Complexo Cerimonial Enorme Com 3.000 Anos Descoberto ‘À Vista de Todos’

Esta enorme plataforma com uma pirâmide no topo, que passou despercebida até ter sido detetada com a ajuda de lasers, é a maior e mais antiga estrutura na região Maia.

Friday, June 5, 2020,
Por Tim Vernimmen
Uma imagem 3D da plataforma monumental em Aguada Fénix (destacada a castanho). Esta estrutura, construída há ...

Uma imagem 3D da plataforma monumental em Aguada Fénix (destacada a castanho). Esta estrutura, construída há cerca de 3 mil anos, foi detetada por uma ferramenta laser aérea chamada LiDAR.

Fotografia de Takeshi Inomata

Uma enorme plataforma de terra com 3 mil anos de idade, com uma série de estruturas no topo, incluindo uma pirâmide de 4 metros de altura, foi identificada como sendo a maior e mais antiga construção monumental alguma vez descoberta na região Maia – de acordo com um artigo publicado no dia 3 de junho na Nature. Esta descoberta vem suportar a teoria emergente de que algumas das estruturas mais antigas da região Maia eram significativamente maiores do que as construídas mais de um milénio depois, durante o período Maia clássico (250-900 d.C.), quando este império estava no seu auge.

A descoberta foi feita no estado mexicano de Tabasco, em Aguada Fénix, a cerca de 1.370 km a leste da Cidade do México. A estrutura fica numa região conhecida por planície Maia, de onde esta civilização começou a emergir.

Em 2017, os investigadores fizeram uma pesquisa com a tecnologia LiDAR e detetaram a plataforma e pelo menos nove vias de passagem ligadas à mesma. Esta tecnologia a laser inovadora é normalmente utilizada em aviões para “ver” estruturas debaixo das densas copas das árvores, mas neste caso resultou numa descoberta impressionante que permaneceu escondida à vista de todos durante séculos, ou até milénios, nas terras agrícolas arborizadas de Tabasco.

Esta imagem aérea de Aguada Fénix, sem a tecnologia LiDAR, mostra como o monumento “se esconde” em terras agrícolas arborizadas.

Fotografia de Takeshi Inomata

Como é que um monumento tão grande em Aguada Fénix não foi identificado anteriormente?

“É difícil de explicar, mas quando entramos no local, não nos apercebemos da enormidade da estrutura”, diz o arqueólogo Takeshi Inomata, da Universidade do Arizona e autor principal do artigo. “Tem mais de 9 metros de altura, mas as dimensões horizontais são tão vastas que não temos noção da elevação.”

“Rituais que só podemos imaginar”
Tendo por base a datação feita por radiocarbono ao carvão encontrado dentro do complexo, acredita-se que a construção inicial da plataforma tenha começado por volta de 1000 a.C.

No entanto, a ausência de edifícios anteriores conhecidos em Aguada Fénix sugere que, pelo menos até àquele período, as pessoas que viviam na região – provavelmente os precursores dos Maias clássicos – se deslocavam entre campos temporários para caçar e coletar alimentos. Isto faz com que os investigadores se interroguem sobre as razões pelas quais estas pessoas decidiram de repente construir uma estrutura tão maciça e permanente.

Inomata estima que o volume total da plataforma e dos edifícios no topo seja de pelo menos 130 milhões de pés cúbicos, o que significa que, em termos de tamanho, supera a maior das pirâmides egípcias. O arqueólogo também calcula que seriam necessárias 5 mil pessoas ao longo de mais de 6 anos de trabalho a tempo inteiro para construir toda a estrutura.

“Acreditamos que era um centro cerimonial”, diz Inomata. “Era um local de reunião, possivelmente envolvendo procissões e outros rituais que só podemos imaginar.”

Não foram encontrados edifícios residenciais na estrutura e nas proximidades; não se sabe quantas pessoas podem ter vivido nas redondezas. Mas o tamanho enorme da plataforma leva Inomata a pensar que os construtores de Aguada Fénix estavam gradualmente a abandonar o seu estilo de vida de caçadores-coletores, provavelmente auxiliados pelo cultivo de milho – estas evidências também foram encontradas no local.

“A dimensão em si é impressionante”, diz Jon Lohse, arqueólogo da Terracon Consultants Inc. que não participou no artigo mas estuda os primórdios da história da região. Porém, Lohse não acredita que a estrutura em si seja uma evidência de um estilo de vida sedentário. “Não é invulgar encontrarmos construções monumentais feitas por pessoas pré-sedentárias a nível global.”

Lohse acrescenta que a estrutura revela inequivocamente uma capacidade avançada de cooperação entre as pessoas, provavelmente da forma extremamente igualitária que se acredita ser típica das sociedades primitivas da região Maia. Inomata concorda e acredita que a plataforma foi construída por uma comunidade que não tinha uma forte hierarquia social.

E refere como evidência provável um local cerimonial ainda mais antigo em San Lorenzo, a 385 km a oeste, numa região que foi povoada naquele tempo pelos Olmecas. Construído pelo menos 400 anos antes de Aguada Fénix, San Lorenzo apresenta uma colina artificial com terraços que podem ter servido uma função semelhante. Mas também tem estátuas humanas colossais que podem indicar que algumas das pessoas tinham um estatuto mais elevado na sociedade do que outras.

É provável que as pessoas que construíram Aguada Fénix tenham sido inspiradas por San Lorenzo, mas a arqueóloga Ann Cyphers, da Universidade Nacional Autónoma do México, que trabalhou em San Lorenzo, considera os locais “bastante distintos”, acrescentando que a cerâmica encontrada em San Lorenzo também é muito diferente da encontrada em Aguada Fénix.

Um padrão quadriculado de solo colorido
Portanto, qual pode ter sido o objetivo de um projeto comunitário de construção tão grande? A coautora do estudo, Verónica Vázquez López, da Universidade de Calgary, acredita que pode ter sido uma declaração de intenções: uma colaboração formal projetada para reunir diferentes grupos de pessoas ao longo de várias gerações.

Algumas das características presentes em Aguada Fénix podem sugerir o que levou a esta colaboração, como um depósito de machados preciosos de jade que podem ter simbolizado o fim do projeto de construção colaborativo. Os arqueólogos também observaram que algumas das camadas de solo usadas para construir a plataforma foram colocadas com um padrão quadriculado de cores diferentes, algo que pode ter simbolizado a contribuição de diferentes grupos.

“Atualmente, as pessoas que vivem em diferentes bairros de algumas cidades mexicanas limpam a sua parte da praça central da igreja”, diz Vázquez López.

Em 750 a.C., a estrutura monumental de Aguada Fénix foi abandonada e, no período Maia clássico, mais de mil anos depois, as pessoas na região estavam a construir pirâmides ainda mais altas, em cima de plataformas muito menores, que estavam acessíveis apenas à elite, e que tinham menos espaço para as grandes comunidades se reunirem.

“No período inicial, as pessoas estavam muito entusiasmadas”, diz Inomata. “Mais tarde, começaram a perder esse entusiasmo.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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