Com os Hospitais Cheios de Pacientes com COVID-19, Kimberly Decidiu Dar à Luz em Casa

Estas fotografias íntimas capturam o parto emotivo de uma nova-iorquina em tempos de pandemia.

Wednesday, May 20, 2020,
Por Jaenique Hurlock
Fotografias Por Jackie Molloy
Exausta depois do trabalho de parto da sua filha Suzette, Kim Bonsignore repousa na piscina de ...

Exausta depois do trabalho de parto da sua filha Suzette, Kim Bonsignore repousa na piscina de parto. Em vez de ter a bebé no hospital, conforme planeado, o casal Bonsignore decidiu ter a sua segunda filha em casa devido à pandemia de coronavírus.

Fotografia de Jackie Molloy

Quando Kimberly Bonsignore, de 33 anos, soube em finais de março que o seu marido e a filha não se poderiam juntar a si durante o trabalho de parto no Hospital Universitário de Nova Iorque, começou a fazer planos para dar à luz em casa. Grávida do segundo filho, Kim não queria excluir da experiência o marido Al e a filha Sativa de dois anos.

“Eu queria que a minha filha também estivesse presente, porque quero que ela faça parte da experiência”, diz Bonsignore. “Eu não queria voltar para casa e dizer, ‘aqui está a tua irmã’, como se fosse um cãozinho ou algo assim.”

Depois de as redes hospitalares do Hospital Nova Iorque-Presbiteriano e Monte Sinai terem proibido todos os visitantes nas salas de parto, para impedir a propagação de COVID-19, as parteiras de toda a cidade começaram a receber vários telefonemas. Sem quererem dar à luz sem acompanhantes, muitas mulheres procuraram uma alternativa.

15:35
Bonsignore sente uma forte contração e é apoiada pela sua doula (assistente de parto), Angelique Clarke. A sua filha de dois anos, Sativa, correu para o pai, Al, e para a avó, Louise, quando a mãe começou a gritar de dor.

Desde então, o governador de Nova Iorque, Andrew Cuomo, emitiu uma ordem executiva que permite a presença de um acompanhante na sala de parto, desde que faça um rastreio para a COVID-19. No entanto, a perspetiva de dar à luz em hospitais repletos de pacientes com coronavírus aumentou a procura pelos partos em casa – uma prática que é relativamente incomum nos Estados Unidos, mas que se tem tornado cada vez mais popular nos últimos 16 anos. De acordo com o Centro Nacional de Informações de Biotecnologia, uma unidade dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA, em 2017, os partos domiciliares registaram mais de 62 mil nascimentos, 1.61% do total nos EUA nesse ano. As parteiras enfermeiras certificadas acompanham cerca de 10% de todos os nascimentos nos EUA, no hospital ou em casa, embora o seu papel no acompanhamento de cada paciente varie de estado para estado.

As mulheres procuram partos em casa com acompanhamento certificado – que pode incluir uma parteira ou uma doula – por várias razões: querem menos intervenções médicas, como analgésicos ou induções de parto; querem ter liberdade para controlar o seu ambiente de parto; sentem que uma parteira pode respeitar mais os seus valores religiosos; ou sentem-se insatisfeitas com o sistema hospitalar.

15:56
Angelique Clarke, doula, despeja água a ferver numa piscina preparada para o parto. Inicialmente, Clarke usou uma mangueira ligada à torneira, mas a água quente do casal Bonsignore acabou, por isso, aqueceu a água em panelas.

Preparação para o parto
Às 37 semanas de gravidez, Bonsignore contactou Angelique Clarke, a sua doula da primeira gravidez. Ao contrário das parteiras, as doulas geralmente não têm formação médica, mas oferecem apoio físico, mental e emocional à mãe. Clarke colocou Bonsignore em contacto com Cara Muhlhahn, uma Enfermeira Parteira Certificada de Nova Iorque. Em circunstâncias diferentes, Muhlhahn e Bonsignore teriam feito pelo menos 10 consultas pré-natais – desde o início da gravidez – para debaterem possíveis complicações.

Com duas consultas virtuais e uma visita ao domicílio, começaram a fazer os preparativos necessários para um parto em casa, preenchendo formulários médicos e solicitando o equipamento necessário. A preparação para um parto em casa requer, entre outras coisas, uma piscina de parto – que foi instalada na sala de estar dos Bonsignore.

17:58
Bonsignore entra na piscina de parto com a ajuda de Clarke, a sua doula, e da parteira Cara Muhlhahn, à direita.

As parteiras adotam geralmente uma abordagem diferente da dos hospitais. Em vez de assumirem a liderança e de dizerem à mulher quando é que deve fazer força, como um médico faria, as parteiras acreditam em deixar a mãe tomar a iniciativa.

“Quando fazemos partos em casa, gostamos de fazer algo que se chama ‘parto fisiológico’”, diz Muhlhahn. “Acreditamos que, em quase todos os casos, os nascimentos podem acontecer por si só, isto se apoiarmos a mulher, se a incentivarmos, e se fizermos o melhor possível para aliviar a dor. Nós fazemo-las saber que estamos ao seu lado e [ocasionalmente] damos-lhes orientações.”

Por volta do meio-dia de 29 de abril, Clarke enviou uma mensagem de texto a Muhlhahn informando-a de que as contrações de Bonsignore tinham começado. Muhlhahn levou o seu equipamento e seguiu de carro até ao bairro de Bonsignore, para aguardar até que as contrações se intensificassem.

18:12 
Al Bonsignore grava um vídeo da sua esposa, Kim, da parteira Cara Muhlhahn e da doula, Angelique Clarke (não aparece na fotografia), enquanto a filha Sativa brinca com os seus brinquedos na água.

ESQUERDA: 18:20
Kim Bonsignore sente uma contração dolorosa. O parto estava agendado para acontecer num hospital, mas Kim mudou de ideias devido ao surto de coronavírus.
DIREITA: 18:44
Sativa Bonsignore tapa os ouvidos enquanto a mãe entra em trabalho de parto. Os gritos de Kim perturbaram a criança de dois anos, mas Muhlhahn disse-lhe: “A mamã está a gritar porque dói, mas está tudo bem. É assim que se tem um bebé.”

“Eu não queria chegar a casa e dizer, ‘aqui está a tua irmã’, como se fosse um cãozinho ou algo assim.”

por AL BONSIGNORE

“Faço isto porque tenho receio que alguém me ligue tarde demais, quando as coisas avançam muito rapidamente”, diz Muhlhahn. “E enquanto aguardei no carro, do outro lado da rua, Angi esteve sempre em contacto comigo. Ela informou-me sobre os tempos das contrações e assumiu a liderança, um papel que as doulas podem desempenhar.”

Como estava em casa, Bonsignore podia movimentar-se livremente. Quando Clarke começou a encher a piscina de parto com uma mangueira ligada à torneira, Kim aproveitou para tomar banho. Mas depois do banho, a água quente acabou e Clarke teve de encher a piscina com água aquecida em panelas no fogão.

“Eu podia fazer o que queria”, recorda Bonsignore. “Entrei no chuveiro e o calor soube tão bem. E depois, quando saí, pude fazer o que queria, pude andar e sentar-me. Quando me senti cansada, fiquei com vontade de me deitar. E quando me deitei, Angi fez-me massagens. Ela estava a atingir os pontos de pressão... e dez minutos depois de me deitar, rebentaram-me as águas.”

Poucos minutos depois de as águas de Bonsignore rebentarem, às 17:27, Muhlhahn já estava à porta de sua casa com o equipamento.

18:18
Clarke e Muhlhahn verificam o progresso de Bonsignore durante o parto, enquanto Sativa, de dois anos de idade, continua a desfrutar do facto de ter uma piscina em casa.

“Quando estou com uma mulher em trabalho de parto, a primeira coisa que faço é sentar-me ao lado dela, cumprimentá-la de forma apropriada e fazê-la sentir-se confortável. Espero até que as contrações terminem e digo que estou ali. A primeira tarefa é [ouvir] os batimentos cardíacos do bebé”, diz Muhlhahn. “Ouvimos logo quando as águas rebentam e gostamos de saber a cor das águas. Angi disse que eram claras, um sinal de que o bebé estava em boas condições.”

Durante a hora que se seguiu, as contrações foram e vieram. Kim Bonsignore acabou por entrar na piscina de água quente para ajudar a aliviar as dores. Ela não se conseguia deitar de costas e apoiou-se com os braços na piscina. Muhlhahn verificou os batimentos cardíacos do bebé a cada 30 minutos. Às 18:32, Muhlhahn determinou que Kimberly estava completamente dilatada e que podia começar a fazer força.

“Penso que não foi muito complicado. Depois, quando falámos, chorei e fiquei muito emocionada. É mais traumatizante agora do que em tempo real.”

por KIM BONSIGNORE

Um momento de incerteza
“Ela disse para eu me limitar a ouvir o meu corpo. O que quer que eu sentisse, para o fazer”, diz Bonsignore. “Cara esteve sempre a dizer-me que eu tinha sido feita para aquilo. Disse que eu conseguia fazer aquilo. Mas eu achava que não ia conseguir. Foi muito doloroso. Foi a pior dor que alguma vez senti na vida. Mas foi muito rápido e não precisei de lidar com a dor durante muito tempo. E o encorajamento que ela me deu também ajudou. Ela orientou-me e dizia que eu estava quase lá. A criança estava mesmo ali. Eu não podia desistir. Estava mesmo quase.”

Quando Muhlhahn viu a cabeça do bebé, usou um dedo para verificar se o cordão umbilical estava enrolado à volta do seu pescoço – uma ocorrência comum que não prejudica o bebé enquanto está dentro do útero.

“Quando o cordão está enrolado no pescoço, algo que acontece aproximadamente 40% das vezes, não consideramos uma situação de alto risco, mas tentamos fazer algumas manobras para garantir que isso não impede o parto do resto do corpo”, diz Muhlhahn.

Fazer a gestão do cordão umbilical é uma tarefa crucial. “Depois de cortarmos o cordão, eliminamos outra linha vital que o bebé tem. O cordão protege o cérebro do bebé da falta de oxigénio”, explica Muhlhahn. Ela considerou três opções: levantar o cordão pelos ombros do bebé e sobre a cabeça; cortar e prender o cordão no útero; ou desenrolar o cordão à medida que o bebé nascia. Como o cordão não estava solto o suficiente para levantar sobre a cabeça do bebé, Muhlhahn decidiu a última opção.

Às 18:46, rodeada pela sua família na sala, Bonsignore deu o empurrão final. Mas não havia choro. O bebé não respondia. Muhlhahn retirou a sua máscara facial e começou a fazer manobras de reanimação cardiopulmonar e compressões torácicas com os polegares. A sala estava silenciosa, só se ouviam as respirações temporizadas de Muhlhahn e a música I Need a Miracle dos Grateful Dead a tocar silenciosamente ao fundo da sala.

ESQUERDA: 18:46
A parteira Cara Muhlhahn pega numa seringa para ajudar a limpar as vias respiratórias do recém-nascido. O bebé não deu sinais de vida no momento do parto. “Quando vi o cordão e a cor daquele bebé, sabia que tínhamos um problema”, diz Muhlhahn, que é parteira desde 1991 e há 23 anos que faz partos em casa – e raramente teve de reanimar um recém-nascido, mas está pronta para o fazer sempre que necessário.
DIREITA: 18:46
Muhlhahn faz respiração boca a boca à recém-nascida Suzette para expandir os seus pulmões. Assim que a bebé cuspiu muco, Muhlhahn sabia que iria ficar bem. “Lembro-me de não lhe querer dar um sinal de esperança até saber que isso era verdade”, diz Muhlhahn.

ESQUERDA: 18:48
Muhlhahn faz compressões torácicas em Suzette, depois de ter feito respiração boca a boca, enquanto os pais incentivam a recém-nascida. “Força, bebé. Vamos, Suzette”, disse Al Bonsignore. “Por favor, vamos lá, estás aí.”
DIREITA: 18:48
A bebé Suzette começa a chorar depois de ser reanimada. Kim Bonsignore diz que, naquele momento, não se apercebeu da gravidade da situação. “Todos os dias conversamos sobre isso, olhamos para ela e é uma menina saudável e bonita”, diz Kim. “É uma loucura pensar que podia ter sido tudo diferente.”

18:48
Muhlhahn entrega Suzette aos pais, depois de a ter reanimado. “Aquele choro, aquele grande choro, foi o som mais bonito depois de tudo isto”, diz Muhlhahn.

19:21
A recém-nascida Suzette Bonsignore olha para o pai. “É o papá”, disse Al à filha. “És tão perfeita, bebé.”

Momentos depois, Suzette Indica Bonsignore respirou pela primeira vez e começou a chorar. “Falem com ela”, disse Muhlhahn aos pais, entregando a bebé a Al. “A mamã e o papá estão aqui. Precisamos de ti aqui. Tens uma irmã que te quer conhecer”, disse o marido de Kim Bonsignore.

Às 19:00, minutos depois do parto, o som dos nova-iorquinos a aplaudirem os profissionais de saúde entrava pela janela – como se a cidade estivesse a dar as boas-vindas à bebé Suzette, diz Bonsignore. “Foi mesmo à hora certa, não podia ter sido melhor!”

Apesar do susto, o marido de Kim Bonsignore achou a experiência de parto “arrebatadora” – “É muito mais orgânico do que quando estamos num hospital.”

19:33
Muhlhahn pesa a recém-nascida Suzette, enquanto a mãe, os avós e a doula observam. Suzette pesava 3.8 quilos e media 51 centímetros.

Depois do parto, Muhlhahn auscultou o coração e os pulmões da bebé, deu-lhe injeções de vitamina K e pesou-a, enquanto a mãe e os avós observavam. Suzette pesava 3.8 quilos e media 51 centímetros. Com o trabalho árduo agora terminado, Muhlhahn agendou consultas de acompanhamento com Kim Bonsignore para verificar o estado da mãe e da bebé.

Kimberly Bonsignore disse que não se apercebeu da gravidade da situação, nem da importância crucial de ter um acompanhamento experiente numa situação de emergência. “Depois, quando falámos sobre isso, chorei e fiquei muito emocionada. É mais traumatizante agora do que em tempo real. Todos os dias conversamos sobre isso, olhamos para ela e é uma menina saudável e bonita. É uma loucura pensar que podia ter sido tudo diferente.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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