A História do Aperto de Mão Pode Explicar os Contactos de Proximidade com Estranhos

O coronavírus está a alterar um hábito antigo, com raízes que vão desde a Grécia antiga aos quacres americanos.terça-feira, 17 de março de 2020

É possível depreender muita coisa através de um aperto de mão, um beijo ou um abraço. Ao longo da história, esta saudação foi utilizada para assinalar uma amizade, para finalizar uma transação comercial, ou para indicar uma devoção religiosa. Mas tocar em estranhos também pode transmitir outras coisas menos benéficas – como doenças.

Com os receios sobre o COVID-19, ou coronavírus, a aumentarem, a França alertou os seus cidadãos para pararem com os famosos beijos nas bochechas, e em todo o mundo os negócios estão a ser firmados com uma cotovelada. Mas com histórias que remontam a milhares de anos, estas duas saudações provavelmente estão demasiado enraizadas para serem facilmente descontinuadas.

Uma das teorias mais populares sobre a origem do aperto de mão diz que este começou como um gesto de paz. O toque das mãos provava que as pessoas não tinham armas – e o sacudir das mãos era uma forma de garantir que a outra pessoa não tinha nada escondido na manga. Por todo o mundo antigo, o aperto de mão aparece representado em vasos, em lápides e lajes de pedra de cenas de casamentos, em cenas de deuses a fazerem acordos, ou cenas de jovens guerreiros a partirem para a guerra, e até na chegada dos mortos à vida após a morte. Na literatura, estende-se até à Ilíada e à Odisseia de Homero.

A utilidade abrangente do aperto de mão, usado para simbolizar amizade, romance ou negócios, dificulta a sua interpretação. “O aperto de mão continua a ser uma imagem popular nos dias que correm, porque também o encaramos como um motivo complexo e ambíguo”, escreve Glenys Davies, historiadora de arte, numa análise sobre o uso do aperto de mão na arte clássica.

Na América, é provável que a popularidade do aperto de mão tenha sido impulsionada pelos quacres do século XVIII. Nos seus esforços para evitar a hierarquia e o estatuto social, os quacres acreditavam que o aperto de mão era uma forma mais democrática de cumprimentar, ao contrário do então gesto comum de reverência, como tirar o chapéu ou curvar perante os outros. “No lugar destes gestos, começaram a usar o aperto de mão, e isto abrangia todas as pessoas independentemente do seu estatuto, como ainda fazemos atualmente”, escreve o historiador Michael Zuckerman.

Pode haver uma explicação científica para o poder duradouro do aperto de mão. Num estudo de 2015 feito em Israel, investigadores filmaram apertos de mão entre centenas de estranhos, e descobriram que quase 25% das pessoas cheirava as mãos depois do gesto. Os investigadores teorizaram que o aperto de mão podia ser usado de forma inconsciente para detetar sinais químicos e, possivelmente, como um meio de comunicação – tal como outros animais se cheiram uns aos outros.

E o beijo como uma forma de cumprimento também tem uma história igualmente vasta, e foi incorporado no início do cristianismo e usado em cerimónias religiosas. “Na sua Epístola aos Romanos, São Paulo instruiu os seus seguidores a saudarem-se com um beijo sagrado”, escreve Andy Scott no livro Um Beijo ou Dois: À Procura da Saudação Perfeita. Na Idade Média, o beijo era usado como um sinal de fidelidade e, por exemplo, para selar acordos de transferências de propriedades.

Hoje, um beijo na bochecha, conhecido em francês por “la bise”, é uma saudação padrão em grande parte do mundo. A palavra pode ter origem nos romanos que tinham termos diferentes para cada tipo de beijo, e chamavam “basium” à versão mais educada. Em Paris, é comum dar dois beijos. Mas em Provence, são três, e no Vale do Loire são quatro. O beijo na bochecha também é comum em países como o Egito, onde se dão três beijos, na América Latina e Filipinas.

Acredita-se que durante a peste negra do século XIV, la bise pode ter parado e só regressou 400 anos mais tarde, depois da Revolução Francesa. Em 2009, a prática foi temporariamente interrompida, quando a gripe se tornou numa preocupação. No final de fevereiro, com o aumento de casos de coronavírus, o Ministro da Saúde francês desaconselhou a sua prática. “Aconselhamos a redução dos contactos sociais de natureza física”, afirmou. “Isto inclui a prática de bise”.

No seu livro – Não Olhe, Não Toque – Val Curtis, cientista comportamental na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, diz que os beijos e apertos de mão como uma forma de saudação podem significar que a outra pessoa é de confiança e com quem se pode partilhar germes. Por isso, estas práticas podem entrar e sair de moda, dependendo das preocupações de saúde pública.

Num estudo de 1929, uma enfermeira chamada Leila Given escreveu um artigo no American Journal of Nursing onde lamentava a perda dos costumes de “inclinar os dedos” em detrimento do aperto de mão. Leila alertou que as mãos eram agentes de transferência bacteriana e citou estudos iniciais que mostravam que um aperto de mão podia facilmente espalhar germes. Em conclusão, Leila recomendou que os americanos adotassem o costume chinês onde cada pessoa apertava as suas próprias mãos para cumprimentar um amigo. “Pelo menos as nossas bactérias ficam connosco”, escreveu Leila.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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