Vida e Obra de Amália Rodrigues

Fez-se História no Fado e em Portugal pela voz de Amália Rodrigues. Recorde a fadista nesta breve viagem à sua vida e obra.

Monday, January 27, 2020,
Por National Geographic
Amália Rodrigues
Amália Rodrigues nasceu a 23 de julho de 1920.
Fotografia de Library of Congress

Amália da Piedade Rebordão Rodrigues, conhecida por Amália Rodrigues, é uma das personagens que constituem a história do Fado e de Portugal no mundo. Nascida a 23 de julho de 1920 em Lisboa, viveu no Fundão dos 14 meses aos seus 6 anos, altura em que se muda para Alcântara e onde permanece até aos 19 anos, vivendo até então maioritariamente com os seus avós.

Amália abandonou os seus estudos após completar a instrução primária, pela necessidade de ajudar no orçamento familiar, começando a trabalhar. As suas primeiras profissões foram como aprendiz de costureira, de bordadeira e operária de uma fábrica de chocolates e rebuçados. Mais tarde, junto da sua irmã Celeste, vendeu fruta pelas ruas do cais de Alcântara.

Os primeiros passos numa grande carreira artística
Amália Rodrigues sempre demonstrou um enorme gosto por cantar e, no ano de 1935, foi selecionada para participar no "Fado Alcântara" como solista, nos festejos dos Santos Populares, acompanhando a respetiva Marcha Popular.

Três anos depois, Amália fez audições para o "Concurso da Primavera", onde cada bairro disputava pelo prémio de Rainha do Fado. Apesar de não ter chegado a participar no concurso, teve a oportunidade de conhecer Francisco da Cruz, um guitarrista amador com quem acaba por se casar no ano de 1940. O casamento durou nove anos, voltando a constituir matrimónio em 1961, no Brasil com o Engenheiro César Henrique de Seabra Rangel. Este casamento prolongou-se até ao falecimento do seu marido em 1997.

Amália ia cantando em festas e verbenas com o nome de Amália Rebordão até adotar o nome pela qual é conhecida nos dias de hoje, por sugestão do diretor artístico do Solar da Alegria, Filipe Pinto.

Em 1938, na revista "Guitarra de Portugal", na edição do mês de agosto sai, pela primeira vez, uma foto da fadista e uma crítica bastante elogiosa. No ano seguinte, por influência de Santos Moreira, Amália presta provas no Retiro da Severa e faz a sua estreia profissional. Passa a atuar neste local por um período de seis meses, passando depois para o Solar da Alegria e para o café Mondego.

O seu sucesso é tal que rapidamente se tornou cabeça de cartaz e, graças a José Melo, passou também a cantar no Café Luso, com uma remuneração nunca antes paga a um fadista.

As suas atuações deixam de ser diárias, fazendo-as apenas quatro vezes por mês e recebendo por cada atuação. Até que, a partir de 1941, tornam-se menos regulares, embora constantes na capital, até ao início dos anos 50.

As viagens e digressões
São longas as viagens de digressão em espetáculo que Amália realiza a partir do início da década de 1950. Nessa altura, as suas aparições em Portugal limitavam-se a espetáculos anuais, como a Grande Noite de Fado, o Natal dos Hospitais, o Réveillon do Casino Estoril e outras festas e festivais, sendo a grande maioria de beneficência.

Em abril de 1985, a fadista apresenta o seu primeiro concerto individual no Coliseu dos Recreios de Lisboa, repetindo o espetáculo no Coliseu do Porto no mesmo mês.

A sua primeira saída de Portugal, acompanhada do cantor Júlio Proença e dos instrumentistas Armandinho e Santos Moreira, dá-se em 1943, a fim de atuar numa festa do Embaixador português Dr. Pedro Teotónio Pereira, em Madrid. No ano seguinte, atravessa o oceano e atua no Casino de Copacabana, Teatro João Caetano e na Rádio Globo, no Brasil. No ano de 1945 volta ao Brasil para uma estadia que se prolonga até fevereiro de 1946, e na qual grava os seus primeiros discos para a editora Continental.

Amália Rodrigues alcança um estatuto de exceção mascado por uma carreira repleta de êxitos e tournées, um pouco por todo o mundo. Os destinos de atuação no estrangeiro passam a ser uma constante.

Em 1949, a convite de António Ferro, atua em Paris e em Londres. Em 1950 vai à Madeira e desloca-se, uma vez mais ao estrangeiro, para participar numa série de espetáculos patrocinados pelo Plano Marshall em Berlim, Roma, Trieste, Dublin, Berna e Paris.

No ano de 1952 canta, pela primeira vez, na cidade de Nova Iorque, no La Vie en Rose, onde o cartaz veio a permanecer por catorze semanas. No ano seguinte atua na cidade do México e volta a Nova Iorque para participar no programa de Eddie Fisher, sendo esta a primeira apresentação de um artista português na televisão norte-americana.

Centenário - Fundação Amália Rodrigues.
Fotografia de Fundação Amália Rodrigues

Outros marcos importantes no estrangeiro:
- Em 1956 faz espetáculos por Paris, Côte d'Azur, Bélgica, Argélia, Rio de Janeiro e na Cidade do México;
- Em 1957 canta em Estocolmo, Lausane e Caracas;
- Nos anos de 1960 e 1962, Amália regressa ao Brasil para vários espetáculos;
- Em 1963 canta "Foi Deus" na Igreja de São Francisco, no aniversário da independência do Líbano;
- Na década de 60 atua em Tunes, Argel, Sidi Abbes, Bruxelas e Atenas;
- Ainda nos anos de 1960 participa no Festival Internacional de Edimburgo e canta em várias cidades de Israel, no I Festival Internacional de Música Ligeira de Brasov em Leningrado, Moscovo, Tiflis, Erivan e Baku, entre outras cidades e países;
- Em 1970 esteve pela primeira vez no Japão, onde voltou em 1976, 1986 e 1990;
- Em 1972 atua na Austrália.

50 anos de atividade artística
Aos cinquenta anos de carreira, decorria o ano de 1989, Amália Rodrigues grava um espetáculo para a televisão espanhola. Ainda nesse ano, em comemoração dos cinquenta anos de atividade artística profissional, realiza uma grande tournée com espetáculos por Espanha, França, Suíça, Portugal, Israel, Índia, Macau, Coreia, Japão, Bélgica, Estados Unidos da América e Itália, regressando pela oitava vez ao Olympia de Paris.

Do fado à sétima arte
As interpretações de Amália Rodrigues podem ser vistas também no teatro e no cinema, para além das inúmeras gravações discográficas. As estreias da fadista no teatro decorreram sobretudo nos anos 40, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, em peças como "Boa Nova"; "A Rosa Cantadeira" e "Mouraria". Já no cinema, estreou-se em Capas Negras, de Armando Miranda, no papel de Maria Lisboa em 1947 e participou em mais de 10 filmes e curtas-metragens.

O afastamento dos palcos deu-se em 1994, embora tenha continuado a ser convidada de honra em inúmeros eventos culturais. A fadista Amália Rodrigues foi ainda homenageada na Expo'98, realizada em Lisboa, como "símbolo maior da música portuguesa".

Amália Rodrigues faleceu no ano de 1999. Após uma carreira inigualável, de uma figura incontornável da História do Fado e uma referência incontestável. Dois meses após a sua morte, surge a Fundação Amália Rodrigues, instituída por vontade da fadista em testamento.

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