Os Médicos da Peste Usavam Máscaras com Bicos Estranhos – Porquê?

No século XVII, as pessoas acreditavam que estes fatos estranhos purificavam o ar venenoso, mas estavam erradas.

Monday, March 23, 2020,
Por Erin Blakemore
No século XVII, para tentar combater a peste, os médicos usavam máscaras com um bico, luvas ...
No século XVII, para tentar combater a peste, os médicos usavam máscaras com um bico, luvas de couro e casacos compridos. Este visual icónico e sinistro, aqui representado numa gravura de 1656, ainda é reconhecível atualmente.
Fotografia de ARTEFACT, ALAMY

A peste já foi a doença mais temida no mundo, capaz de destruir centenas de milhões de vidas em pandemias globais aparentemente imparáveis, e as suas vítimas tinham gânglios linfáticos inchados, pele enegrecida e outros sintomas terríveis.

Na Europa do século XVII, os médicos que cuidavam das vítimas de peste usavam uma indumentária que assumia implicações sinistras: cobriam-se dos pés à cabeça e usavam uma máscara com um bico semelhante ao de um pássaro. Estas máscaras da peste surgiram de um equívoco sobre a natureza perigosa da doença.

Durante os surtos de peste bubónica daquele período – uma pandemia que se repetiu na Europa durante séculos – as cidades atingidas pela doença contrataram médicos da peste que praticavam o que se acreditava ser medicina, tanto para as pessoas abastadas como para as mais pobres. Estes médicos prescreviam o que se acreditavam ser misturas protetoras e antídotos para a peste, assistiam aos testamentos e realizavam autópsias – e alguns faziam isto vestindo máscaras com bicos.

Charles de Lorme, médico que cuidava da realeza no século XVII, é frequentemente creditado pelos trajes usados pelos médicos da peste.
Fotografia de The Picture Art Collection, Alamy

Estes trajes são geralmente creditados a Charles de Lorme, um médico que cuidava das necessidades médicas de vários membros da realeza europeia durante o século XVII, incluindo o rei Luís XIII e Gastão de Orleães, filho de Maria de Médici. Charles de Lorme descrevia um fato que incluía um casaco coberto de cera perfumada, calças ligadas a botas, camisa, chapéu e luvas de couro de cabra. Os médicos da peste também usavam uma vara que lhes permitia afastar as vítimas.

O equipamento usado na cabeça era particularmente invulgar. Lorme dizia que “os médicos da peste usavam óculos e uma máscara perfumada, com um bico de 15 centímetros que tinha dois orifícios, um de cada lado das narinas, e que era o suficiente para uma pessoa respirar um ar com aroma a ervas, que estavam fechadas na zona frontal do bico”.

Apesar de os médicos da peste usarem estes trajes por toda a Europa, o visual tornou-se tão icónico em Itália que o “médico da peste” passou a fazer parte da commedia dell’arte e das celebrações de carnaval – e ainda é um fato popular atualmente.

Venezianos vestidos de médicos da peste durante as celebrações do carnaval da cidade. Este ano, os últimos dois dias do evento foram cancelados devido às preocupações com o coronavírus.
Fotografia de Giacomo Cosua, NurPhoto/Getty

Mas este conjunto sinistro não era apenas uma declaração mórbida de moda: destinava-se a proteger os médicos do miasma. Antes de surgir a teoria dos germes, os médicos acreditavam que a praga se espalhava pelo ar envenenado, e que podia criar um desequilíbrio nos humores de uma pessoa ou nos seus fluidos corporais. E também se acreditava que os perfumes mais pungentes eram capazes de fumigar as áreas afetadas pela peste e proteger dos odores; os arranjos florais, o incenso e outros perfumes também eram comuns na época.

Os médicos da peste enchiam as suas máscaras com teriaga, um composto com mais de 55 ervas e outros componentes, como carne de víbora em pó, canela, mirra e mel. Lorme pensava que a máscara em forma de bico daria tempo suficiente para o ar ser absorvido pelas ervas protetoras, antes de chegar às narinas e pulmões dos médicos.

A peste era provocada pela Yersinia pestis, uma bactéria que pode ser transmitida de animais para humanos – por picadas de pulga, pelo contacto com fluidos ou tecidos contaminados, e pela inalação de gotículas infecciosas dos espirros ou da tosse de pessoas com peste pneumónica.

O mundo enfrentou três pandemias terríveis de peste que se disseminaram por todo o globo, até que a sua causa foi eventualmente descoberta – a Praga de Justiniano, que matou cerca de 10.000 pessoas por dia, por volta de 561 d.C.; a Peste Negra, que matou um terço dos europeus entre 1334 e 1372, e continuou com surtos intermitentes até 1879; e a Terceira Pandemia, que devastou grande parte da Ásia entre 1894 e 1959.

As roupas e os métodos dos médicos da peste não fizeram grande diferença. “Infelizmente”, escreve o historiador Frank M. Snowden, “as estratégias terapêuticas dos primeiros médicos modernos da peste fizeram pouco para prolongar a vida, aliviar o sofrimento ou encontrar uma cura”.

Os médicos da peste podiam ser imediatamente reconhecidos, mas até surgir a teoria dos germes e os antibióticos modernos, os seus trajes não ofereciam uma proteção real contra a doença.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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