A Mãe de George Floyd Não Estava no Local, Mas Ele Usou-a Como Uma Invocação Sagrada

Durante os seus últimos suspiros, Floyd chamou pela mãe para recordar a sua memória.

Thursday, June 4, 2020,
Por Lonnae O’Neal
Flores, cartazes e balões que foram colocados perto de um memorial improvisado para George Floyd, no ...

Flores, cartazes e balões que foram colocados perto de um memorial improvisado para George Floyd, no local onde Floyd foi assassinado enquanto estava sob custódia da polícia de Minneapolis no dia 25 de maio.

Fotografia de Kerem Yucel, AFP/Getty


Este artigo foi produzido em parceria com o The Undefeated, um site da ESPN que explora a interseção entre a raça, a cultura e o desporto. Este relatório também está publicado em TheUndefeated.com. A ESPN e a National Geographic são propriedade da The Walt Disney Company.

 

O vídeo de George Floyd no Facebook, algemado de barriga para baixo enquanto um polícia de Minneapolis faz pressão com o joelho no seu pescoço, parece redutor.

Floyd está imobilizado, a gemer no chão enquanto os carros passam, os rádios da polícia emitem os seus sons e os transeuntes começam a reunir-se no local. As pessoas gritam que o nariz de Floyd está a sangrar, que ele está a ser subjugado, e suplicam aos agentes. “Deixem-no respirar!”, gritou uma das pessoas.

“Por favor!”, implora Floyd enquanto sofre. Os seus pedidos de ajuda misturam-se com os sons de fundo do ambiente. São os sons desarticulados do choque entre crenças e visões concorrentes de soberania, de propriedade e de autoridade – invocando a imagem dos corpos de inúmeros negros nos últimos momentos de vida de Floyd.

“Mamã!”, diz Floyd, de 46 anos. “Mamã! Estou a ir”, diz o homem moribundo, e eu reconheço estas palavras. Quando chamamos pelas nossas mães é como se estivéssemos a fazer uma prece para sermos reconhecidos. A mãe de Floyd morreu há dois anos, mas ele usou-a como uma invocação sagrada.

“Ele é um ser humano!”, diz um apelo angustiado de alguém numa tentativa desesperada para apelar à razão ou ao juramento que os polícias fizeram para exercer a sua profissão. Mas naquele momento, os agentes estavam para além do alcance da humanidade. Não de Floyd, mas sim deles próprios.

Eu não queria clicar no vídeo. Não queria ver outro vídeo de violência policial. Eu não queria ver o que pode levar alguém a colocar o joelho no pescoço de um homem até que ele não consiga mais respirar. Mas ouvi dizer que este homem negro tinha chamado pela sua mãe quando estava a morrer, e eu também sou uma mãe negra. Uma mãe que, desde que há memória, tem de responder a esta invocação sagrada. Uma mãe que tem de responder à invocação da irmandade divina das mães negras. Mesmo quando não se trata dos nossos filhos, somos chamadas para testemunhar estes acontecimentos.

Eu estava na sala de parto com o meu filho, estava com dores porque não tinha sido medicada, exceto o que tomei para aumentar as contrações. À medida que a minha visão se estreitava, concentrei-me num ponto e ouvi as enfermeiras a falarem sobre mim como se eu não estivesse ali. Olhei para o teto e chamei repetidamente pela minha mãe. Há momentos em que a vida parece presa por um fio e, nesses momentos, queremos regressar ao início, regressar aos tempos em que éramos reconhecidos.

De acordo com os relatórios do campo de batalha da Guerra Civil, os soldados moribundos chamavam pelas suas mães. No ano passado, um artigo publicado no The Atlantic citava uma enfermeira de cuidados paliativos. “Quase todas as pessoas chamam pelas mães durante os seus últimos suspiros.”

As mães são o mastro. As âncoras. São um caminho para que aqueles que estão perto do limite consigam encontrar o caminho de regresso, ou o caminho para casa. Isto também se aplica às mães negras, que são particularmente testadas em todos os piores destinos dos corpos dos negros. Nós somos a proteção contra as pessoas que não nos reconhecem. Somos uma afirmação da vida negra.

Para os negros que sentem que estão prestes a sucumbir, somos uma garantia de memória, de justiça, de 10 horas de espera para votar nas urnas. Não seremos demovidas.

Muitas vezes penso em Emmett Till, de 14 anos, a chamar pela sua mãe, Mamie Till-Mobley, quando ele foi raptado, torturado e morto por causa do falso testemunho de Carolyn Bryant Donham, a quem os EUA tinham incutido a ideia selvagem da mulher branca. A resposta da mãe negra foi abrir o caixão do filho para mudar a nação.

É um dever das mães negras santificadas por todas as Karens (Beckys, Katies, etc.), que ameaçam chamar a polícia para tratar dos negros, porque elas sabem como é que este país funciona. Esta santificação resulta de todas as advertências e orações – todos os acordos colaterais que tentamos fazer com o nosso Deus quando um menino negro atravessa a rua, brinca nos parques, entra num carro ou se torna num homem adulto que não pode fazer nada por ser negro.

É algo que se torna sagrado pela nossa necessidade de proteção contra todas as pessoas que pensam ter o domínio sobre a vida dos negros. Pessoas que policiam a mais ou financiam a menos, pessoas que denunciam por tudo e por nada, ou pessoas que abanam as mãos nas nossas caras. São o pai e o filho de olhos vazios e de armas na mão na Geórgia, é a gerente de portfólios que usa o seu telemóvel em Nova Iorque, é o agente réptil que aprendeu a ajoelhar-se sobre um homem até à morte no Minnesota – eles podem não conseguir ver-se a si próprios. Mas nós, as mães negras, nós conseguimos vê-los.

Enquanto as pessoas gritam para os polícias de Minneapolis – “Ele está a morrer. Vocês estão a matá-lo!” – Floyd já não se mexe, talvez já esteja morto. Na forma como os negros aprenderam a encarar estas coisas, nos seus últimos suspiros, Floyd já venceu.

Chamar pela mãe é ser reconhecido pelo seu criador. É ser reconhecido por quem o ofereceu a ela. Eu vi o vídeo por nós, pelos vivos. É o meu dever sagrado. Sou uma mãe negra.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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