Esta Imagem Icónica da Segunda Guerra Mundial Foi Encenada?

Esta imagem inspiradora levantou a moral de uma nação – mas também levantou suspeitas por ser demasiado boa para ser verdade.segunda-feira, 9 de março de 2020

No dia 23 de fevereiro de 1945, seis fuzileiros dos EUA ergueram uma bandeira americana no topo da colina mais alta da ilha de Iwo Jima, uma fortaleza japonesa altamente protegida. O fotógrafo Joe Rosenthal teve a sorte de imortalizar o momento. No espaço de poucas semanas, a fotografia tornou-se na imagem da sétima campanha de títulos de guerra emitidos pelo governo dos EUA, foi um selo postal americano e a cena também foi reencenada por diversas vezes no cinema.

Mas talvez ainda mais duradoura é a escultura monumental, baseada na fotografia da Associated Press de Rosenthal, que está no rio Potomac em frente a Washington, D.C.

E tudo porque Rosenthal apontou a sua volumosa câmara Graflex 4x5 na direção correta, no momento certo, e captou a imagem – sem sequer olhar pelo visor ótico.

O resultado é uma fotografia perfeita – na captura de um momento crucial, na representação da coragem e camaradagem dos soldados, preenchendo praticamente todos os padrões de composição artística alguma vez consagrados – mas Rosenthal iria para o resto da sua vida a refutar acusações de que tinha sido ele a montar todo o cenário.

De facto, naquele dia – no quinto dia de uma das batalhas mais sangrentas da Guerra do Pacífico – Rosenthal tinha apenas uma coisa em mente enquanto subia a encosta vulcânica. “À medida que o trilho começou a ficar mais íngreme”, disse Rosenthal mais tarde, “comecei a pensar se ia valer a pena”.

Mas valeu a pena, e apesar de Rosenthal ter chegado atrasado, também chegou a tempo.

Antes de chegar ao cume do cone vulcânico de 169 metros do Monte Suribachi, uma equipa de fuzileiros já tinha levantado uma pequena bandeira dos EUA. O fotógrafo da marinha, o sargento Louis Lowery, registou o momento em que o mastro improvisado foi erguido, mas as tropas japoneses, quando viram a bandeira, abriram fogo sobre os americanos. Enquanto mergulhava para se proteger, o sargento Lowery partiu a máquina fotográfica, e teve de descer a colina para ir buscar equipamento novo. Ao longo do caminho, encontrou Rosenthal, que ainda estava em dificuldades para chegar ao topo, e deu-lhe as más notícias: a bandeira já tinha sido erguida.

Ainda assim, na esperança de conseguir boas fotografias do cume, Rosenthal continuou. Quando chegou lá acima, reparou numa equipa de fuzileiros a preparar-se para levantar uma segunda bandeira, ainda maior – ordens da Marinha que queria que a bandeira fosse visível de qualquer ponto da ilha.

Os fotógrafos de guerra raramente têm uma segunda oportunidade para conseguir uma boa fotografia, mas Joe Rosenthal sabia que estava perante essa oportunidade. E estava numa corrida contra o tempo para tentar obter um ponto elevado, momentos antes de a segunda bandeira ser erguida. Apressadamente, o fotógrafo com 1.65 metros de altura empilhou alguns sacos de areia e subiu para cima deles.

“Joe, estou à tua frente?” perguntou um dos operadores de câmara de filmar presente no local – Rosenthal virou-se para olhar para ele e quase que perdia a fotografia do século.

O Exército dos EUA rejeitou Rosenthal como fotógrafo porque ele tinha falta de vista. Mas são os reflexos que fazem um bom fotógrafo de guerra, e os reflexos de Rosenthal eram como os de um felino. Pelo canto do olho, viu os fuzileiros a erguerem a bandeira. Virou-se num ápice, levantou a câmara, e tirou uma única fotografia, deixando o resto nas mãos do destino.

Independentemente dos reflexos, Rosenthal não sabia se tinha conseguido captar a imagem. O rolo fotográfico da sua câmara seria transportado para Guam, para ser processado, e depois enviado via telefoto para os seus editores em São Francisco.

Para ter a certeza, Rosenthal conseguiu que 16 fuzileiros e 2 militares da Marinha posassem de forma triunfal em torno da bandeira para uma segunda fotografia. Entre eles estava Ira Hayes, um nativo americano do povo Pima que também estava na primeira imagem icónica. (Ira Hayes é o homem da esquerda cujas mãos acabaram de largar o mastro.)

Entre os amigos mais próximos de Hayes estava Jack Thurman, um franco-atirador da Marinha com 19 anos. Thurman, agora com 94 anos, recorda que os dois tinham escalado a colina naquela manhã, Hayes fazia parte da unidade que ia erguer a bandeira, e Thurman estava numa posição elevada de tiro para os proteger.

“Ei, Jack, desce daí!” lembra-se Thurman de ouvir Hayes gritar. “Eu quero a minha fotografia tirada contigo!” A imagem daí resultante está um bocado desfocada e chegaram a surgir debates sobre quem é que estava exatamente aonde na imagem. Mas olhando hoje para a fotografia, numa sala ensolarada na sua casa, em Loveland, no Colorado, Thurman identifica-se como o fuzileiro na extrema esquerda, o que está a erguer o capacete cheio de alegria.

Tirar o capacete não foi a coisa mais inteligente para fazer no meio dos tiros do inimigo que vinham de todos os ângulos. “Mas acabamos por nos habituar”, diz Thurman. “As balas estavam sempre a voar por todo o lado.”

O erguer das bandeiras em Iwo Jima teve um efeito imediato nos fuzileiros espalhados pelos 21 km quadrados da ilha. Quando a primeira bandeira foi içada, a frota começou a tocar as sirenes e os soldados começaram a disparar para o ar.

“Que sensação incrível!” recorda Bill Montgomery, de 95 anos, um dos poucos fuzileiros que chegaram a Iwo Jima no primeiro dia da batalha e que ficou até ao terrível final. “Eu senti êxtase! Eu sabia que tinha acabado tudo. Muitos de nós morreram. Mas conseguimos.”

Thurman partilhou este otimismo com os seus companheiros, mas era uma ilusão. A batalha de Iwo Jima viria a arrastar-se mais um mês, ferindo dezenas de milhares de americanos e matando mais de 6000. Mas, no meio de tudo isto, a bandeira erguida no cume de Suribachi conseguiu suportar os ventos fortes do Pacífico. E a sua visão inspirou os fuzileiros a sobreviver ao desgaste de cada dia – e noite

“Mesmo depois de anoitecer”, diz Thurman, “quando disparavam os projéteis de artilharia, conseguíamos ver a bandeira hasteada lá em cima com os clarões. Estava de pé. Não pude deixar de pensar em Fort McHenry e no hino nacional. As bombas que explodiam no ar durante a noite eram a prova de que a nossa bandeira ainda estava lá.”

Dois dias depois de Rosenthal ter captado as suas fotografias no topo de Suribachi, a Associated Press divulgou a imagem icónica – uma imagem vencedora do Prémio Pulitzer que, para muitos, parecia perfeita demais.

Até aos seus 94 anos, idade com que morreu em 2006, “Joe Rosenthal defendeu sempre o que muitos alegavam ser uma imagem falsa”, disse em entrevista Hal Buell, o antigo editor executivo de fotografia da Associated Press. Mesmo depois de uma investigação feita por oficiais do exército e por editores da revista Life concluir que se tratava de uma imagem autêntica, o boato nunca desapareceu.

Quanto ao sargento Lowery – o fotógrafo militar que perdeu a oportunidade de captar a fotografia do século porque a sua câmara se tinha avariado – sustentou durante anos que a imagem de Rosenthal podia ter sido falsificada. Mas vários anos depois, quando ambos os fotógrafos se encontraram ocasionalmente num evento da Marinha, Lowery mudou de ideias.

“E ficaram amigos”. disse Buell. “E Joe foi ao funeral de Lou Lowery.” Agora, como o número de homens que testemunharam o evento da bandeira em primeira mão está a diminuir, a fotografia de Joe Rosenthal preserva o espírito de um dos momentos mais indeléveis da Segunda Guerra Mundial.

“Penso naquele momento sempre que vejo a nossa bandeira hasteada, mesmo hoje em dia”, diz Jack Thurman. “Aquela bandeira está a dizer-nos a todos: ‘Ainda estou aqui, meus amigos. Ainda estou aqui.’”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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