Fotografar a Cidade de Paris Deserta – ‘É Sinistro.’

A primavera chegou, mas alguns dos edifícios mais famosos da Cidade das Luzes estão encerrados.

Friday, April 3, 2020,
Por William Daniels
Fotografias Por William Daniels
A polícia patrulhava a praça deserta do Trocadero no dia 17 de março, o primeiro dia ...

A polícia patrulhava a praça deserta do Trocadero no dia 17 de março, o primeiro dia do confinamento em Paris. Para saírem de casa, os parisienses têm de mostrar às autoridades um documento sobre o propósito e a sua hora de saída. Quem não apresentar este documento incorre num risco de multa.

Durante as quase duas décadas em que vivi e trabalhei em Paris, nunca vi a cidade tão sossegada. É um vazio silencioso e sinistro.

O ‘Forum des Halles’, no centro de Paris, é um dos maiores centros comerciais da Europa. Mais de 150 mil visitantes passam por aqui todos os dias. Agora está deserto, só se ouve o barulho das escadas rolantes – e os pássaros a cantar.

Inicialmente, demorou algum tempo até as pessoas perceberem o que estava a acontecer – a perceberem que este novo coronavírus era muito mais do que uma crise asiática. Aqui, as escolas encerraram no dia 12 de março, mas no final da semana seguinte a primavera estava no ar, estavam dias lindos ensolarados, e os parisienses não resistiram a sair à rua.

Paris, França

Depois, no dia 16 de março, quando o presidente Emmanuel Macron ordenou que todo o país ficasse em casa durante 15 dias, a dimensão da crise ficou bem patente. Naquela manhã, formou-se uma fila de 200 metros à porta do meu supermercado. Enquanto eu fotografava a fila, alguns dos clientes opuseram-se. Mas depois de conversarmos, percebi que eles estavam assustados e que alguns estavam chateados porque o governo não se apercebeu da crise atempadamente.

Quando esta situação se desencadeou em França, Londres ainda estava apinhada de gente, e a cidade de Nova Iorque também. Penso que Paris foi uma das primeiras grandes cidades a ficar deserta. No dia 30 de março, em Paris e nos seus subúrbios, estavam infetadas 11.838 pessoas com a COVID-19, e 954 tinham falecido. Por todo o país, França registava 44.550 casos positivos e 3.024 óbitos. Muitos assumem que o número real de casos pode ser muito maior, porque estamos a testar apenas as pessoas com sintomas mais graves. França não tem testes suficientes, ao contrário da Alemanha, onde mais de 100 mil pessoas são testadas semanalmente. E o número de mortes conhecidas em França também pode ser enganadoramente baixo, porque só são contabilizadas as pessoas que morrem nos hospitais.

Seis dias depois da ordem para as pessoas ficarem em casa, o distrito empresarial de Paris, La Défense, estava deserto.

Com base nas projeções das autoridades de saúde, o pico de COVID-19 pode chegar a Paris no dia 5 de abril. Algumas autoridades dizem que o número de casos na região de Paris será semelhante ao do norte de Itália, onde no dia 29 de março já tinham morrido 6.818 pessoas.

Com o cancelamento de voos no mundo inteiro, o comboio entre o centro de Paris e o Aeroporto Charles de Gaulle parece um transporte fantasmagórico.

Para sairmos à rua na cidade, é preciso um documento oficial que indique a razão pela qual precisamos de sair, e a que horas saímos de casa, ou corremos o risco de sermos multados pela polícia. No início do confinamento, fui a um mercado em Barbès, um bairro pobre no norte de Paris. Naquele dia o mercado estava lotado e muitas das pessoas com quem conversei não tinham o referido documento, mas não vi nenhum policia a optar pela aplicação de multas.

Esquerda: A estação de metro Châtelet-Les Halles, no coração de Paris, é a maior estação de metro da Europa. Mas hoje está tranquila.
Direita: Pela estação de Châtelet-Les Halles passam três comboios regionais e cinco linhas de metro, movimentando um total de 750 mil pessoas por dia em horário normal. Durante o bloqueio, só os trabalhadores essenciais podem usar os transportes públicos.

Nestes bairros mais pobres, onde em condições normais a vida já é difícil, registaram-se vários distúrbios entre jovens e os mercados locais foram encerrados. As credenciais de imprensa permitem-me andar pelas ruas e pelos lugares públicos a tirar fotografias. Eu considero-me sortudo – para as famílias pobres fechadas em apartamentos pequenos, é muito mais difícil.

No dia 26 de março, Paris encerrou 50 estações de metro e reduziu drasticamente a circulação de comboios e autocarros para limitar a propagação do coronavírus.

Apesar de ter nascido na Normandia e de viver em Paris há 18 anos, fiz pouco fotojornalismo em França. Em vez disso, concentrei as minhas atenções em questões sociais em África e nas guerras na República Centro-Africana, na Líbia, na Síria e no Iraque. Quando fazemos a cobertura de guerras, precisamos de manter a distância da dor e do sofrimento. Precisamos deste distanciamento para fazermos um trabalho objetivo e para não nos deixarmos levar pelas emoções.

Levando em consideração a situação que se vive em Itália, França agiu rapidamente para encerrar as suas áreas mais movimentadas, como o centro comercial Forum des Halles. Desde o dia 14 de março, só os serviços essenciais é que têm autorização para permanecer em funcionamento.

A primeira vez que fiz a cobertura de alguma coisa terrível no meu país foi em 2015, quando fotografei as consequências dos ataques terroristas numa casa de concertos, num café e no estádio de futebol em Paris. Comparando com isso, o meu trabalho durante esta calamidade da COVID-19 é muito diferente. Isto é sobre todos nós – sobre conhecidos e desconhecidos, sobre amigos, a minha família, os meus vizinhos e eu.

De certa forma, é mais difícil fotografar o nosso próprio lar e as pessoas. Uma coisa que eu queria fazer era transmitir o clima das estruturas mais emblemáticas da cidade que estão sob bloqueio – o Louvre, a Torre Eiffel, o distrito empresarial de La Défense – em momentos diferentes, com iluminações diferentes. É muito difícil fotografar o vazio. Passei muito tempo – às vezes três horas ou mais – em cada local. Ao todo, devo ter captado cerca de 4 mil fotografias até agora.

Dois dias depois do encerramento de bares, cafés e de outros negócios não essenciais da cidade, o fotógrafo William Daniels documentou estas fachadas das lojas.

Os bares, restaurantes e discotecas estão silenciosos na famosa Rue de Lappe, um dos locais mais vibrantes da vida noturna parisiense.

Em ambientes familiares, tento encontrar beleza e significado em algo que vejo todos os dias, mas estou tão acostumado ao que me rodeia que posso perder cenas ou momentos interessantes. Agora, no centro da cidade, vejo muitas pessoas sem-abrigo, pessoas em quem eu nunca tinha reparado porque estavam escondidas no meio da multidão. A situação destas pessoas é terrível. Não podem pedir dinheiro aos transeuntes porque as ruas estão desertas. Todas as casas de banho públicas que normalmente são utilizadas por estas pessoas estão fechadas. Os sem-abrigo são geralmente ajudados por pequenas organizações, mas quase todos estes grupos de ajuda pararam as suas atividades.

As pessoas que costumam visitar os parques estão agora fechadas em casa, e perdem a glória da primavera no Jardin des Halles, no centro de Paris.

Quero mostrar como é que a pandemia está a afetar os sem-abrigo, bem como os imigrantes e refugiados que vivem em campos nos arredores de Paris. Para eles, o distanciamento social é impossível. Não têm acesso a máscaras e luvas, e é difícil manter uma higiene pessoal rigorosa. Também planeio cobrir o trabalho dos Médicos Sem Fronteiras que estão a ajudar as populações mais vulneráveis, organizando clínicas móveis para fazerem testes e ensinando as pessoas a protegerem-se o melhor possível.

Um carro da polícia solitário mantém o bloqueio na Place du Trocadero. Do outro lado do rio Sena vemos a Torre Eiffel. Com o número de mortos a aumentar devido à COVID-19, o bloqueio foi prolongado até ao dia 15 de abril.

Pretendo continuar com este trabalho durante as próximas semanas, para dar às pessoas de todo o mundo uma visão da pandemia na minha cidade. Ao percorrer Paris, reparei que o ar está muito mais fresco – há menos poluição. No outro dia, quando estava a fotografar na entrada principal do centro Les Halles, um dos maiores centros comerciais da Europa, ouvi pássaros a cantar. Nunca tinha reparado que um lugar como Les Halles podia ter pássaros. E isso deu-me esperança.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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