer à humanidade.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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