A Alemanha Rendeu-se Duas Vezes na Segunda Guerra Mundial

Assombradas pelos fantasmas da Primeira Guerra Mundial e pela incerteza de um futuro comunista, as forças aliadas decidiram precaver-se contra todos os cenários.

Monday, May 11, 2020,
Por Erin Blakemore
Tropas americanas celebram a primeira rendição incondicional da Alemanha que entrou em vigor no dia 8 ...

Tropas americanas celebram a primeira rendição incondicional da Alemanha que entrou em vigor no dia 8 de maio de 1945. Para evitar a possibilidade de uma rendição ilegítima, Joseph Stalin, o líder da então URSS, organizou uma segunda rendição no dia seguinte.

Fotografia de HULTON-DEUTSCH COLLECTION, CORBIS/GETTY

No dia 7 de maio de 1945, a Alemanha rendeu-se incondicionalmente aos Aliados em Reims, França, acabando assim com a Segunda Guerra Mundial e com o Terceiro Reich.

Ou será que isto aconteceu em Berlim no dia 9 de maio?

Ambas as datas estão corretas. Devido às ideologias de guerra, às disputas entre a União Soviética e os seus aliados e ao legado deixado pela Primeira Guerra Mundial, a Alemanha rendeu-se efetivamente duas vezes.

Como a vitória dos Aliados parecia cada vez mais certa em 1944 e 1945, os Estados Unidos, a URSS, a França e o Reino Unido debateram ideias sobre os termos de uma rendição alemã. Mas quando Adolf Hitler se suicidou num bunker em Berlim, no dia 30 de abril de 1945, e a sua ditadura terminou de forma sangrenta, ainda não se sabia ao certo como é que a assinatura da uma rendição militar ou política seria orquestrada.

Hitler designou Karl Dönitz, almirante naval e fervoroso defensor da ideologia nazi, para o suceder em caso de morte. Mas Dönitz não iria governar uma nova Alemanha, mas sim orquestrar a sua dissolução. Dönitz nomeou rapidamente Alfred Jodl, chefe da equipa de operações do Alto Comando das Forças Armadas, para negociar a rendição de todas as forças alemãs com o general Dwight D. Eisenhower.

Alfred Jodl, chefe alemão da equipa de operações do Alto Comando das Forças Armadas, assina um “Ato de Rendição Militar” incondicional e cessar-fogo no dia 7 de maio de 1945.

Fotografia de Universal History Archive, Universal Images Group/Getty

Dönitz tinha a esperança de que as negociações lhe dessem tempo suficiente para retirar o maior número possível de soldados e tropas alemãs do caminho do exército russo. E também esperava convencer os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França, países que desconfiavam da URSS, a virarem-se contra a União Soviética, para a Alemanha poder continuar a sua guerra nessa frente. Eisenhower percebeu o estratagema e insistiu para que Jodl assinasse um instrumento de rendição sem negociações.

No dia 7 de maio de 1945, Jodl assinou um “Ato de Rendição Militar” incondicional e um cessar-fogo que entraria em vigor às 23h01 – no horário padrão da Europa Central – do dia 8 de maio. Quando o líder soviético Joseph Stalin descobriu que a Alemanha tinha assinado uma rendição incondicional em Reims, ficou furioso. Stalin argumentou que, como a URSS tinha sacrificado o maior número de soldados e civis durante a guerra, devia ser o seu comandante militar mais importante a aceitar uma rendição da Alemanha, em vez do oficial soviético que testemunhou a assinatura em Reims. Stalin também se opôs à localização da assinatura: como Berlim era a capital do Terceiro Reich, devia ser esse o local da sua rendição.

Mas Stalin tinha uma terceira objeção – a de que Jodl não era o oficial militar com a patente mais elevada da Alemanha – que viria a reunir o consenso dos aliados, porque lembrou a todos como é que a assinatura do armistício que encerrou a Primeira Guerra Mundial ajudou a plantar as sementes para a guerra mundial que se seguiu.

Londrinos celebram a rendição da Alemanha no dia 8 de maio de 1945 – no dia anterior à segunda rendição final da Alemanha em Berlim. Pat Burgess, à esquerda, acenava com um jornal que anunciava a vitória dos Aliados, na esperança de que o seu marido regressasse depressa dos confrontos na Alemanha.

Fotografia de REG SPELLER, FOX PHOTOS/HULTON ARCHIVE/GETTY (ESQUERDA) E PICTURE POST, HULTON ARCHIVE/GETTY (DIREITA)

Em 1918, no final da Primeira Guerra Mundial, o Império Alemão estava à beira da derrota e entrou em colapso, sendo substituído por uma república parlamentar. Matthias Erzberger, o novo Secretário de Estado, assinou o armistício de Compiègne, no qual a Alemanha se rendia incondicionalmente.

Esta rendição foi um choque para grande parte dos civis alemães, que tinham sido informados de que os seus militares estavam prestes a vencer. Assim, começaram a circular rumores de que o novo governo civil da Alemanha – e outros bodes expiatórios populares, como marxistas e judeus – tinha traído as forças armadas. Erzberger acabou por ser assassinado devido a estes rumores, que se tornaram comuns entre os membros do novo Partido Nazi que se consolidava para tomar o poder.

Stalin argumentou que a aceitação da rendição de Jodl em nome da Alemanha na Segunda Guerra Mundial podia abrir as portas para uma situação semelhante, pois Jodl tinha sido delegado por Dönitz, um chefe de estado civil. Preocupados com a possibilidade de a Alemanha insistir novamente na ilegitimidade da sua rendição, teria de ser o marechal de campo Wilhelm Keitel, comandante supremo de todas as forças alemãs, a assinar pessoalmente o documento. E assim os Aliados decidiram reencenar o processo de rendição.

No dia 8 de maio, Wilhelm Keitel dirigiu-se para Karlshorst, um subúrbio de Berlim, para assinar o documento na presença do marechal soviético Georgy Zhukov e de uma pequena delegação dos Aliados. Mas Keitel argumentou uma questão menor, na esperança de adicionar uma cláusula que concedesse às suas tropas um período de tolerância de pelo menos 12 horas, para garantir que recebiam as suas ordens de cessar-fogo, antes de enfrentarem quaisquer penalidades por continuarem a lutar. Georgy Zhukov acabou por oferecer a Keitel uma promessa verbal, mas não aceitou o pedido para adicionar a referida cláusula. Devido a este atraso, o documento só foi executado depois do início do cessar-fogo – e entretanto já era dia 9 de maio.

Até hoje, os russos comemoram o dia 9 de maio como o Dia da Vitória. A rendição de Reims só foi noticiada pela imprensa soviética um dia depois, algo que, de acordo com alguns observadores, prova que a segunda rendição foi uma jogada de propaganda orquestrada por Stalin, para poder reivindicar para si uma parte maior dos créditos pelo fim da guerra. Contudo, no resto do mundo, o Dia da Vitória na Europa é comemorado no dia 8 de maio, o dia em que o cessar-fogo estava oficialmente programado para começar.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

Continuar a Ler