Estádios Desportivos Convertidos Para Ajudar na Luta Contra a Pandemia

Campos que estavam vazios foram rapidamente convertidos em centros de testes, hospitais de campanha e morgues.

quarta-feira, 13 de maio de 2020,
Por Tisha Thompson
O Estádio do Pacaembu, em São Paulo, no Brasil, foi convertido em hospital de campanha para ...

O Estádio do Pacaembu, em São Paulo, no Brasil, foi convertido em hospital de campanha para lidar com a crise de COVID-19.

Fotografia de Andre Chaco, Fotoarena/Sipa USA/AP

Este artigo foi publicado em parceria com a ESPN. Leia-o também no website da ESPN.
 

Ainda há pouco tempo fazíamos filas às portas dos estádios, ansiosos e entusiasmados, vestidos com as cores dos nossos clubes e prontos para entrar. Se sentíssemos algum tipo de ansiedade, era uma coisa saudável, porque é essa energia que dá vida ao desporto. E na realidade soubemos sempre no fundo dos nossos corações que os riscos não eram de vida ou morte.

Agora essa ansiedade é diferente. Muitos dos estádios e campos desportivos de todo o mundo foram convertidos para outros fins. São hospitais de campanha ou locais de testes para o coronavírus. Uns servem de lar para os sem-abrigo, outros são usados para servir bens alimentares, e alguns foram convertidos em morgues.

Mas as suas fachadas de betão, as bancadas, os soalhos de madeira e os relvados verdejantes servem para nos lembrar não só do que tínhamos, mas também do que nos espera quando ultrapassarmos esta pandemia.

Estes são os nossos campos de jogos.

ESTÁDIO HARD ROCK, FLÓRIDA – Carros na fila para os testes ‘drive-thru’ no parque de estacionamento do estádio dos Miami Dolphins.

Fotografia de Wilfredo Lee, AP

América do Norte
Pela primeira vez na história da América do Norte, foi declarado simultaneamente um estado de emergência em todas as províncias canadianas, em todos os 50 estados dos EUA, no Distrito de Colúmbia e em quase todos os territórios dos EUA. Os governadores norte-americanos mobilizaram unidades da Guarda Nacional para converterem casas de campo, estádios, arenas e parques de estacionamento. Isto inclui 10 estádios da NFL, para além de autódromos e mais de três dezenas de instalações que normalmente são usadas para a prática de basquetebol, hóquei, beisebol e ténis, incluindo o estádio onde se realiza o US Open. Todas estas instalações servem agora novos propósitos, porque nos EUA o número de mortes ultrapassou os 50 mil em abril.

Donita Adams, Sargento da Guarda Nacional de Maryland, caminha entre as tendas do Exército que cercam o FedEx Field.

ARENA SLEEP TRAIN, CALIFÓRNIA – Funcionários transformam o campo dos Sacramento Kings num hospital de campanha com 400 camas.

Fotografia de Rich Pedroncelli, AP

“É surreal”, diz Donita. “O FedEx Field é algo de importante para nós, é onde jogam os Redskins... E agora esta atmosfera é completamente diferente. Em vez de estarmos contentes a celebrar, estamos preocupados e cautelosos.”

Tal como acontece com todos os seus soldados compatriotas, Donita Adams também teve as suas razões para se voluntariar na Guarda Nacional. Depois de uma carreira de sucesso a jogar basquetebol na Faculdade Estadual de Glenville, na Virgínia Ocidental, Donita sonhava jogar na WNBA. Mas não conseguiu entrar nas últimas escolhas dos Los Angeles Sparks. “Aquilo doeu. Eu tinha de me recompor e seguir por outro caminho. E assim fiz.”

Na Guarda Nacional, Donita encontrou uma forma de ser treinadora de basquetebol na vida civil e uma atleta de destaque no corpo militar. Donita faz parte da equipa feminina do Exército dos EUA que já ganhou medalhas de ouro contra equipas de outros ramos militares e, em outubro do ano passado, foi uma das 12 jogadoras escolhidas para representar a América nos Jogos Militares Mundiais em Wuhan, na China. Semanas depois de a equipa ter conseguido ganhar a medalha de bronze, surgiram notícias da existência de um novo vírus.

Agora, em vez de se preparar para próxima época, Donita está entre os membros da Guarda Nacional que trabalham num local de testes de coronavírus nos arredores do Fedex Field, onde já foram examinadas mais de 800 pessoas em três semanas. “Daqui a um mês, eu devia estar no campo de treinos [de basquetebol]”, diz ela. “Mas, ao mesmo tempo, compreendemos que isto é maior do que nós. Estamos a sacrificar tudo para garantir que estão todos bem.” – Tisha Thompson

ESTÁDIO MARACANÁ, PANAMÁ – Voluntários carregam sacos de comida para distribuir pelas famílias afetadas pelo coronavírus na Cidade do Panamá.

Fotografia de Luis Acosta, AFP/Getty

América do Sul
Atualmente, o relvado do Estádio do Pacaembu, em São Paulo, a cidade mais populosa do Brasil, está coberto por enormes tendas brancas, onde um hospital de campanha abriga pacientes com COVID-19. Os médicos na América Central e do Sul estão a começar a observar um salto nas doenças relacionadas, como a pneumonia. “A quantidade de testes para o coronavírus é mínima”, diz Kelly Henning, médica e epidemiologista do programa de saúde pública da Bloomberg Philanthropies. “Há uma enorme preocupação de que este surto esteja silenciosamente a ganhar terreno.” As autoridades começaram a converter as instalações desportivas, incluindo a arena de touradas mais antiga das Américas, em preparação para uma segunda vaga de infeções.

O Estádio do Pacaembu está entre os palcos mais emblemáticos do futebol brasileiro. Durante o Mundial de Futebol de 1950 recebeu seis partidas da prova. O incontornável Pelé marcou aqui 127 golos. Mas em apenas 11 dias, os trabalhadores transformaram o estádio num hospital com 200 camas.

“Quando vi a imagem do relvado invadido por tendas brancas, foi difícil”, diz Edson Tadeu da Silva, locutor do estádio durante a última década. “O estádio é um lugar de diversão. De repente, transforma-se num lugar de dor, de morte.”

COLISEU CARLOS MAURO HOYOS, COLÔMBIA – Durante o período de quarentena nacional, os sem-abrigo ficam no pavilhão multiusos de Medellin.

Fotografia de Fredy Builes, VIEWpress/Getty

Este estádio tem 80 anos e fica em São Paulo, uma metrópole com mais de 12 milhões de habitantes e o epicentro da crise de coronavírus no Brasil. Temendo o colapso dos hospitais, as autoridades procuraram locais alternativos para os cuidados de emergência e optaram pela localização central do estádio. O seu relvado abriga agora 10 enfermarias e 200 camas – metade já estão ocupadas.

Entre os 250 trabalhadores da construção civil estava Flávio Alves da Silva, de 46 anos, que queria ser jogador profissional de futebol e jogar no Pacaembu. Com esta situação, Flávio finalmente conseguiu: “Sinto-me como um herói, como um vencedor.” – Rafael Valente e Paulo Cobos

PISTA DE GELO LA NEVERA, ESPANHA – Esta imagem fornecida pela Comunidade de Madrid mostra como a cidade converteu a sua pista de gelo em morgue temporária.

Fotografia de Comunidad de Madrid, Getty

Europa
Num dos continentes mais atingidos pela COVID-19, os hospitais de campanha estão agora nos relvados que normalmente são ocupados pelos jogadores de futebol da Premier League e da Bundesliga, e nos campos de basquetebol e de rugby, como o Estádio do Principado do País de Gales. Nos ringues de patinagem, existem morgues de emergência para abrigar os corpos das mais de 100 mil pessoas que faleceram.

Lee Marchant é um adepto fanático do Southampton FC, cujo trabalho consiste habitualmente em arranjar espaços temporários para os principais eventos desportivos no Reino Unido. Com a chegada do coronavírus, Lee trabalhou na manutenção do telhado térmico de uma morgue temporária no leste de Londres.

“Quando vemos isto com os nossos olhos... há andaimes prontos para guardar caixões”, diz Lee Marchant, de 37 anos. “É uma coisa séria. Acho que as pessoas não têm noção da gravidade da situação.”

GINÁSIO DE BOXE DE MOSCOVO, RÚSSIA – Voluntários separam máscaras faciais e desinfetantes que vão ser distribuídos pelas crianças e idosos de Moscovo.

Fotografia de Mikhail Svetlov, Getty

Agora, Lee está a trabalhar num hospital de campanha no Estádio do Principado em Cardiff, no País de Gales, um estádio que tem 74 500 lugares. O hospital temporário Dragon's Heart tem camas espalhadas pelo vasto relvado do estádio.

Lee Marchant ajudou a colocar 14 mil metros quadrados de piso de madeira. Nos níveis superiores, os pacientes já estão a iniciar a sua recuperação nos camarotes executivos que foram convertidos.

Lee diz que estava nervoso quando aceitou este emprego. O seu tio está nos cuidados intensivos com COVID-19 e ele tem um filho de 18 meses, Theo, que está em Southampton.

“O que me levou a fazer este trabalho foi perceber que estava a ajudar, caso contrário, tinha ficado longe disto”, diz Lee “É um risco enorme... mas estamos a fazer a nossa parte. Isto tem de ser feito. Eu tenho a documentação e um dia mais tarde posso dizer ao meu filho como me senti orgulhoso por ter trabalhado nisto.” – Tom Hamilton

ESTÁDIO SANI ABACHA, NIGÉRIA – Um técnico mede a distância entre as camas num centro de isolamento de COVID-19 dentro do estádio.

Fotografia de Aminu Abubakar, AFP/Getty

África
Tal como a América do Sul, o continente africano ainda não enfrentou os efeitos totais do novo coronavírus. Amanda McClelland, especialista em saúde pública da organização sem fins lucrativos Resolve to Save Lives, diz que isto se deve, em parte, às lições aprendidas com o vírus ébola. “Vimos uma inovação realmente grande na resposta de África devido à sua experiência”, diz McClelland. Por exemplo, quando as autoridades ganesas foram informadas sobre o coronavírus, ordenaram a quarentena de 750 viajantes estrangeiros que tinham acabado de chegar ao país. Mais de 100 acusaram positivo para a COVID-19. O grupo de McClelland constrói instalações de tratamento de emergência e ajuda os governos africanos a planear surtos como este há 16 anos. “Colocar os centros de tratamento COVID numa arena desportiva é um cenário de último recurso. Muitos países africanos já têm unidades de tratamento contra o ébola.” Em vez disso, os estádios e campos de futebol estão a ser utilizados para as pessoas de maior risco, como o Estádio Caledonian, na África do Sul.

A família de Lucky Manna fundou o Arcadia Shepherds FC, o primeiro clube de futebol profissional da África do Sul, em 1903. “Fomos o primeiro clube a desafiar o governo e a jogar com negros na equipa”, diz Manna, proprietário e diretor-geral da equipa. Quando a pandemia surgiu, a equipa estava em conversações com as autoridades locais para transformar o Estádio Caledonian, na capital Pretória, “num estádio de futebol de topo”.

Em vez disso, foi convertido num lar para os sem-abrigo durante o confinamento que está a ser feito a nível nacional. “Tínhamos mais de 2 mil pessoas lá acampadas com pouco saneamento ou água. Isso criou um enorme problema”, diz Manna. Não havia comida suficiente e as tendas não eram adequadas para a chuva, levando muitas pessoas a amontoarem-se nas bancadas.

Manna diz que alguém roubou as balizas para vender o metal e que as instalações foram destruídas. As autoridades governamentais, que não responderam aos pedidos da ESPN para comentar, acabaram por retirar grande parte das pessoas do estádio. Cerca de 500 foram para o Estádio de Rugby West Pretoria. “Eu levo comida a cada três dias, mais ou menos, para as pessoas que ficaram lá”, diz Manna. “Há cerca de 11 que ainda vivem ilegalmente no clube, mas não podemos fazer nada.” –Tisha Thompson

WUHAN, CHINA – Um estádio desportivo convertido temporariamente em hospital para pacientes de COVID-19.

Fotografia de STR/AFP/Getty


Ásia e Austrália

SPORTS HALL, IRÃO – Um oficial de saúde num hospital de campanha criado pelos militares em Tabriz para 200 pacientes com coronavírus.

Fotografia de Anadolu Agency/Getty

As medidas rigorosas de distanciamento social e o cumprimento das ordens de confinamento ajudaram a Austrália e outras nações do Pacífico a evitar a saturação das unidades de saúde e mortes por coronavírus. Na Austrália, os estádios desportivos estão a ser usados como centros de comando da polícia e para distribuir alimentos aos mais necessitados. A situação é muito mais grave na Ásia. O vírus já ceifou inúmeras vidas em países como a Índia, o Irão, a Turquia e no Médio Oriente. A utilização de instalações desportivas como centros de resposta à COVID-19 começou na China – depois de os primeiros casos confirmados terem aparecido em janeiro em Wuhan. Desde então, o vírus propagou-se em mais de 210 países e infetou mais de 4 milhões de pessoas, segundo dados da Organização Mundial de Saúde.

Não era assim que Peter Wright imaginava o Estádio Metricon, na Austrália, numa tarde de sexta-feira no outono.

Este jogador australiano de rugby, um jogador com mais de 2 metros de altura, costumava chegar ao estádio dos Gold Coast Suns pronto para treinar. Mas, como aconteceu com quase todas as outras ligas do mundo, a Liga Australiana também foi interrompida e o Metricon funciona agora como um centro de distribuição de alimentos.

YOKOHAMA JUDO SPORT HALL, JAPÃO – Joji Hatakeyama, com 29 anos, chega a um abrigo temporário que foi projetado para as pessoas que não podem pagar a renda e que dormiam nos cibercafés da Prefeitura de Kanagawa.

Fotografia de Carl Court, Getty

Peter Wright, juntamente com os seus colegas de equipa Touk Miller e Lachie Weller, voluntariaram-se para entregar refeições às pessoas que estão em confinamento devido à COVID-19. Wright e Miller uniram-se para entregar refeições aos membros mais velhos do clube.

“Nós vamos de carro do estádio até às suas casas e deixamos as refeições à porta. E temos conversas divertidas com eles sobre o que têm feito durante o isolamento”, diz Wright. “Vivemos num mundo bastante diferente do que era há dois meses atrás... mas acho que temos de nos adaptar e tentar encontrar o melhor em cada situação.” – Matt Walsh

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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