Naufrágio de Navio “Inafundável” Encontrado no Pacífico

O navio U.S.S. Nevada sobreviveu a Pearl Harbor, à Normandia, a Okinawa e a dois testes nucleares – mas a recente descoberta dos seus destroços levanta novas questões sobre o que realmente o afundou.

quinta-feira, 21 de maio de 2020,
Por Kristin Romey
O U.S.S. Nevada, aqui fotografado numa viagem de teste em 1916, participou em ambos os teatros ...

O U.S.S. Nevada, aqui fotografado numa viagem de teste em 1916, participou em ambos os teatros de guerra do Atlântico e do Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial.

Fotografia de George Grantham Bain Collection, Library of Congress

Apesar da dureza das guerras mundiais, o navio U.S.S. Nevada era uma embarcação resiliente: foi o único navio de guerra a ser enviado durante o ataque a Pearl Harbor, no dia 7 de dezembro de 1941, e sobreviveu às bombas e aos torpedos antes de se incendiar, encalhar e ser posteriormente reparado. Este navio usou as suas armas contra posições alemãs na Normandia, no Dia D, e continuou a apoiar as invasões de Okinawa e de Iwo Jima. No fim da guerra, o U.S.S. Nevada foi selecionado para alvo central do primeiro teste nuclear no Atol de Bikini, onde sobreviveu a uma detonação aérea de 23 quilotoneladas (a bomba falhou), bem como a uma segunda detonação subaquática. Finalmente, no dia 31 de julho de 1948, depois de um exercício armado de quatro dias, o navio mais resiliente da Segunda Guerra Mundial foi deliberadamente afundado pela Marinha dos EUA no Pacífico.

Agora, graças aos estudos de arquivo e às investigações subaquáticas feitas ao longo de 260 km quadrados, os destroços do Nevada foram localizados a 65 milhas náuticas a sudoeste de Pearl Harbor. O anúncio foi feito no dia 11 de maio através de um comunicado de imprensa. A descoberta resulta da colaboração entre a empresa de gestão de recursos culturais SEARCH Inc. e a empresa de robótica marinha Ocean Infinity.

Os destroços do Nevada estão localizados a uma profundidade de mais de 4.670 metros no fundo do Oceano Pacífico. A investigação inicial dos destroços indica que o navio de guerra se afundou invertido numa planície lamacenta, com um campo de destroços que se estende ao longo de 600 metros a partir do casco. A proa e a popa do navio não foram encontradas.

“É formidável que o tenham encontrado”, diz Richard Ramsey, que serviu como assistente de contramestre no Nevada na Normandia, em Okinawa e em Iwo Jima.

Esta missão recente, numa era de coronavírus, começou com uma chamada telefónica casual no mês passado entre a SEARCH Inc., que possui uma enorme divisão de arqueologia marinha, e a Ocean Infinity, que tinha uma embarcação repleta de equipamentos de investigação marítima na área onde se acreditava que o Nevada tinha naufragado.

“Eu pensei que, se houvesse um navio para descobrir neste momento que pudesse simbolizar algo sobre a natureza humana e sobretudo sobre os americanos, seria o Nevada – teimoso, resiliente”, diz James Delgado, vice-presidente da SEARCH Inc. e arqueólogo marítimo encarregado da missão.

Um navio antigo e grandioso

Um veículo autónomo subaquático (AUV) é lançado de um navio da Ocean Infinity. O AUV foi usado para perscrutar 260 km quadrados no Oceano Pacífico, para localizar o U.S.S. Nevada.

Fotografia de Ocean Infinity

Foram necessários quatro dias e meio para afundar o U.S.S. Nevada. O navio de guerra de 175 metros de comprimento, pintado de laranja brilhante devido ao papel que desempenhou enquanto alvo de testes nucleares, foi rebocado de Pearl Harbor para o mar, onde um explosivo foi detonado no seu casco. Depois, foi atingido por projéteis lançados de cruzadores e bombardeado por aviões durante um exercício naval de vários dias. Finalmente, no dia 31 de julho de 1948, um torpedo lançado por um avião americano fez alegadamente o que os alemães e os japoneses não conseguiram fazer: enviar o Nevada para o fundo do mar.

Mas, apesar de todas as pessoas que testemunharam o naufrágio do Nevada (“Era um navio antigo e grandioso”, disse o comandante da Frota do Pacífico a um repórter da Associated Press quando o navio foi afundado), só as coordenadas relativas do local dos destroços foram relatadas pelos navegadores dos navios ali presentes. Isto obrigou os operadores a bordo do navio Pacific Constructor da Ocean Infinity a usar um veículo autónomo subaquático (AUV) para inspecionar uma área de 260 km quadrados no fundo do mar, que incluía todas as coordenadas fornecidas pelas testemunhas oculares do naufrágio do Nevada. Quando os destroços foram localizados, um veículo operado remotamente (ROV) ligado à embarcação começou a enviar imagens em tempo real para os escritórios da SEARCH Inc., na Flórida, onde estão atualmente a ser revistas por arqueólogos.

Com base numa inspeção preliminar das imagens, Delgado acredita que há evidências de que um segundo torpedo pode ter afundado o Nevada. “Encontrámos uma secção inteira do casco aberta, expondo a couraça de proteção, mas com a parte externa apenas rasgada e curvada.” Delgado estava maravilhado com as chapas de 35 centímetros de aço níquel crómio da armadura do navio –  que ainda brilhavam à luz do ROV.

“Não deviam ter afundado aquele navio”, disse Ramsey no dia em que soube que os destroços do Nevada tinham sido encontrados, sublinhando que aquele foi o único navio de guerra presente tanto em Pearl Harbor como na Normandia. “Na minha opinião, devia estar atracado ao lado do Missouri”, acrescenta Ramsey, referindo-se ao navio de guerra – agora monumento – onde a rendição do Japão foi assinada. Ramsey diz que o Nevada nem sequer foi convidado para participar na cerimónia de rendição.

“Sentimos que aquilo era realmente um insulto para o navio. Podíamos ter assinado a rendição a bordo.”
 

As análises aos destroços do U.S.S. Nevada continuam a decorrer.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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