‘Cheerleaders’ Divididas Entre Dois Mundos – E Uma Fronteira

Para os alunos do ensino secundário que estudam no Texas, mas vivem no México, o debate sobre o muro fronteiriço recai mais sobre a logística diária do que sobre política.

Tuesday, February 18, 2020,
Por Nina Strochlic
Fotografias Por Sara Naomi Lewkowicz
Todas as manhãs, Maleny Barba caminha sobre a Ponte Internacional de Cordova, em Juárez, no México, ...
Todas as manhãs, Maleny Barba caminha sobre a Ponte Internacional de Cordova, em Juárez, no México, para frequentar o ensino secundário em El Paso, no Texas. Maleny é uma cidadã americana, mas a sua família vive no México. Apesar de a fronteira estar cada vez mais militarizada, as duas cidades estão profundamente interligadas. Dezenas de milhares de pessoas atravessam diariamente a fronteira para estudar, trabalhar, visitar ou para fazer compras nos EUA.
Fotografia de SARA NAOMI LEWKOWICZ

O alarme de Ashley Esquivel toca às 05:45 da manhã, em Juárez, no México. É sexta-feira, estamos em novembro, e Ashley dirige-se para a sua escola no Texas, o que significa noite de jogo de futebol americano. Ashley tem uma camisola azul com uma imagem de um urso com cara de poucos amigos – a mascote da sua escola – e leva a saia da claque na mochila. O seu pai leva-a de carro, a caminho do trabalho, para a deixar na fronteira com os EUA.

Embora os dias ainda estejam quentes, o amanhecer no deserto traz consigo temperaturas a rondar 1 grau negativo. Uma névoa amarelada cobre uma fila interminável de carros que se parece estender desde o horizonte até ao ponto de controlo na fronteira. Os comerciantes vendem jornais e burritos aos viajantes com destino a El Paso, que podem esperar entre 3 a 4 quatro horas para atravessar a ponte todas as manhãs. Vários grupos de crianças com mochilas, auscultadores nos ouvidos e de mãos enfiadas nos bolsos serpenteiam entre o tráfego, e afunilam-se numa ponte pedonal.

Lluvia Rodriguez e Juan Jesús Rojas alinham-se para mostrar a identificação às autoridades aduaneiras na fronteira dos EUA. Estes jovens passaram o dia em Juárez, no México, com Ana Castañeda (na fotografia à direita), porque Ana ia fazer um piercing no nariz e Juan ia cortar o cabelo. Depois, regressam os três a El Paso, nos EUA, onde vivem e estudam.
Fotografia de SARA NAOMI LEWKOWICZ
Ana Castañeda e Lluvia Rodriguez são “cheerleaders”, ou líderes da claque, na Escola Secundária Bowie, em El Paso. A escola fica a poucos metros do muro fronteiriço e está profundamente enraizada no debate sobre a imigração. Muitos dos seus alunos são cidadãos americanos que atravessam todos os dias a fronteira, vindos do México, para frequentar a escola.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz

Todos os dias, Ashley faz esta travessia para chegar à escola. Estima-se que diariamente 40.000 crianças atravessam a fronteira dos EUA para frequentar a escola, não só no Texas, mas também na Califórnia, no Novo México e no Arizona. Grande parte destes estudantes, conhecidos por transfronterizos, frequenta o ensino preparatório e secundário. Apesar de os EUA quererem adicionar 725 km de muro fronteiriço ainda este ano, a vida entre o México e os EUA não perde a sua fluidez. Em média, mais de 35.000 veículos de passageiros fazem diariamente esta travessia rumo ao norte, para El Paso, juntamente com cerca de 20.000 pedestres. Anualmente, mais de 80 mil milhões de dólares de comércio internacional passam por esta zona da fronteira, para entrar no Texas. Ashley é apenas uma aluna no meio de milhares de pessoas que atravessam o México para os EUA para fazer compras, trabalhar, visitar a família e frequentar a escola.

Talvez não existam outras duas cidades no mundo que representem uma sobreposição tão grande de nações como El Paso e Juárez. Em termos de população, esta é a segunda maior área urbana na fronteira EUA-México, a seguir a San Diego e Tijuana, mas é sem dúvida a parte onde a ligação fronteiriça de mais de 3.200 km tem mais raízes. Vistas do ar, as duas cidades fundem-se na perfeição. El Paso, com os seus subúrbios tranquilos, e Juárez, com as suas praças animadas, têm uma população combinada de 2.5 milhões de pessoas, muitas das quais levam vidas de ambos os lados da fronteira. Porém, ao nível do solo, a fronteira cada vez mais militarizada acentua a divisão entre ambas.

O Rio Grande, que marca a fronteira entre os EUA e o México, é apenas um riacho nesta região, mas está reforçado com uma parede de metal de mais de 5 metros, e está separado por uma autoestrada com várias faixas. E também existem quatro pontes repletas de engarrafamentos. Uma das pontes faz a ligação direta entre as ruas cheias de comerciantes de Juárez e a rua principal de comércio de El Paso. E outra acaba praticamente na escola Bowie. Esta escola histórica, conhecida localmente por La Bowie, está no centro do debate da imigração há muito tempo.

Os estudantes dizem que, no ano passado, uma série de caravanas migrantes da América Central obstruiu os pontos de passagem já de si congestionados, levando a tempos de espera semelhantes aos do pós 11 de setembro de 2001, quando as travessias se faziam muito lentamente. Para 7 das 21 membros da claque da equipa de Bowie, que atravessam a fronteira de Juárez para El Paso diariamente, este é apenas um ajuste de logística. As estudantes vivem em Juárez, mas têm passaportes ou vistos de longo prazo nos EUA, para estudarem no Texas. Esta educação, esperam os seus pais, pode ser o ponto de partida para uma boa universidade, um emprego bem remunerado, e para o sonho americano. Por isso, os alarmes destas estudantes tocam um pouco mais cedo, e elas passam as manhãs geladas numa fila para entrar nos EUA.

Líderes da claque da Escola Secundária Bowie a treinar para um jogo de futebol americano que vai decorrer mais tarde. Apesar de a escola ser muito rica em espírito, os jogos têm geralmente poucos espetadores. Durante a noite, o regresso a Juárez pode ser perigoso, e muitos dos estudantes que vivem no México não participam nas atividades extracurriculares depois da escola.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz
O muro fronteiriço que separa os EUA e o México fica ao lado da Escola Secundária Bowie. Até à década de 1990, os oficiais de imigração patrulhavam a escola e pediam os documentos de identificação aos alunos. Mas os estudantes processaram judicialmente estas atividades – e venceram.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz

Na base da ponte, Ashley encontra a sua amiga Melanie Vidal que, apesar do frio, já tem a indumentária da claque vestida, e as duas aceleram por um caminho estreito cercado por vedações. Cerca de 10 minutos depois, estão ambas no final de uma longa fila que sai do edifício alfandegário na fronteira – vão ter de esperar meia hora, pelo menos. Por vezes, esta espera pode demorar 5 minutos, mas também pode demorar 3 horas.

Ashley, que tem 17 anos, nasceu em El Paso, mas o seu irmão, de 16 anos, nasceu em Juárez. Com o seu passaporte americano, Ashley estuda nos EUA, enquanto que o irmão tem de ficar do outro lado da fronteira. Ela é uma rapariga calada, preferia estudar em Juárez – Ashley diz que as escolas são mais rigorosas do outro lado. (O seu irmão é mais novo, mas já estuda os mesmos tópicos que ela.) Mas os pais queriam que a filha aprendesse inglês, e Bowie é onde as suas amigas estão. Ashley tenta evitar as questões sobre o muro fronteiriço. Existem coisas mais urgentes: o jogo de futebol americano desta noite e, mais tarde, decidir se quer namorar com o rapaz com quem tem saído. Para os políticos, jornalistas e para grande parte do país, esta fronteira é o epicentro de uma crise. Para Ashley, é mais um dia da semana.

Dentro do edifício da alfândega, os oficiais de imigração verificam os documentos das raparigas e colocam as suas mochilas numa máquina de raios-x. Depois, estão ambas na América. Ashley coloca o seu passaporte americano na parte de trás da capa do telemóvel e atravessa com Melanie as ruas cheias de veículos que se dirigem para o México, passando por um pequeno parque para entrar no refeitório da escola. O sol brilha, e a escola está tão perto da fronteira que o muro é visível. Os alunos cuidam dos jardins e estudam em salas de aula completamente cheias. Nos corredores, o espanhol é a língua franca. O inglês é o segundo idioma para quase dois terços dos estudantes de Bowie. Mais tarde, nesta sexta-feira, a escola vai celebrar o Día de los Muertos, e depois tem último jogo da temporada em casa.

Esquerda: Membros da equipa de dança de Bowie com os rostos pintados de Catrina, símbolo icónico do feriado mexicano “Dia de los Muertos”. Direita: Na Escola Secundária Bowie, as culturas americana e mexicana estão muito interligadas. Nesta imagem, a “cheerleader” Alexa Scott toca com a banda da escola durante as festividades do “Dia de los Muertos”.
Fotografia de SARA NAOMI LEWKOWICZ

Ashley e Melanie pegam nos seus tabuleiros e juntam-se à amiga Jasmine, que está sentada na mesa junto à porta, com o seu portátil e uma pilha de livros. Jasmine viveu em El Paso durante um ano com um tutor legal, mas sentiu falta da família. Agora, acorda às 04:30 da manhã e apanha dois autocarros, desde a casa dos pais, em Juárez, e chega à ponte da fronteira às 7 da manhã. Depois da escola, pratica softbol, está no conselho estudantil, participa na Sociedade Nacional de Honra e em outras atividades extracurriculares. Quando Jasmine tem jogo fora, nunca chega a casa antes da uma da manhã. “É por isso que estou com este ar”, diz ela, apontando para a camisola e para o cabelo, com os caracóis que teimam em sair do rabo de cavalo. No ecrã do seu portátil, vemos a aceitação de uma candidatura antecipada para a Universidade do Texas, em Austin, onde Jasmine espera estudar engenharia ambiental.

Devido, em parte, à recessão de meados dos anos 2000, e a um aumento na imigração, o número de menores nascidos nos EUA, mas que vivem no México, duplicou entre 2000 e 2015. Hoje, cerca de meio milhão vive a sul da fronteira.

Ashley, Melanie, Jasmine e muitos outros estudantes que atravessam a fronteira todos os dias nasceram nos EUA, filhos de pais mexicanos, são criados no México, e depois enviados para El Paso para o ensino secundário. De acordo com um estudo de 2017, 81% dos estudantes transfronteiriços nasceram nos EUA. Alguns têm mães que viviam nos Estados Unidos na época, outros são filhos de mulheres que foram apenas dar à luz a norte da fronteira, e outros não foram documentados. Em El Paso, os estudantes aprendem inglês, recebem formação e alimentam a esperança de um emprego bem pago. E visitam Juárez regularmente para estar com a família, para ter cuidados de saúde acessíveis e também para se divertirem: desde as chamadas festas de debutantes, quando fazem 15 anos, às festas nas discotecas, quando fazem 18.

A “cheerleader” Megan Mejía e o seu namorado, Sergio Reyes, posam para a fotografia do baile de finalistas em El Paso. Megan é uma cidadã americana que vive em Juárez e frequenta a Escola Secundária Bowie no Texas. Ir à escola em Juárez, diz Megan, “é drama a mais”.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz
Ana Castañeda e a sua irmã mais nova, Pita, a descansar na sua casa em Segundo Barrio, o bairro de imigrantes mais antigo de El Paso. Estas irmãs nasceram em El Paso, mas regressaram a Juárez devido a problemas com os documentos dos pais. E passaram vários anos a ir e a vir da escola até que conseguiram regressar de forma permanente a El Paso há alguns anos.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz
Maleny Barba e o seu avô, Dagoberto Chávez, a “tocar” uma música dos Beatles. Maleny, “cheerleader” em Bowie, vive em Juárez, mas tem família em ambos os lados da fronteira.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz
Ashley Esquivel, Megan Mejía e o namorado de Megan, Sergio Reyes, atravessam a ponte que liga El Paso e Juárez. Ashley e Megan vivem em Juárez. Sergio vive em El Paso, mas acompanha-as para garantir que Megan chega ao carro dos pais em segurança.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz

“Os problemas que os nossos filhos enfrentam aqui são completamente diferentes de qualquer outro lugar”, diz Joel Rodriguez, professor de estudos sociais em Bowie. Joel está no pátio a coordenar as decorações do Día de los Muertos. Nos degraus do anfiteatro, os altares homenageiam os mortos com velas, petiscos, bebidas, fotografias de membros da família e de animais de estimação, ou até de celebridades – para além de imagens de vítimas de um massacre que, três meses antes, matou quase 22 pessoas num Walmart em El Paso. O camião de comida da escola serve pan de muerto – pão doce e chocolate quente. E a banda de mariachis testa os instrumentos, enquanto que a claque de raparigas veste as suas roupas que são complementadas com um esqueleto pintado do rosto.

Quando Joel Rodriguez era criança, em El Paso, uma criança sem documentos e filho de agricultores, o muro fronteiriço era apenas uma cerca com buracos. Alguns destes buracos davam diretamente para a Escola Secundária Bowie e para uma escola preparatória. Rodriguez diz que, às vezes, se a porta da sala de aulas estivesse aberta, entravam pessoas a fugir pela sala. “Este é teu tio!” brincavam os alunos uns com os outros, enquanto que o imigrante tentava escapar. “E aquele é o teu outro tio!” gritavam eles quando apareciam as autoridades em perseguição. Era esta a vida na fronteira – estavam todos ligados nos dois lados.

Para apanhar as pessoas que tentavam entrar nos EUA, os agentes da Patrulha Fronteiriça rondavam a escola Bowie e interrogavam qualquer pessoa que considerassem suspeito. Quando era calouro, em 1992, Rodriguez viu os seus colegas serem interrogados nos corredores da escola. Mais tarde, nesse mesmo ano, aconteceu algo que se tornou num ponto de viragem para a imigração: os estudantes de Bowie processaram o governo federal por violar os seus direitos civis – e venceram. Os oficiais de imigração já não podiam questionar fosse quem fosse sobre seu o estatuto de cidadania, a não ser que, escreveu o juiz, tivessem razões para tal –  “para além da mera aparência de ascendência hispânica.”

Ashley Esquivel a liderar a claque, no último jogo da temporada, na Escola Secundária Bowie.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz
Num estado que leva as claques muito a sério, a equipa de dança da escola é uma das mais fracas – ainda não venceram uma competição e não têm fundos para treinos especializados, ou treinadores. Muitas das raparigas só começaram a aprender no ensino secundário. Nestas imagens, as “cheerleaders” de Bowie estão a atuar no Campeonato Estadual da Liga Universitária Interescolar 2019, em Fort Worth.
Fotografia de SARA NAOMI LEWKOWICZ
Brisa Rivera a lançar confetes durante o último jogo da época.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz

Hoje, o muro fronteiriço fica exatamente atrás da escola, mas os alunos parecem mais focados nos seus dramas da adolescência do que nas agitações políticas. A fronteira é um inconveniente que os atrasa no caminho para a escola, ou dá origem a noites dormidas com os amigos, ou com a família, em El Paso, nas noites em que há jogo – e, talvez o mais importante, é uma das causas para a sua privação de sono. “Às vezes estou demasiado cansada para acordar às quatro da manhã e atravessar a fronteira às cinco”, diz Megan Mejía, uma líder da claque de 15 anos que, quando os jogos acabam mais tarde, fica com a irmã em El Paso. “Às vezes estou tão cansada que nem consigo treinar.”

Houve uma manhã em que Megan teve de atravessar a fronteira a correr, porque já estava 5 minutos atrasada para ir treinar, e começou a pensar se seria melhor frequentar a escola em Juárez. “Não”, disse Megan, com os óculos a deslizar pelo nariz, enquanto corria em direção ao ginásio. “Juárez é drama a mais.”

As luzes de Juárez – mais à distância – mostram a linha divisória entre as duas cidades. Estas cidades estão fortemente ligadas, tanto por laços de sanguinidade, como pela economia, mas Juárez tem uma densidade populacional muito maior.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz

A escola não recolhe dados sobre a quantidade de alunos que atravessam diariamente a fronteira. Mas, em teoria, para se matricularem, devem viver no distrito. Alguns dos alunos usam a morada de familiares, ou alugam um apartamento ou uma caixa postal. Rodriguez diz que metade dos seus alunos são “caminhantes” que atravessam a fronteira todas as manhãs. Alguns chegam mais cedo, para evitar as horas de espera na fila. Rodriguez aponta para o refeitório: “Temos crianças que chegam aqui às 6 da manhã e dormem naquelas mesas”. Porém, muitos dos seus “caminhantes” são os que têm melhor assiduidade e algumas das notas mais elevadas a matemática e ciências. Durante a formatura, costumam estar sozinhos – os seus pais não conseguem atravessar a fronteira.

“Isto nem sempre foi assim”, diz Antonia Morales, uma das últimas moradoras do Bairro Duranguito, o bairro mais antigo de El Paso, que foi praticamente demolido para um novo projeto de desenvolvimento. Quando Antonia saiu de Juárez, nos anos 1940 ou 50 – ela não se lembra exatamente quando foi – era fácil atravessar a fronteira. Antonia e o marido iam jantar a Juárez, onde os restaurantes estavam cheios de visitantes de todo o mundo e de soldados americanos de Fort Bliss, no Texas, que estavam de licença. Na véspera de Ano Novo, dançavam, bebiam e, na ponte de regresso a El Paso, partiam cascarones – ovos cheios de confetes – nas cabeças dos oficiais de imigração.

Ao longo dos anos, a vida em ambos os lados da fronteira começou a ser cada vez mais difícil. Durante as décadas de 1980 e 90, houve um aumento no número de imigrantes sem documentação a entrar nos EUA, atingindo o pico em 2000 – fator que politizou a fronteira. No início do século XXI, cerca de 4.000 agentes patrulhavam a fronteira, mas os ataques do dia 11 de setembro de 2001 alteraram tudo. O reforço da segurança originou longas horas de espera para entrar no Texas. Alguns anos depois, quando a violência dos cartéis fez de Juárez uma das cidades mais perigosas do México, a segurança foi novamente reforçada. Hoje, mais de 21 mil agentes trabalham na fronteira e, apesar de o número travessias ilegais ter vindo a diminuir durante a última década, no ano passado quase que duplicou, passando de mais de 500 mil para quase 1 milhão.

Na noite de formatura, Lluvia Rodriguez tira fotografias com a sua turma. Depois da formatura, regressa a casa, um apartamento a poucos quarteirões do muro fronteiriço. “Todos nós temos expectativas sobre o que são ‘cheerleaders’”, diz Lluvia. “E depois temos a nossa claque.”
Fotografia de SARA NAOMI LEWKOWICZ
Alunos a dançar no parque de estacionamento da escola Bowie durante o evento “Senior Sunset”, um evento anual onde a turma assiste ao último pôr-do-sol antes da formatura.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz

Antonia Morales tem 91 anos e não regressa a Juárez desde 2008, ano em que a violência começou. “A fronteira era tão bonita quando eu era mais nova. Não havia o racismo que temos agora. Todas as pessoas se aceitavam. Quanto mais vivo, mais vejo coisas de que não gosto.”

Quase 80% da população de El Paso é hispânica, e a postura política de Washington  tem os seus efeitos. O debate sobre a imigração é uma realidade diária. No seu discurso sobre o Estado da União em 2019, o presidente Donald Trump disse que, antes da instalação do muro fronteiriço, El Paso era uma das cidades mais perigosas da nação, e que a presença do muro salvou vidas. Esta alegação foi refutada pelo presidente da câmara da cidade e pelos líderes locais de ambos os lados da fronteira.

Depois do tiroteio que aconteceu em agosto no Walmart, em El Paso, as reações agitaram os debates sobre a imigração. Acredita-se que o atirador, que conduziu durante quase 10 horas desde a sua casa nos arredores de Dallas, escreveu um manifesto anti-imigrantes e que tinha como alvo uma loja frequentada por hispânicos.

Durante um almoço no Bairro Segundo, o bairro de imigrantes mais antigo de El Paso, Yolanda Chávez Leyva fala sobre a vida na fronteira. Leyva, diretora do Instituto de História Oral da Universidade do Texas, em El Paso, compreende o que significa ter acesso a ambos os lados da fronteira. Leyva nasceu gémea prematura em Juárez, e foi adotada pela tia da sua mãe, em El Paso, onde teve acesso a cuidados de saúde e sobreviveu. A sua irmã foi levada pela avó, para Juárez, e faleceu.

No século XIX, começaram a surgir pequenas povoações ao longo do Rio Grande. Em 1846, El Paso, que pertencia ao México, foi capturado pelo Texas. Dois anos depois, os EUA e o México foram oficialmente divididos ao longo do Rio Grande. Até 1917, as restrições no movimento transfronteiriço eram poucas. Naquele ano, a Lei de Imigração dos EUA foi aprovada para retardar os refugiados que fugiam da revolução mexicana. Alguns anos depois, foi formada a primeira Patrulha Fronteiriça.

Apesar de a divisão física estar cada vez mais fortificada, as cidades continuam muito entrelaçadas. As lojas aceitam dólares americanos e pesos mexicanos, e as empresas negoceiam em ambos os lados da fronteira. “A compreensão da forma como estamos ligados ultrapassa as linhas políticas”, diz Leyva. “A nossa sobrevivência económica depende da cooperação.”

A equipa de futebol americano da escola Bowie perdeu de forma categórica contra uma escola rival, no último jogo da época 2019 em casa. Apesar disso, as “cheerleaders” dançaram e cantaram: “B-O-W-I-E. Força Bowie! Força equipa. Lutem, lutem, lutem!”
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz
No último jogo da temporada fora de casa, a Escola Secundária Bowie comemorou uma vitória contra a Escola Secundária Jefferson. Para os alunos, a maioria dos quais fala espanhol, estas escolas são conhecidas por “La Bowie” e “La Jeff”.
Fotografia de SARA NAOMI LEWKOWICZ

No jogo de futebol americano desta noite de sexta-feira, as 21 cheerleaders cantam e dançam energicamente, mesmo quando a equipa perde de forma categórica contra uma equipa rival. No Texas, a atividade de cheerleader é como se fosse um chamamento superior, e as outras equipas estão repletas de raparigas que começaram a treinar quando ainda eram crianças. Muitas destas claques têm treinadores para as acrobacias, mas em Bowie não existem fundos para isso. Quando as raparigas entram em competições de cheerleaders, a desvantagem é gritante; ninguém se lembra da última vez que a claque de Bowie ganhou. Mas agora têm um novo treinador, e o seu objetivo passa por encontrar um patrocinador para os treinos e garantir que todas as raparigas conseguem fazer uma roda até ao final do ano letivo.

Ana Castañeda, rainha do baile de finalistas, vice-presidente do conselho estudantil e cocapitã das cheerleaders – que antigamente atravessava a fronteira todos os dias – observa a exibição a partir das bancadas. Depois de alguns dias mais complicados na escola, Ana decidiu ficar de fora neste jogo para pensar sobre o que quer fazer depois de Bowie.

Durante muito tempo, o sonho de Ana era ser agente da Patrulha Fronteiriça. Ana viu a luta dos seus pais, enquanto cidadãos mexicanos, contra a burocracia na fronteira e desejava conseguir facilitar-lhes a vida. Mas no ano passado mudou de ideias – depois de ouvir falar sobre uma detenção generalizada de crianças. O seu plano B passava pela criação de vídeos no YouTube, mas isso iria deixar a sua mãe furiosa, portanto, Ana Castañeda seguiu o plano C – odontologia.

Durante a sua educação, até ao ensino secundário, Ana fez diariamente a travessia entre Juárez e El Paso. Todos os dias, às 5 da manhã, a mãe levava-a até à ponte. Ana Maria Torres, que cresceu no México, queria que as filhas tivessem uma vida melhor. “Pelo menos fiz algo de bom quando tive as minhas filhas aqui”, disse Ana Torres. Antes de a família se mudar para El Paso, a filha mais velha, Elsa, levava as irmãs pela ponte e deixava-as na escola, antes de seguir para a escola Bowie. Elsa nunca contou a ninguém que vivia em Juárez, e acabou o ensino secundário com poucos amigos e sem fazer uma única atividade extracurricular.

As “cheerleaders” Laysha Diego e Maleny Barba abraçadas durante o “Lighting of the B”, uma tradição que assinala o fim da temporada de futebol americano. Maleny, que vive em Juárez, costuma passar a noite com Laysha, em El Paso, para evitar atravessar a fronteira durante a noite.
Fotografia de Sara Naomi Lewkowicz

Ana Castañeda teve mais sorte – depois do pico na violência gerada pelos cartéis, em Juárez, quando a família quase nunca saía de casa, regressaram para El Paso, lugar de nascimento de Ana. A ilusão que Ana manteve com tanto cuidado já não era necessária e agora podia concentrar-se no seu objetivo: rainha do baile de finalistas da Escola Secundária Bowie. Ana foi coroada com a tiara de cristal de rainha e com uma longa capa azul no início de outubro.

“Muitas das raparigas não sabem”, diz Ana a recordar os dias em que atravessava a fronteira. Ana afasta os seus longos cabelos negros para trás dos ombros e mete as mãos nos bolsos do casaco. “Elas pensam que eu tive uma vida perfeita.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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