O Mundo Está Mais Violento?

Já com sete anos de uma caminhada épica pelo mundo, o jornalista Paul Salopek reflete sobre a nossa propensão para a violência.

Friday, January 24, 2020,
Por Paul Salopek
Paul Salopek a percorrer o remoto Corredor de Wakhan, no Afeganistão, em setembro de 2017, na ...
Paul Salopek a percorrer o remoto Corredor de Wakhan, no Afeganistão, em setembro de 2017, na sua caminhada pelo mundo.
Fotografia de Matthieu Paley, Nat Geo Image Collection

Em janeiro, há sete anos, comecei a caminhar pelo planeta. Na altura, interrogava-me sobre a forma como os conflitos humanos poderiam moldar a minha rota. E como se veio a verificar, não precisei de ir muito longe para encontrar a minha primeira guerra. Um destes conflitos envolvia a linha de partida da minha jornada, no árido Vale do Rift, na Etiópia.

O meu companheiro de caminhadas local, Ahmed Elema Hessan, um balabat, ou líder tradicional, do grupo pastoral Afar, conseguia ver as linhas da frente. Mas eu não.

"Vá para a esquerda!", dizia Ahmed, enquanto atravessávamos o que parecia ser um deserto inexpressivo. "Não, ainda mais para a esquerda!"

Estávamos a caminhar para norte, para o Golfo de Áden, que ficava a mais de 320 km de distância, e a contornar fronteiras invisíveis (para mim) invadidas por pastores "inimigos": os temidos Issa. Os Afar e os Issa estavam envolvidos num antigo conflito sobre recursos devido à escassez de poços de água e pastagens. E matavam-se uns aos outros. Numa das zonas onde acampámos, deitei-me ao lado de uma fogueira que apagámos cedo para evitar a deteção, e fiquei com as botas calçadas dentro do saco-cama, pronto para correr, receando ouvir o som de tiros pelo meio dos uivos das hienas. Há quantos anos foi isto?

A rota planeada e o trajeto que Paul Salopek já completou, na sua caminhada pelo planeta.
Fotografia de CLARE TRAINOR, NGM STAFF

O dia 11 de janeiro marcou o sétimo aniversário dos meus primeiros passos a sair de África. Desde então, registei cerca de 16 mil km num projeto narrativo chamado Out of Eden Walk, que visa recriar a jornada da humanidade desde o continente-mãe, em África, até à ponta da América do Sul. Acabei de completar uma travessia de 18 meses pelo norte da Índia, a caminho da China. Ultimamente, tenho ouvido rumores de novos conflitos no Médio Oriente. E isso fez-me pensar – enquanto caminho – sobre a propensão inabalável da nossa espécie para a violência.

“Não tem medo que alguém lhe corte a cabeça?”

“Já foi assaltado?”

“Como faz com as minas terrestres?”

Por vezes, quando faço videoconferências do meu trilho para salas de aulas no mundo inteiro, os alunos perguntam-me estas questões. O receio do mundo desconhecido costuma evidenciar-se mais nos norte-americanos, ou em outros residentes de países a norte do planeta. Creio que isso é normal. É nesta região que, pelo menos atualmente, grande parte dos ativos materiais do planeta está concentrada. Viver com segurança num mundo de desigualdades significa viver com o receio de uma perda antecipada. É como se o medo viesse no mesmo envelope com a conta da luz.

Dito isto, é verdade: ao longo do caminho, já me deparei com uma agressividade humana com níveis profundamente pessoais e maldosos.

Em 2014, perto da rota de Salopek, soldados turcos formavam uma barreira humana ao longo da fronteira entre a Turquia e a Síria.
Fotografia de Paul Salopek

Na Etiópia, os Afar e os Issa estavam a morrer numa disputa antiga – uma contenda que quase ninguém na Terra conhece ou quer saber. Mas também fui alvejado pelo exército israelita numa disputa entre aldeões palestinianos e colonos israelitas, na infame região da Cisjordânia. E no leste da Turquia, as milícias curdas emboscaram o meu pequeno grupo de caminhada, confundindo-nos com infiltrados do ISIS vindos da Síria. (Fui obrigado a contornar a Síria.) E uma ofensiva dos Taliban quase que abortou a minha passagem pelo Indocuche do Afeganistão.

Este itinerário pode parecer penoso para os tempos violentos em que vivemos: nunca tantos pontos de caminhada fizeram a ligação entre a humanidade e um mergulho no rio Flegetonte, o rio de sangue ardente onde os assassinos, os promotores de guerras e os tiranos fervem no Inferno de Dante.

Mas as coisas não são bem assim.

No seu livro controverso, The Better Angels of our Nature: Why Violence has Declined, Steven Pinker argumenta que podemos estar a desfrutar, pelo menos estatisticamente, dos tempos mais seguros que a humanidade alguma vez conheceu desde a sua evolução há 300 mil anos. As mortes violentas, variando entre homicídios individuais a ataques com armas químicas, estão em declínio há gerações, escreve Pinker, graças a coisas que vão desde a invenção da agricultura à filosofia humanista que inspira movimentos defensores das minorias. Mas este otimismo é posto em questão por céticos que referem que os derramamentos de sangue colossais entre nações, como a Segunda Guerra Mundial, foram substituídos por guerras menores, mais prolongadas, mais complexas e sangrentas. E quem pensar que esta propensão para a violência se deve aos nossos antepassados, basta olhar para a sede de sangue patente nas manifestações políticas da atualidade.

Apesar de tudo isto, e de uma maneira informal, pela experiência que adquiri a percorrer continentes a pé durante 2.555 dias e noites, posso afirmar que esta realidade não é assim tão dramática: nesta jornada feita ao longo de vários anos e que, eventualmente, vai abranger mais de 30 país e quase 40 mil km, as paisagens com violência têm sido extremamente raras. Provavelmente, mais de 95% da minha rota de GPS, incluindo os meses passados a ziguezaguear pelas zonas atingidas pela guerra no Médio Oriente, não mostraram evidências de conflitos. Por exemplo, nas aldeias do Cáucaso só se ouvia o barulho de tratores. Na Ásia Central, as estradas secundárias estendem-se tranquilamente ao longo de milhares de quilómetros. E no norte do Paquistão, um dos maiores perigos, pelo menos para mim, era a velocidade do trânsito: pareciam homicidas motorizados.

Eu costumo dizer aos alunos que a maioria das pessoas que encontrei na minha caminhada – e que agora devem rondar as dezenas de milhares – desde pastores de camelos assustados a polícias preguiçosos, geralmente são tão humanos como qualquer outro.

Não sou apreciador das ilusões sobre as profundezas da crueldade humana.

“Uma mulher grávida, com um feto de 6 a 9 meses, morta com um golpe na cabeça, com o esqueleto fetal preservado no seu abdómen. A posição das mãos e pés sugere que pode ter sido amarrada antes morrer.”

Esta descrição não pertence a um relatório dos direitos humanos sobre a guerra no Afeganistão, na Ucrânia ou no Iémen dos tempos modernos. É a descrição de um sítio arqueológico com 10 mil anos de idade, no Quénia, que revelou evidências de uma brutalidade extraordinária entre os antigos caçadores-coletores – os pioneiros cujos passos estou a recriar. Os cientistas encontraram 27 corpos de mulheres, homens e crianças espalhados por este local de um massacre pré-histórico.

Temos de evitar cair nos lugares-comuns.

E eu já descobri que as caminhadas ajudam.

Caminhar ensina-nos a sermos pacientes. Funciona como um antídoto contra o medo. Faz desaparecer o cinismo sobre a violência entre Homo sapiens. As caminhadas conseguem suster a esperança, e faz de nós crianças novamente.

A guerra mais impressionante que encontrei na minha jornada até agora estava nas memórias de um homem de barba espessa chamado Mohammed Sirajuddin Ahmed, um agricultor de 69 anos de Assam, no nordeste da Índia.

Sirajuddin vivia numa pequena aldeia chamada Nellie que foi o palco de um infame massacre comunitário de muçulmanos às mãos de hindus em 1983. Cerca de 2 mil agricultores e respetivas famílias foram perseguidos e abatidos nos campos. (Uma das testemunhas diz que as vítimas tentaram proteger-se das flechas e balas com frigideiras – chamadas kadhais.) Sirajuddin conseguiu escapar, mas quatro dos seus cinco filhos não. A sua esposa, Rejia Begum, estava grávida quando foi atingida com uma lança nas costas, mas sobreviveu, embora tenha perdido o bebé.

“Porque é que vocês continuam a vir aqui para falar sobre isso?” Disse Sirajuddin, repreendendo-me de forma educada. "Já não nos lembramos disso, exceto quando a comunicação social aparece por aqui. E depois escrevem sobre isso e o que é que acontece? Nada."

Mesmo assim, Sirajuddin saiu mais uma vez para os arrozais para me mostrar onde outrora os mortos tinham sido empilhados. “O pior da guerra, vizinho contra vizinho.” Sirajuddin parecia filosófico, mas a dor fez dele um homem mais sereno. Estava completamente desprovido de amargura.

Em Nellie, todos sabiam quem eram os assassinos. Mas os suspeitos nunca foram julgados ou presos. Um dos acusados, um homem muito amigável que eu entrevistei, ofereceu-me uma limonada gelada antes de eu abandonar a aldeia. Por breves momentos, considerei não aceitar. Mas aceitei, fi-lo por Sirajuddin.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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