‘Casa Funerária’ do Antigo Egito Servia Todo o Tipo de Clientes a Caminho do Além

Novas evidências mostram que os sacerdotes-embalsamadores eram empreendedores engenhosos que faziam “pacotes” para todos os orçamentos.

Wednesday, May 27, 2020,
Por Andrew Curry
Num túmulo nas profundezas do deserto, o egiptólogo Ramadan Hussein (à esquerda) e a especialista em ...

Num túmulo nas profundezas do deserto, o egiptólogo Ramadan Hussein (à esquerda) e a especialista em múmias Salima Ikram (à direita) examinam o caixão de uma mulher que foi sepultada num sarcófago de calcário que pesa mais de sete toneladas.

Fotografia de LINA ZILINSKAITE, NATIONAL GEOGRAPHIC

Esta descoberta foi notícia pelo mundo inteiro quando foi anunciada pela primeira vez em julho de 2018: Arqueólogos descobrem “casa funerária” do antigo Egito nas profundezas das areias de Sacará, uma vasta necrópole – cidade dos mortos – nas margens do rio Nilo, a pouco mais de 30 km a sul do Cairo.

Nos dois anos que se seguiram, as análises minuciosas e as novas descobertas feitas numa câmara ali perto, que estava cheia de túmulos, revelaram inúmeras informações sobre o negócio da morte no antigo Egito. Durante séculos, os trabalhos arqueológicos feitos na terra dos faraós concentraram-se na descoberta de inscrições e artefactos nos túmulos reais, e não nos detalhes da vida simples do quotidiano. Mas as casas de mumificação provavelmente existiam em necrópoles por todo o Egito, e muitas foram ignoradas pelas gerações de escavadores que faziam os trabalhos apressadamente para chegar aos túmulos mais abaixo.

Agora, com as descobertas feitas em Sacará, isso está a mudar e as evidências arqueológicas de uma vasta indústria funerária estão a ser desenterradas e documentadas em detalhe pela primeira vez.

Esquerda: Gesso pintado decora o caixão de madeira de uma mulher chamada Tadihor. Os hieróglifos no gesso formam um feitiço do Livro dos Mortos e têm como objetivo ajudar a mulher a ultrapassar os demónios no submundo.
Direita: Os mais de 2.500 anos de calor e humidade deixaram a sua marca nesta múmia em decomposição, mas as dezenas de missangas e outras pistas indicam que este indivíduo pertencia à elite.

Fotografia de PIERS LEIGH, NATIONAL GEOGRAPHIC

Este sacerdote, chamado Ayput, foi enterrado num sarcófago de pedra esculpido em forma de humano, um estilo conhecido por antropoide. O invólucro da múmia foi revestido com alcatrão ou resina, conferindo-lhe um tom escuro.

Fotografia de Piers Leigh, National Geographic

“As evidências que encontrámos indicam que os embalsamadores tinham muito jeito para o negócio”, diz Ramadan Hussein, egiptólogo da Universidade de Tübingen, na Alemanha. “Eles eram muito inteligentes em relação às alternativas.”

Quem não podia pagar uma máscara funerária de luxo, feita de ouro e prata, podia optar pelo “gesso branco e folha de ouro”, diz Hussein.

Quem não tinha dinheiro suficiente para guardar as suas entranhas em vasos lustrosos de alabastro egípcio podia optar pelos potes de barro pintado.

“Nós lemos sobre isto nos textos [antigos]”, diz Hussein, “mas agora podemos realmente contextualizar o negócio da morte”.

Descoberta inesperada
Hussein começou a trabalhar em Sacará em 2016, à procura de túmulos escondidos no subsolo que datam do ano 600 a.C. Estas câmaras nas profundezas foram amplamente ignoradas pelos primeiros egiptólogos, que frequentemente se concentravam nos túmulos de períodos mais antigos da história egípcia. O trabalho da equipa de Hussein será apresentado numa nova série de quatro partes da National Geographic, Reino das Múmias, que em Portugal estreia a 20 de junho. Enquanto investigavam uma área que tinha sido examinada pela última vez em finais do século XIX, Hussein e a sua equipa descobriram um poço esculpido no leito rochoso que estava cheio de areia e detritos.

Os trabalhadores usam um guincho manual para transportar ferramentas e outros equipamentos para a oficina de múmias e túmulos que fica 30 metros abaixo da superfície. O complexo funerário ocupava uma localização privilegiada em Sacará – à vista da Pirâmide de Djoser, um dos monumentos sagrados mais antigos do Egito.

Fotografia de Piers Leigh, National Geographic

Depois de removerem 42 toneladas de detritos, os arqueólogos chegaram ao fundo do poço de 12 metros e encontraram uma câmara espaçosa de teto alto. Esta sala também estava cheia de pedras e areia que precisavam de remoção. Entre os escombros havia milhares de pedaços de cerâmica, e cada um tinha de ser cuidadosamente documentado e conservado. A meticulosa escavação demorou meses.

Quando a câmara foi finalmente limpa, a equipa ficou surpreendida ao descobrir que não se tratava de um túmulo. A sala tinha uma área elevada em forma de mesa e canais esculpidos na rocha ao longo da base de uma parede. Num dos cantos, um pote do tamanho de um barril estava cheio de carvão, cinzas e areia negra. E um túnel mais antigo – parte de uma rede de passagens debaixo do chão de Sacará – movimentava ar fresco pela sala.

Para alcançarem a oficina de mumificação e as câmaras funerárias, os arqueólogos tiveram de remover 42 toneladas de areia e detritos deste poço vertical esculpido ao longo de 30 metros de rocha.

Fotografia de Will Churchill, National Geographic

Para Hussein, estes sinais sugerem que a câmara era uma oficina de mumificação, completa com um queimador de incenso de força industrial, canais de drenagem para canalizar o sangue e um sistema de ventilação natural.

“Se fizermos um processo de evisceração lá em baixo, precisamos de ar fresco para nos livrarmos dos insetos”, diz Hussein. “Queremos um fluxo constante de ar quando estamos a lidar com cadáveres.”

Ao longo do último ano, especialistas em olaria conseguiram juntar e etiquetar todos os fragmentos de cerâmica, reconstruindo centenas de vasos e potes mais pequenos.

“Cada pote ou vaso tem o nome da substância que continha e também tem as anotações dos dias em que foram usados no processo de embalsamamento”, diz Hussein. “As instruções estão escritas diretamente nos objetos.”
 

Ritos sagrados, realidades sombrias
Esta descoberta é de extrema importância para os académicos que estudam as práticas funerárias do antigo Egito, e oferece uma visão única dos ritos sagrados – e realidades sombrias – da mumificação.

Ramadan Hussein observa o interior de um sarcófago de pedra à procura de múmias. A equipa descobriu mais de 50 múmias.

Fotografia de Piers Leigh, National Geographic

Apesar de existir muita documentação antiga sobre este elaborado processo, e até mesmo em representações artísticas nas paredes dos túmulos egípcios, tem sido difícil encontrar evidências arqueológicas.

“São raras as oficinas dedicadas a este processo que foram escavadas de forma adequada”, diz Dietrich Raue, curador do Museu Egípcio da Universidade de Leipzig. “Isto resulta numa enorme lacuna no nosso conhecimento.”

Mas as descobertas feitas em Sacará estão a ajudar a preencher esse vazio, diz Hussein. “Pela primeira vez, podemos falar sobre a arqueologia do embalsamamento.”

Para os antigos egípcios, que acreditavam que o corpo tinha de permanecer intacto para conter a alma durante a vida após a morte, o embalsamamento era uma mistura entre rito sagrado e procedimento médico. O processo era um ritual cuidadosamente orquestrado, com orações e ritos específicos que eram realizados em cada um dos 70 dias necessários para transformar uma pessoa falecida em múmia.

Primeiro, os órgãos internos eram removidos e colocados em recipientes que os arqueólogos denominam por vasos canópicos. O corpo era desidratado com sais especiais, como o natrão. Depois, o falecido era ungido com óleos perfumados e embrulhado em tecido. Amuletos e feitiços eram então colocados entre as dobras no tecido. Por fim, a múmia encontrava o seu local de descanso final num túmulo equipado com mantimentos para a vida após a morte – mantimentos que variavam consoante as posses de cada pessoa.

Numa câmara mortuária claustrofóbica, com pouco espaço de manobra, os trabalhadores usam macacos de aço e engenharia para levantar a tampa de cinco toneladas de um sarcófago maciço.

Fotografia de Barney Rowe, National Geographic

As pirâmides imponentes dos faraós e o ouro cintilante no túmulo do rei Tutankamon demonstram bem o que os egípcios mais ricos eram capazes de fazer para passar o resto da eternidade em grande estilo. “Era uma indústria enorme”, diz Hussein.

Mas a jornada de uma múmia não terminava com o embalsamamento e enterro – e a faturação também não. Para além de servirem como sacerdotes e agentes funerários, os antigos embalsamadores egípcios também eram vendedores de imóveis.

Cuidados perpétuos – e lucros
É sabido que os faraós e a elite egípcia eram mumificados e repousavam em caixões com detalhes elaborados em túmulos espaçosos, repletos de riquezas e mantimentos, mas o trabalho de Hussein revela que os empreendedores da antiguidade também ofereciam opções para todos os orçamentos. Na linguagem comercial da atualidade, estavam verticalmente integrados, fornecendo um pouco de tudo – evisceração de cadáveres, enterros, cuidados e manutenção das almas dos falecidos – mediante uma taxa, claro.

Em Sacará, a poucos passos de distância da oficina de mumificação, os arqueólogos descobriram um segundo poço que leva até um complexo de seis túmulos. Dentro desta meia dúzia de túmulos estavam mais de 50 múmias.

Os arqueólogos Maysa Rabeeh (à esquerda) e Mohammed Refaat (à direita) examinam um caixão de madeira de um sacerdote chamado Ayawet que foi enterrado com os braços cruzados – uma posição divina geralmente reservada para os faraós.

Fotografia de Piers Leigh, National Geographic

No fundo do poço – 30 metros abaixo da superfície, onde o espaço era mais caro devido à sua proximidade com o submundo – os enterros eram particularmente elaborados e dispendiosos. Os túmulos incluem uma mulher deitada dentro de um sarcófago de calcário que pesa sete toneladas e meia. Numa câmara ali perto, havia uma mulher cujo rosto estava coberto por uma máscara de prata e ouro. Foi a primeira máscara deste género encontrada no Egito em mais de meio século.

Mas a estrutura também tem egípcios da classe média ou operária em caixões simples de madeira, ou embrulhados apenas em linho e colocados em poços de areia.

A equipa de Hussein usou ferramentas de mapeamento tridimensional e conseguiu perceber a forma como os enterros foram organizados. As descobertas confirmam as informações encontradas em documentos de papiro que foram recuperados em Sacará há mais de um século. Os documentos sugerem que os embalsamadores colocavam dezenas de corpos nos poços de sepulcro, e depois recolhiam taxas ou trocavam lotes de terreno pela manutenção espiritual de cada múmia.

Este modelo digital criado por um scanner 3D revela o poço principal que leva até um complexo de câmaras funerárias. Os túmulos de maior prestígio estão localizados na parte mais profunda, mais perto do submundo.

Fotografia de Shadow Industries, National Geographic

A antiga sociedade egípcia incluía uma classe inteira de sacerdotes que se dedicavam a cuidar dos espíritos dos mortos. A descrição das funções destes sacerdotes incluía a manutenção de túmulos e a oração pelos seus proprietários falecidos. Alguns tinham dezenas de túmulos, com centenas de múmias lá dentro.

“As pessoas tinham de levar oferendas semanais aos mortos para os manter vivos”, diz Koen Donker van Heel, egiptólogo da Universidade de Leiden que passou vários anos a estudar os contratos legais que os sacerdotes assinavam com as famílias dos falecidos. “Pessoas mortas eram dinheiro. Era basicamente isto.”

Pela primeira vez, as evidências arqueológicas confirmam o que até agora se especulava com base em inscrições e documentos com milhares de anos. Estes avanços tornam a escavação de Sacará especial. Faz parte de uma mudança na egiptologia: os investigadores estão a analisar minuciosamente detalhes que iluminam a vida quotidiana dos egípcios, em vez de se concentrarem nos túmulos mais extravagantes da realeza.

“Ramadan Hussein está a obter muitas informações que estavam simplesmente perdidas no passado”, diz Raue, curador de Leipzig. “Havia toda uma infraestrutura acima do solo que foi simplesmente removida sem documentação.”

A paleorradiologista Sahar Saleem (entre dois técnicos) usa uma unidade móvel de raios-x para revelar os segredos escondidos dentro do invólucro do sacerdote mumificado Ayput. Apesar do nome Ayput ser masculino, o tamanho e a forma da pélvis da múmia, bem como o formato do seu crânio, sugerem que este sacerdote pode na realidade ter sido uma sacerdotisa.

Fotografia de Barney Rowe, National Geographic

Isto significa que o futuro pode reservar mais descobertas para os arqueólogos que tenham paciência suficiente para procurar. Hussein, enquanto examinava os relatórios de escavações antigas, percebeu que o poço que levava até à oficina de mumificação estava localizado a menos de um metro de onde os escavadores franceses e egípcios pararam de procurar em 1899. A câmara e os seus conteúdos estavam ocultos por areia que foi facilmente retirada.

“Talvez seja necessário regressar aos locais que foram explorados no século XIX e início do século XX”, diz Hussein, “e escavar novamente”.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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