A Sociedade das Nações Estava Condenada à Nascença. Porquê?

Há 100 anos, o presidente dos EUA, Woodrow Wilson, tentou impedir outra guerra mundial, mas foi o seu próprio país a trair os seus planos.sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

No rescaldo da Primeira Guerra Mundial, muitos países integraram uma organização projetada para evitar outra guerra de contornos catastróficos. E assim nasceu a Sociedade das Nações, uma entidade ambiciosa criada há 100 anos que pediu aos seus estados membros para garantirem a segurança e os interesses nacionais. Mas, apesar de esta sociedade ter surgido após a convocação de um presidente americano, os Estados Unidos nunca foram membros da mesma – e a sociedade estava condenada ao fracasso.

Tanto o início da sociedade, como o seu final desastroso, começaram nas profundezas da Primeira Guerra Mundial, um conflito que colocou várias nações umas contra as outras muito depois do armistício. Em janeiro de 1918, o presidente Woodrow Wilson idealizou um programa de paz mundial com 14 pontos, projetado para aumentar a moral das tropas aliadas e fazer a guerra parecer insustentável para as Potências Centrais. Wilson apontou as alianças secretas feitas entre as nações europeias como a causa da guerra e pensou que, para manter uma paz duradoura, todas as nações se deveriam comprometer com uma redução no armamento, aliviar as barreiras comerciais e garantir a autodeterminação nacional. O décimo quarto ponto de Wilson exigia a criação de uma "associação geral de nações" para garantir a independência política e a integridade territorial.

A ideia de uma instituição permanente para garantir a paz era um conceito que atraía os intelectuais há vários séculos. Mas foi necessária a destruição sem precedentes da Primeira Guerra Mundial, onde 8.5 milhões de militares e pelo menos 6.6 milhões de civis perderam a vida, para levar os legisladores internacionais a considerar seriamente este plano.

Porém, nem todos partilhavam a visão idealista de Wilson, ou concordavam com as suas prioridades para uma paz duradoura. Para reforçar o apoio à instituição, Wilson apresentou as suas ideias na Conferência de Paz de Paris. Durante as negociações contenciosas, outras nações dos Aliados deram prioridade às indemnizações que a Alemanha teria de pagar – país que culpavam por ter iniciado a guerra. Mas, apesar de terem abandonado muitos dos 14 pontos de Wilson, concordaram com a criação de uma instituição internacional, e o estatuto de sociedade tornou-se no Artigo I do Tratado de Versalhes.

Quando chegou a hora dos EUA ratificarem o tratado, para se unirem à Sociedade das Nações, Wilson enfrentou uma oposição inesperada – por parte dos seus próprios compatriotas. O acordo de paz não era bem visto entre várias comunidades que achavam que ia longe demais, ou que não era ambicioso o suficiente. E o Senado também estava muito dividido, onde o rival de Wilson, Henry Cabot Lodge, presidia o Comité de Assuntos Exteriores do Senado. Henry Lodge detestava Wilson e os seus 14 pontos, e acreditava que a entrada nesta nova sociedade podia forçar os Estados Unidos a agir contra os seus próprios interesses nacionais, enquanto assegurava a integridade territorial de outros países. Henry tentou adulterar o tratado e a sociedade, com reservas que isentavam os EUA de alguns dos princípios básicos da sociedade. Depois de um impasse político, o tratado foi negado e os EUA nunca se juntaram à instituição.

No entanto, 32 estados-nação seguiram com o projeto, e a Sociedade das Nações foi lançada em 1920. Mas, por essa altura, a organização já estava condenada. Sem os EUA, o número de votos das Potências Centrais e dos Aliados no conselho era igual, e a Sociedade enfrentou impasses até mesmo nos seus princípios mais básicos, como o desarmamento. Os seus membros também se mostraram relutantes em proteger outras nações membro e, ao longo dos anos, países como o Japão e a Alemanha retiraram-se simplesmente da Sociedade para contornar as suas regras. Embora a organização tenha conseguido aliviar algumas tensões entre nações e contribuído para o conceito de direito internacional, não conseguiu impedir que os seus países membros se envolvessem noutra guerra mundial.

Durante o período entre as duas grandes guerras, a visão idealista de Wilson – de um mundo de "paz sem vitória" – despedaçou-se. Mas a Sociedade das Nações tem um legado contínuo. Depois da Segunda Guerra Mundial, os membros restantes da Sociedade das Nações votaram por unanimidade a dissolução da instituição e uniram-se às Nações Unidas. A visão de Wilson de uma organização mundial dedicada à paz e segurança estava finalmente concretizada – mas, para cerca de 60 milhões de pessoas que morreram na Segunda Guerra Mundial, chegou tarde demais.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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