Como se Fazia Antes de Existir Papel Higiénico?

A história diz-nos que, surpreendentemente, o papel higiénico já anda por cá há muito tempo – e que as nossas ansiedades sobre a sua disponibilidade também já vêm de longe.

Friday, April 3, 2020,
Por Erin Blakemore
Nos EUA, a produção em massa de papel higiénico começou em 1857, mas ao longo dos ...

Nos EUA, a produção em massa de papel higiénico começou em 1857, mas ao longo dos tempos, as pessoas empregaram uma diversidade de métodos para as suas visitas à casa de banho.

Fotografia de HANNAH WHITAKER

Em tempos de compras desenfreadas devido à pandemia, pode ser tentador pensar nos momentos em que o papel higiénico nunca faltava – ou pensar como é que as pessoas se costumavam limpar na era que antecedeu os pacotes de 24 rolos com folha tripla super macia. Hoje, centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro, sobretudo no Médio Oriente e na Ásia, nem se importam com isso e preferem terminar a visita à casa de banho com uma lavagem. Mas os arqueólogos e antropólogos fizeram muito trabalho sujo para documentar como é que as pessoas se limpavam antigamente.

Na Roma antiga, quem precisava de usar uma latrina pública podia ter usado um tersorium para se limpar. Estes dispositivos antigos consistiam num pau com uma esponja embebida em vinagre ou água salgada. E são mencionados por toda a literatura romana, incluindo num excerto inesquecível, pelos piores motivos, de uma carta do filósofo Séneca ao oficial romano Lucílio. A carta fala sobre o suicídio de um gladiador alemão que colocou um pau com uma esponja – “que era dedicada aos usos mais vis” – na sua garganta, para evitar ir para a arena e morrer às garras de um animal selvagem.

De acordo com relatos da antiguidade, os romanos usavam um pau com uma esponja na ponta – chamado ‘tersorium’ (réplica moderna na imagem). Porém, os arqueólogos não sabem exatamente se esta invenção era utilizada para limpar a casa de banho, ou para limpar os seus utilizadores.

Fotografia de D. Herdemerten, Wikimedia Commons

Utilizado de forma comunitária, acredita-se que o humilde tersorium pode ter influenciado o design das casas de banho públicas da época. Os arqueólogos supõem que as pequenas aberturas no chão dos lavatórios públicos da cidade de Éfeso eram fontes onde a água fluía continuadamente – e seria útil para mergulhar o tersorium. Porém, ainda não foram encontrados exemplos preservados. “A questão passa por saber se eram usados para limpar a latrina, ou se era para as pessoas se limparem”, diz a arqueóloga Jennifer Bates, bolseira de pós-doutoramento no Museu Penn da Universidade da Pensilvânia.

Pedaços de vasos de cerâmica conhecidos por “pessoi” que eram usados pelos antigos gregos e romanos. Os arqueólogos escavaram estes “pessoi” com quase 2 mil anos de idade de latrinas romanas na Sicília (esquerda) e em Creta (direita).

Fotografia de Philippe Charlier, Luc Valère Codjo Brun, Clarisse Prêtre, Isabelle Huynh-Charlier

Os arqueólogos ainda não chegaram a uma conclusão sobre o pau e a esponja, mas descobriram amostras de pessoi – um equivalente humilde do papel higiénico na antiga Grécia e Roma. Os pessoi, pequenos seixos ovais ou pedaços de cerâmica, foram descobertos nas ruínas das antigas latrinas romanas e gregas. E até foram imortalizados num copo com 2.700 anos que mostra um homem agachado a utilizar a sua pedra. Os pessoi também merecem uma menção no Talmude.

Também existe outra solução criativa de limpeza que foi escavada em 1992 num sítio arqueológico da antiga Rota da Seda, no noroeste da China. Os arqueólogos descobriram sete “varas higiénicas” – paus de bambu ou de madeira embrulhados em tecido – numa área de latrina. O tecido com 2 mil anos presente nas varas estava coberto com o que pareciam ser excrementos humanos, e as análises microscópicas das fezes confirmaram que estas continham uma variedade de parasitas que se encontram nos intestinos humanos.

Uma das “varas higiénicas” encontradas na China, num sítio da Rota da Seda. A análise científica revelou que estas varas com 2 mil anos ainda têm evidências de uma variedade de parasitas que se encontram nos intestinos humanos.

Fotografia de Photograph from Hui-Yuan Yeh, Ruilin Mao, Hui Wang, Wuyun Qi, Piers D. Mitchell

“As varas foram encontradas num contexto específico, e os parasitas que contêm só podem ter vindo de humanos”, diz Bates. “As varas foram definitivamente usadas no contexto de latrina.”

Esta descoberta é suportada por textos históricos que indicam que na China e no Japão da antiguidade se usavam varas e espátulas (e um koan budista também refere uma “vara de limpeza”).

A China também estava avançada relativamente ao papel higiénico. A referência mais antiga ao papel higiénico foi encontrada nos materiais escritos por Yen Chih-Thui, um estudioso do século VI d.C., que teve acesso a manuscritos descartados que tinham sido usados para fins pessoais – mas Yen disse que não se atreveu a limpar “aos nomes de sábios”. Mas a prática parece ter entrado em vigor ainda antes. Os investigadores sugerem que o papel de cânhamo, como o encontrado no túmulo do imperador Wu Di do século II d.C. – um papel demasiado áspero para a escrita – era usado como papel higiénico.

Em 1393, o papel higiénico à base de arroz foi produzido em massa para a família imperial chinesa. Mas só em 1857 é que o mundo ocidental teve o seu primeiro papel higiénico produzido em grande escala. Foi nesse ano que o inventor Joseph Gayetty apresentou o Papel Medicinal Para Casa de Banho de J.C. Gayetty, na tentativa de aliviar os americanos dos jornais ásperos, das espigas de milho e de outros itens improvisados, incluindo o catálogo de encomendas da Sears.

E também existem precedentes históricos para os açambarcamentos de papel higiénico. Em 1973, as mulheres japonesas começaram a comprar enormes quantidades de papel higiénico – com filas gigantes nas lojas para comprarem rolos. Foi a resposta dada pelos japoneses de classe média ao receio de que as suas aspirações de paz, estabilidade e mobilidade económica fossem afetadas pela inflação pós-guerra, que incluiu a degradação ambiental e a crise do petróleo, explica Eiko Maruko Siniawer, historiadora da Faculdade Williams.

“Pela primeira vez, desde finais da década de 1950, não se sabia se o futuro seria melhor do que o passado”, diz Siniawer.

A corrida desenfreada ao papel higiénico no Japão também alimentou alguns receios nos Estados Unidos, levando um congressista do Wisconsin a emitir uma declaração sobre uma possível escassez. Em 1973, quando o comediante Johnny Carson brincou sobre a situação no The Tonight Show, provocou inadvertidamente um pânico de curta duração sobre o papel higiénico.

“Para mim, enquanto historiadora, é importante não gozar com as decisões e ações das pessoas, mas pensar por que razão fizeram o que fizeram”, diz Siniawer. A historiadora encara o açambarcamento de papel higiénico de 1973 como uma janela para a vida das mulheres japonesas da época. Da mesma forma, diz Bates, estudar os hábitos de outrora pode ajudar a compreender um pouco de tudo, desde diferenças interculturais, questões de género, dinheiro e saúde.

“De um ponto de vista antropológico, podemos observar a forma mais ampla como os hábitos de casa de banho afetaram o desenvolvimento humano desde o passado até ao presente, e depois para o futuro”, diz Bates.

“Muitas vezes, as pessoas descartam a prática mundana do uso da casa de banho. Mas este ato que é muito comum oferece informações importantes sobre quem fomos, quem somos e quem poderemos vir a ser.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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