Memórias da Carnificina da Segunda Guerra Mundial Numa Caminhada Pela Índia

“Nunca encontramos ossos.” Mas os agricultores nas remotas colinas do nordeste da Índia descobrem outras evidências de uma emboscada brutal feita pelos japoneses em abril de 1944.

Friday, March 27, 2020,
Por Paul Salopek
Fotografias Por Paul Salopek
Tropas aliadas reagrupam-se depois de uma batalha contra as forças japonesas, perto de Imphal, capital do ...
Tropas aliadas reagrupam-se depois de uma batalha contra as forças japonesas, perto de Imphal, capital do estado indiano de Manipur, em abril de 1944.
Fotografia de Pen e Sword Books, Universal Images Group/Getty

HAOCHONG, MANIPUR, ÍNDIA – Bakebonang Bariam, um agricultor do estado subtropical de Manipur, no nordeste da Índia, desenterra relíquias há vários anos nos campos de arroz e gengibre da sua aldeia nas colinas, uma aldeia chamada Haochong.

“Nunca encontramos ossos”, diz Bariam. “Só encontramos isto.”

Na palma da sua mão enrugada estão duas moedas de cobre que foram cunhadas durante a Índia britânica. As moedas estão negras devido às queimadas da agricultura itinerante. E também tem uma rupia indiana de prata, datada de 1943, carimbada com o busto de Jorge VI, rei do Reino Unido em meados do século passado. Nenhuma das descobertas é realmente um tesouro. São uma espécie de memento mori – dinheiro de uma tragédia. Estas moedas foram levadas para a remota aldeia de Haochong nos bolsos de homens que tiveram mortes horríveis. A maioria destes condenados era nepalesa e indiana. Alguns podem ter sido aldeões Naga indígenas, como o próprio Bariam. E um deles era um inglês aventureiro que foi do Reino Unido para a Índia num carro de 30 cavalos. Estavam todos a lutar pelos britânicos na Segunda Guerra Mundial, mas foram emboscados por uma patrulha japonesa. Foram capturados, amarrados e esfaqueados até à morte ou decapitados. Os seus corpos foram atirados de uma ravina para os campos de Bariam.

Este retrato de Thomas Sharpe apareceu no Derbyshire Times no dia 5 de maio de 1944, quando o jornal anunciou a sua captura pelos japoneses em Manipur.
Fotografia de Photograph as seen in The Derbyshire Times on May 5, 1944

“Enterrámos o sahib ao lado da loja da aldeia”, lembra o tio de 87 anos de Bariam, Chilannang Bariam, usando o termo colonial para oficial britânico. “Ele parecia importante. Penso que o nome dele era Stark.”

Mas o nome não era exatamente esse.

Os registos militares identificam-no como Thomas Arthur “Timmy” Sharpe, e nem sequer era um soldado. Sharpe era administrador civil do governo indiano, formado em matemática e física em Cambridge, e estava numa missão fatal para organizar uma rede de guerrilhas contra os japoneses. Durante mais de 70 anos, dizem os habitantes da aldeia, ninguém veio investigar o seu destino, ou o destino dos homens que foram executados ao seu lado. Foi este o fado dos fantasmas da Campanha da Birmânia.

A GUERRA entre a Grã-Bretanha e o Japão, no interior do Sudeste Asiático, faz parte de um capítulo brutal, mas relativamente obscuro, das crónicas da Segunda Guerra Mundial.

Entre 1942 e 1945, mais de um milhão e meio de homens lutaram entre si nas selvas repletas de sanguessugas, rios selvagens e montanhas encharcadas pelas monções do nordeste da Índia e atual Mianmar. (Veja em vídeo as selvas onde Sharpe passou os seus últimos dias.) Só na Índia, os enormes conflitos mataram quase 75 mil soldados e inúmeros civis, mais do dobro do número de mortos de alguns dos conflitos mais famosos do Pacífico, como Guadalcanal. Foi uma “guerra mundial” em miniatura, dentro de um conflito global maior. Não só as forças britânicas e japonesas estiveram envolvidas, como as tropas de apoio da Índia, dos Estados Unidos, do Canadá, da Tailândia, da então Birmânia, da China, da Austrália, da Nova Zelândia e de vários países africanos.

As colinas de Manipur são hoje um paraíso verdejante, mas durante a Segunda Guerra Mundial, quando os japoneses lançaram uma ofensiva neste canto selvagem da Índia britânica, foram o palco de imenso sofrimento para a população local.
Fotografia de Paul Salopek

Inicialmente, os britânicos estavam em maus lençóis e rapidamente perderam Hong Kong, a Malásia e a Birmânia. Mas uma contraofensiva maciça contra os japoneses invasores marcou um ponto de viragem fulcral na Segunda Guerra Mundial. E a máquina de guerra do Japão nunca mais conseguiu recuperar. Os historiadores militares dizem que o sucesso da Campanha da Birmânia, como é agora chamada, continua ofuscado pelo Dia D – que se desenrolou ao mesmo tempo em França – e ficou manchado pela perceção de que a vitória aliada sustentou o colonialismo: o império europeu estava a reivindicar o seu território asiático.

Estas emoções conturbadas ainda perduram na Índia.

“Talvez não exista outro país no mundo que seja tão ambivalente, na melhor das hipóteses, e indiferente, na pior das hipóteses, sobre o seu próprio papel na Segunda Guerra Mundial”, escreve Hemant Singh Katoch, autor de Os Campos de Batalha de Imphal, sobre a indiferença da Índia relativamente à sua história de guerra. “Isto é notável, sobretudo se levarmos em consideração que no início da guerra, em 1939, o exército indiano consistia em cerca de 200 mil homens; em 1945, quando a guerra terminou, este número ultrapassava os 2 milhões.”

É verdade que muitos dos recrutas na Índia se juntaram ao exército colonial britânico. Mas dezenas de milhares de outras pessoas inscreveram-se numa Legião Indiana nacionalista apoiada pelos japoneses, na esperança de expulsar os britânicos do país para conquistarem a independência.

Hoje, no antigo estado da linha de frente de Manipur, onde exércitos inimigos lutaram corpo a corpo em trincheiras inundadas pela chuva, em trechos de selva cerrada e até mesmo num campo de ténis bem cuidado de um oficial colonial, existem poucas evidências visíveis da violência em massa da Campanha da Birmânia.

Um museu de paz, financiado pelo Japão, homenageia o terrível cerco de Imphal, capital de Manipur, onde morreram 50 mil soldados japoneses. Algumas pontes pedonais enferrujadas da era britânica ainda pairam sobre os rios e riachos das montanhas da região. E nas aldeias, só os habitantes mais idosos é que conseguem evocar as memórias esquecidas de uma vasta batalha que ceifou tanto militares como civis.

“As bombas caíam sobre nós e as pessoas fugiam para a floresta”, diz Chilannang Bariam, o octogenário de Haochong – uma comunidade ainda isolada de agricultores de etnia Naga que até há um século atrás praticava animismo e caçava cabeças. “Às vezes eram bombas britânicas, às vezes eram japonesas. Tivemos a sorte de ninguém ter morrido. Os nossos anciãos diziam que era Rashwang, a divindade da aldeia, que nos protegia.”

Na primavera de 1944, este escudo divino fraquejou.

Foi quando um pelotão de homens estranhos saiu da vegetação rasteira de Haochong, disse Bariam. Usavam folhas e ramos de árvores presos aos seus uniformes enlameados. Eram unidades avançadas do 15º Exército Imperial Japonês.

OS CRIMES DE GUERRA alegadamente cometidos há 76 anos em Haochong não foram de forma alguma exclusivos à Campanha da Birmânia. Os relatórios de guerra estão manchados com atrocidades, desde o tormento de prisioneiros aliados na Tailândia, como retratado no filme A Ponte do Rio Kwai, ao assassinato de centenas de aldeões no massacre de Kalangong, na Birmânia. Mas as memórias do povo de Haochong nunca foram registadas até agora.

O relato que se segue foi reconstruído a partir de entrevistas feitas aos anciãos de Haochong, de relatórios militares fragmentados e de recortes de jornais da época. Em abril de 1944, o exército britânico que guardava a fronteira da Índia com a Birmânia estava a ser atacado por 110 mil soldados japoneses experientes. De acordo com o diário oficial do exército, um jovem civil chamado Thomas Arthur Sharpe foi enviado para as colinas a oeste de Imphal numa missão especial: ajudar a organizar a resistência local em coordenação com a secreta “Força V” – uma unidade de guerrilha britânica que, segundo as palavras do historiador Fergal Keane, “era composta por plantadores de chá, aventureiros, oficiais, velhos soldados, antigos caçadores de cabeças e tropas indianas”.

Esquerda: Chilannang Bariam, 87 anos, recorda a violência da Segunda Guerra Mundial que atingiu Haochong, a sua aldeia nas colinas de Manipur. Direita: Estas moedas antigas, incluindo algumas datadas da Segunda Guerra Mundial, foram encontradas na selva em torno de Haochong, onde os soldados britânicos foram degolados pelos soldados japoneses.
Fotografia de PAUL SALOPEK

Um soldado designado para a frente de batalha birmanesa fez a seguinte descrição sobre um oficial tipicamente exótico da Força V que atravessava a zona de combate na selva:

“Um elefante apareceu à vista. Nas suas costas tinha uma sela rudimentar de bambu, e empoleirado nela estava um oficial britânico, vestido de forma excêntrica, que nos acenou alegremente... uma rápida chávena de chá e ele estava a caminho novamente... era um sujeito alto, com uma barba bíblica e vestes brancas esvoaçantes, e avançava rapidamente com um guarda-chuva preto enorme contra o sol.”

Mas Sharpe não andou de elefante. Ele entrou nas colinas de Manipur com uma coluna de tropas indígenas. E o facto de se saber muito pouco sobre o que lhe aconteceu sugere que as coisas não correram bem.

Nascido de pais da classe média na região centro de Inglaterra, Sharpe formou-se na Faculdade Emmanuel da Universidade de Cambridge e rapidamente focou as suas atenções na Índia. Com amigos ingleses e indianos, percorreu a Europa e a Pérsia de carro para chegar ao subcontinente – um feito para uma época onde não existiam autoestradas. Depois de passar pelo serviço público indiano, acabou em Imphal, onde foi promovido a vice-comissário, e chegou a ser refém de milhares de mulheres que protestavam contra o monopólio de arroz. Em 1942, o rei concedeu-lhe uma medalha por conduzir pessoalmente em segurança, pela fronteira indiana, a retirada do general Joseph Stillwell das forças americanas na Birmânia. Mas em Haochong, as suas aventuras terminaram. Sharpe tinha 30 anos.

“Os britânicos não sabiam que os japoneses estavam aqui”, diz Chilannang Bariam, o ancião da aldeia, que na altura tinha 10 anos. “Muitos dos soldados britânicos foram alvejados.”

“Os que sobreviveram foram amarrados e deitados no chão. Os japoneses obrigaram-nos a andar em cima deles.”

Tal como os outros idosos em Haochong, Bariam acredita que os japoneses torturaram Sharpe e os seus homens para dissuadir os Naga de ajudar nos esforços de guerra britânicos. Mas se fosse esse o caso, esta demonstração de crueldade foi desnecessária.

Antes da guerra, as colinas em torno de Haochong foram o epicentro de uma revolta da população Naga contra o domínio colonial britânico. Uma rapariga mística de uma aldeia próxima, uma adolescente chamada Gaidinliu Kamei, tinha despertado os Naga para rejeitarem o cristianismo, os impostos e o trabalho forçado dos europeus. Esta revolta foi derrubada pela força das armas, e alguns dos habitantes de Haochong provavelmente receberam os japoneses como libertadores.

Tropas britânicas avançam para libertar a estrada Imphal-Kohima, uma artéria crucial no nordeste da Índia, em novembro de 1944. Esta campanha durou várias semanas e ceifou milhares de vidas japonesas.
Fotografia de AP

Após esta sessão de tortura, os prisioneiros de guerra britânicos e indianos foram levados um a um até à ponta da ravina, diz Bariam. Os soldados japoneses cortaram a garganta dos homens com baionetas, ou decapitaram-nos com espadas. Os registos oficiais de guerra britânicos sugerem que Sharpe foi baleado. Mas Bariam insiste que ele foi decapitado.

“Na Campanha da Birmânia, houve muitos relatos de japoneses que usavam os prisioneiros de guerra para praticarem com as baionetas”, diz Yaiphaba Kangjam, historiador de guerra em Manipur cuja empresa, a Battle of Imphal Tours, organiza visitas guiadas aos campos de batalha na região. “Portanto, as alegações dos anciãos da aldeia podem ser verdadeiras.”

A taxa de mortalidade deste massacre é impossível de confirmar. Em Haochong, os relatos sustentam que morreram cerca de 40 homens. O especialistas militares dizem que este número pode ser muito elevado. Para além disso, as identidades das vítimas, exceto Sharpe, são desconhecidas. Entre elas podiam estar as forças da milícia Gurkha do Nepal, ou tropas da Índia Assamesa. E também podem ter incluído homens Naga. As vítimas indígenas não são mencionadas nos registos disponíveis da Segunda Guerra Mundial.

“Aqueles rapazes ainda devem estar lá”, diz Dinta Inka, presidente do conselho da aldeia de Haochong. “Nunca apareceu ninguém para os vir buscar.”

Em relação a Sharpe, a localização da sua sepultura continua dúbia.

Inka refere um local na aldeia onde o corpo do sahib foi enterrado: no topo de uma colina com vista para uma igreja batista cuja construção ficou a meio. Rajeshwor Yumnam, historiador de Manipur familiarizado com o caso, contesta esta afirmação: o inglês foi exumado depois da guerra, diz Yumnam, e está algures debaixo da relva no complexo do antigo governador britânico em Imphal.

Aparentemente, Sharpe nunca se casou ou teve filhos. Os arquivos da Faculdade Emmanuel mostram que a sua única irmã, Olivia Sharpe, antes de falecer, doou a medalha do irmão – A Ordem do Império Britânico – à sua antiga faculdade. E hoje, os trilhos de guerra por onde Sharpe e os seus homens caminharam até à morte foram recuperados pela floresta e ecoam com o canto das cigarras.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler