O que o Mundo Pode Perder com Um Conflito no Irão

Com o aumentar das tensões entre os EUA e o Irão, patrimónios culturais importantes podem acabar como danos colaterais.

Monday, January 13, 2020,
Por Kristin Romey
A cidade iraniana de Yazd, lar de mais de meio milhão de pessoas, foi eleita Património ...
A cidade iraniana de Yazd, lar de mais de meio milhão de pessoas, foi eleita Património Mundial da UNESCO em 2017, um reconhecimento da sua herança arquitetónica singular.
Fotografia de Richard I'Anson, Getty Images

Desde enormes palácios persas a santuários religiosos de extraordinária delicadeza arquitetónica, o Irão abriga 22 locais culturais – que são Património Mundial da UNESCO – e centenas de outros locais históricos de importância global. As ruínas das antigas capitais de Pasárgada e Persépolis ainda emanam o poder cosmopolita do grande império que as construiu, ao passo que as infraestruturas inovadoras que levavam água às antigas cidades no deserto do país ainda funcionam. Milhões de pessoas fazem peregrinações a estes monumentos do Islão xiita e existem cidades iranianas inteiras que foram designadas pela UNESCO como locais de relevância histórica universal.

Colunas de um palácio real com 2.500 anos erguidas em Persépolis, a antiga capital persa construída pelo imperador Dario, o Grande.
Fotografia de DeAgostini/ Getty Images

É por estas razões que os vários tweets do presidente Trump, a dizer que os EUA vão ter como alvo os patrimónios culturais iranianos, foram recebidos com críticas ferozes.

A proteção dos patrimónios culturais está consagrada na Convenção de Haia de 1954 – proteção de bens culturais em caso de conflito armado – e na Convenção de 1972 relativamente à proteção de patrimónios culturais e naturais do mundo. Tanto os EUA como o Irão são signatários de ambas as convenções internacionais.

Muitos argumentam que a Convenção de Haia de 1954 teve as suas origens num documento americano mais antigo, convertido em lei por Abraham Lincoln no auge da Guerra Civil. No Código Lieber pode ler-se: As obras de arte clássicas, bibliotecas, coleções científicas ou instrumentos preciosos, como telescópios astronómicos, bem como hospitais, devem ser protegidos contra todos os danos evitáveis, mesmo quando contidos em locais fortificados durante um cerco ou bombardeamento.

Entre os locais mais valorizados do Irão estão Pasárgada e Persépolis, antigos centros reais do Império Persa onde a enorme escala de visão e expressão artística dos seus arquitetos ainda se destacam mais de 2 mil anos depois. As cidades de Yazd e Shustar também são testemunhos da inovação dos engenheiros da antiguidade que aproveitaram o poder da água para manter as cidades no deserto irrigadas durante milénios. A inscrição multilíngue em Bisotun, comemorando a vitória do imperador persa Dario sobre os seus inimigos, foi comparada à Pedra de Roseta. Depois, temos os monumentos religiosos – desde a magnífica e detalhada Mesquita de Ishfahan, os espaços contemplativos do complexo sufi de Safi al-Din e o mosteiro cristão de São Tadeu do século VII – que revelam a rica diversidade que prosperou no coração da Ásia Ocidental.

Este mirabe elaboradamente esculpido na mesquita de Ishfahan indica o caminho aos fiéis para Meca. Esta mesquita, a mais antiga do Irão, representa 12 séculos de arquitetura islâmica.
Fotografia de Eric Lafforgue, Bridgeman Images

No dia 5 de janeiro, Trump reforçou a ideia dos ataques aos locais culturais do Irão, enquanto questionava a validade da Convenção de Haia de 1954 aos repórteres a bordo do Air Force One: “O Irão pode torturar e mutilar os nossos homens. Pode usar bombas na estrada e explodir os nossos homens. E nós não podemos tocar no seu património cultural? Não é assim que funciona.” (Trump não declarou explicitamente quais eram os locais que planeava atacar.)

Existem boas razões pelas quais os patrimónios culturais são explicitamente protegidos em tempos de guerra: os objetos e monumentos físicos que refletem os valores de uma comunidade ou cultura fornecem um sentimento crucial de coesão e continuidade. A destruição destes monumentos é um ato que apaga a identidade humana.

Os fiéis reúnem-se no pátio do Santuário de Fátima Masumeh, na cidade de Qom. Originalmente construído no século IX d.C., este santuário é considerado um dos monumentos mais importantes do Islão xiita.
Fotografia de Konrad Zelazowski, Getty Images

É por esta razão que o Estado Islâmico se concentrava especificamente em monumentos muçulmanos de grupos religiosos contra os quais lutava. Da mesma forma, foi por isso que as forças sérvias bombardearam a Biblioteca Nacional de Sarajevo. E sabemos bem como é que estas perdas podem ser dolorosas, mesmo em tempos de paz, como aconteceu quando Notre Dame e o Museu Nacional do Brasil foram atacados pelas chamas.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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