Exclusivo: Reconstruído Crânio Encontrado em Sítio de Rituais Impressionante

Há cerca de 8 mil anos, este homem escandinavo teve uma vida longa, antes de o seu crânio ter sido selecionado para uma cerimónia indescritível.

Friday, June 26, 2020,
Por Kristin Romey
O crânio parcial utilizado para reconstruir o rosto deste homem foi encontrado juntamente com outros crânios ...

O crânio parcial utilizado para reconstruir o rosto deste homem foi encontrado juntamente com outros crânios humanos – e ossos de maxilares de animais – que foram depositados num lago na Suécia por volta do ano 6000 a.C. O artista que fez esta reconstrução decidiu colocar uma capa de pele de javali – um dos animais também encontrados no lago – sobre os ombros do homem.

Fotografia de Oscar Nilsson

Este homem, algures na casa dos 50 anos, é fisicamente imponente e tem uma barba grisalha. O seu peito está coberto de giz e os olhos azuis pálidos estão semicerrados, como se estivesse a tentar observar algo à distância. Apelidado de “Ludvig”, este individuo viveu no norte da Europa há cerca de 8 mil anos.

É pena que o Ludvig não possa falar, porque os investigadores têm muitas perguntas para lhe fazer.


Esta é a primeira reconstrução facial feita a partir de restos humanos escavados há cerca de uma década na região centro-sul da Suécia, em Kanaljorden, um sítio arqueológico curioso onde, por volta do ano 6000 a.C., ossos de animais e de humanos foram deliberadamente dispostos numa plataforma de pedra e submersos no centro de um pequeno lago. Kanaljorden apareceu nas notícias de todo o mundo em 2018, quando os investigadores publicaram um relatório sobre a escavação, e onde diziam que a madeira preservada dentro de dois crânios indicava que pelo menos alguns dos crânios tinham sido montados em estacas. Era algo completamente diferente de tudo o que os cientistas tinham visto anteriormente.

“É um sítio muito fascinante para se trabalhar, e é bastante complexo”, diz Fredrik Hallgren, diretor do projeto de Kanaljorden da Fundação de Património Cultural da Suécia.

A reconstrução facial foi encomendada pelo museu Charlottenborgs Slott, que fica na cidade vizinha de Motala, onde a reconstrução será exibida. O museu está numa mansão do século XVII, construída pelo conde Ludvig Wierich Lewenhaup – o homónimo do antigo Ludvig.

Hannah Graffman, chefe do departamento de cultura e lazer da cidade de Motala, diz que a reconstrução vai dar às pessoas da cidade a oportunidade de verem como era um dos seus primeiros habitantes. O apelido dele, admite Hannah, “não é propriamente um nome da Idade da Pedra”.

O sítio de Kanaljorden, que foi escavado entre 2009 e 2014, é um local particularmente fascinante para os arqueólogos que estudam o Mesolítico Escandinavo, um período que se seguiu ao recuo dos últimos glaciares da região, há cerca de 11 mil anos, e durante o qual grupos de caçadores-coletores do oeste e nordeste da Europa continental se começaram a movimentar.

Os restos mortais encontrados em Kanaljorden são diferentes da maioria dos outros túmulos mesolíticos escandinavos, que tendem a ser sepulturas no solo. Nesta região, por volta do ano 6000 a.C., os crânios de nove homens e mulheres foram deliberadamente colocados no lago – talvez todos montados em estacas – e intercalados com ossos maxilares de várias espécies de animais locais (mas não os crânios), incluindo javalis, ursos, veados e texugos.

“É como se os humanos e os animais se complementassem de forma simbólica”, diz Hallgren.

A natureza incomum de Kanaljorden impressionou o arqueólogo e escultor Oscar Nilsson, que estudou fotografias do local para tentar compreender o que pode ter motivado as pessoas daquela época a organizarem cuidadosamente e a afundarem os ossos.

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“Quando olhamos para estes crânios, para a forma como foram colocados, olhamos para o mundo da imaginação destas pessoas, para a sua religião”, diz Nilsson.

Os investigadores conseguiram recolher dados de ADN de 6 dos 9 crânios, permitindo determinar a cor da pele, do cabelo e dos olhos dos indivíduos. Alguns europeus mesolíticos provavelmente tinham um tom de pele mais escuro que os habitantes modernos, facto que é refletido nas recentes recriações de duas mulheres que viveram na Escandinávia – na época de Ludvig ou mais tarde. Apesar de Ludvig ter pele e olhos claros, o ADN de um dos crânios femininos – que vai ser reconstruído durante o próximo ano – indica que a mulher era loira, mas de pele mais escura, atestando a complexidade genética da Escandinávia na época.

Hannah Graffman está ansiosa para ver como é que Ludvig vai ser recebido pelos habitantes do século XXI de Motala e encara a reconstrução como uma forma de criar pontes entre as pessoas através do espaço e do tempo.

“É o que tentamos fazer em todos os tipos de áreas diferentes, seja na [reconstrução], seja quando lemos livros sobre outras pessoas, ou quando vemos arte que cria laços connosco”, diz Hanna. “Eu acho que é importante encontrar os laços entre as pessoas.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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