O Príncipe Harry Abdicou Mesmo?

A decisão do duque de Sussex, de renunciar aos seus deveres reais, tem contornos semelhantes aos da abdicação de Eduardo VIII feita em 1936.

Wednesday, January 22, 2020,
Por Erin Blakemore
O príncipe Harry e Meghan anunciaram que vão renunciar os seus deveres reais e dividir o ...
O príncipe Harry e Meghan anunciaram que vão renunciar os seus deveres reais e dividir o seu tempo entre o Reino Unido e a América do Norte. O casal tem planos para se concentrar em obras de caridade e também em criar o seu filho, Archie, longe dos olhares do público. Esta imagem mostra o casal a passear numa floresta de sequoias durante uma visita oficial à Nova Zelândia em 2018.
Fotografia de Kirsty Wigglesworth, Pool via REUTERS/TPX Images of the Day

Podemos dizer que esta publicação no Instagram ecoou pelo mundo inteiro: a fotografia dos duques de Sussex sorridentes (o príncipe Harry e Meghan Markle) com o anúncio bombástico de que queriam “dar um passo atrás” nos seus papéis reais. A publicação fez com que muitas pessoas traçassem paralelos com outra situação problemática para a monarquia inglesa: a decisão tomada por Eduardo VIII em 1936 de abandonar o cargo de rei para se poder casar com a norte-americana Wallis Simpson.

Mas, apesar de ambas as situações envolverem membros frustrados da realeza, divórcios americanos e o escrutínio público, as semelhanças não são tão diretas quanto parecem.

O rei que abdicou
No início dos anos 1930, quando o futuro rei de Inglaterra se apaixonou por uma encantadora mulher americana, parecia que se tratava apenas de mais um dos muitos casos do príncipe. Mas quando Eduardo VIII se tornou rei em janeiro de 1936, ficou claro que tinha intenções de casar com Wallis Simpson.

Este casamento apresentava obstáculos a nível político e pessoal. Enquanto monarca, Eduardo era o chefe da Igreja de Inglaterra, e o casamento com Simpson, que já se tinha divorciado duas vezes, iria colocar em questão a política da igreja que proibia os divorciados de se casarem novamente enquanto os seus antigos cônjuges fossem vivos.

Em dezembro de 1936, menos de um ano depois de assumir o cargo, Eduardo VIII tornou-se no primeiro monarca a renunciar voluntariamente ao trono – quando se decidiu casar com a norte-americana Wallis Simpson. Alguns anos depois, no início da Segunda Guerra Mundial, o casal regressou pela primeira vez a Inglaterra e foi fotografado na sua casa temporária em Sussex.
Fotografia de Evening Standard, Getty

Enquanto soberano, Eduardo enfrentou a ira do seu próprio povo, que encarava Simpson como uma "mulher caída em desgraça e à procura de fortuna", que queria manietar o rei. E mesmo entre os conselheiros do palácio, o rei enfrentou a oposição firme de figuras que não gostavam de Simpson e que se interrogavam se esta mulher estaria a exercer algum tipo de controlo sexual sobre Eduardo. O rei chegou a ser investigado e incomodado pelo seu próprio governo e enfrentou rumores que sugeriam que Simpson tinha um caso com Joachim von Ribbentrop, enviado diplomático de Adolf Hitler.

O resultado foi uma crise constitucional e um dilema insuportável para o rei, que há muito temia o papel de monarca. Eduardo ainda fez pressão para conseguir um matrimónio morganático (um casamento entre um nobre da alta aristocracia e uma mulher de origens mais baixas, onde os filhos do casamento não podem herdar terras ou títulos), mas foi recebido com uma oposição feroz pelo seu primeiro ministro e por outras figuras de relevo. E assim, no dia 10 de dezembro de 1936, o rei abdicou. Eduardo e Wallis Simpson mudaram-se para França, onde se casaram um ano depois de se oficializar o segundo divórcio de Simpson.

A renúncia abalou o conceito de monarquia – e alimentou uma curiosidade insaciável sobre Simpson. Em 1936, Wallis Simpson foi eleita a primeira Mulher do Ano pela revista TIME, e os jornais e as revistas dissecaram avidamente todos os seus movimentos, com especulações descaradas sobre os detalhes mais íntimos da sua vida. O jornal New York Sun, por exemplo, publicou fotografias do rei sem camisa e da sua amante em fato de banho, a brincarem na água, em Cannes, e também consultaram médicos especializados sobre a possibilidade de uma gravidez ilícita para outro artigo.

Realeza, mas sem soberania
Tal como aconteceu na década de 1930, a curiosidade pública sobre Meghan Markle, a atriz americana divorciada que se tornou princesa, é aparentemente inesgotável, e os jornais e as revistas entraram logo em ação após o anúncio bombástico feito pelos duques de Sussex. Mas as semelhanças entre a situação de Harry e Meghan com a de Eduardo e Wallis terminam provavelmente aí.

Harry pertence à realeza, mas não é soberano e é apenas o sexto na fila para o trono britânico. O parlamento do Reino Unido tem de aprovar uma lei especial para o remover do seu lugar distante na linha de sucessão e, segundo disse a historiadora Marlene Koenig ao Royal Central, a rainha tem de lhe conceder uma permissão para abandonar o título de Sua Alteza Real.

Até agora, não existem indicações de que o príncipe Harry queira recusar o seu título, ou lugar, na fila de sucessão real. No seu próprio site, o casal diz pretender "maximizar o legado de Sua Majestade" e "continuar orgulhosamente a fazê-lo" integrados num "novo modelo de trabalho" onde dividem o seu tempo entre o Reino Unido e a América do Norte, renunciando às presenças cerimoniais.

Os duques de Sussex planeiam continuar a usar a Frogmore Cottage, uma propriedade no Castelo de Windsor, onde atualmente vivem com a permissão da rainha, como residência oficial, embora existam indicações de que provavelmente podem ir viver para a Califórnia ou para o Canadá.

Porém, ao contrário de Eduardo, que recebeu uma pensão vitalícia em troca do seu exílio em França, Meghan e Harry não querem o dinheiro que recebem do Fundo Soberano – pago anualmente pelos contribuintes britânicos à monarquia. (Mas Harry recebe uma quantia bem mais avultada da propriedade privada do seu pai, o príncipe Carlos, o Duque da Cornualha.) Ainda não se sabe como é que esta situação pode evoluir, mas até lá, as comparações diretas com as antigas crises de renúncia parecem tão exageradas quanto a decisão do Museu Madame Tussauds em remover os duques de Sussex da exibição da família real.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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