A História de Um dos Maiores Espiões Portugueses

Contamos com mais de 530 anos em que Pêro da Covilhã se tornou num dos maiores espiões portugueses da história.

Thursday, July 2, 2020,
Por National Geographic
O Padrão dos Descobrimentos evoca a expansão ultramarina portuguesa e simboliza a grandeza da obra do ...

O Padrão dos Descobrimentos evoca a expansão ultramarina portuguesa e simboliza a grandeza da obra do Infante D. Henrique.

Fotografia de James L. Stanfield/National Geographic Creative

Pêro da Covilhã partiu de Portugal continental a pé e percorreu os principais portos, até chegar à Índia. A sua missão era recolher informação do Oriente para poucos anos depois, Vasco da Gama concretizar a via marítima da Rota das Especiarias.

Estima-se que o explorador nasceu no ano de 1450, na Covilhã e, que aos 18 anos de idade, foi convidado a servir D. Juan de Guzmán, irmão do Duque de Medina-Sidonia, um dos mais conceituados fidalgos de Sevilha.

Já em Sevilha, foi-lhe atribuído o papel de espadachim que, pela sua impressionante desenvoltura, levou ao convite para participar nas embarcações do Duque, que acaba por recusar. Mais tarde, em 1474, acompanhou D. Juan a Lisboa, a uma entrevista com D. Afonso V.

O seu domínio de línguas, nomeadamente a língua árabe, leva a que aos 24 anos seja admitido como moço de esporas de D. Afonso V, elevando-o rapidamente a escudeiro, com direito a armas e cavalo.

Vida destemida, de segredos e aventuras
Em 1476 Pêro da Covilhã acompanha D. Afonso V na batalha de Toro e, mais tarde, na jornada a França, no pedido de auxílio ao Rei Luís XI de França, na luta pelo trono de Castela, entretanto rejeitado.

D. Afonso acaba por abdicar do trono para D. João II e, o Duque de Bragança é executado por ordem do rei. Nessa altura, Pêro da Covilhã foi destacado para investigar quais os nobres que conspiravam contra D. João II, identificando nessa missão, D. Diogo, Duque de Viseu, e D. Garcia de Meneses, bispo de Évora.

Pêro da Covilhã foi novamente escolhido para um importante papel, desta vez como embaixador nos tratados de paz com os berberes do Magrebe, dando continuidade à obra iniciada pelo infante D. Henrique.

A missão secreta de descobrir as preciosidades da Índia
É no decorrer do ano de 1487 que D. João II envia Pêro da Covilhã, juntamente com Afonso de Paiva, à procura de notícias do mítico reino de Preste João e da Índia.

Partiram disfarçados de mercadores e treinados por cosmógrafos régios e pelo rabino de Beja, partindo a cavalo desde Santarém até Valência. Atravessaram o sul da Península Ibérica até Barcelona, numa viagem entre os meses de maio a junho.

Da cidade espanhola partiram numa nau até Nápoles e, de lá, até ao arquipélago grego, desembarcando na ilha de Rodes. Deste ponto partiram para Alexandria, no Egito, onde se disfarçaram de mercadores, e onde quase morreram pelas conhecidas febres do Nilo da época.

Quando recuperados, rumaram para Rosetta, a cavalo e de barco até ao Cairo. Percorreram o deserto a par do Mar Vermelho, cruzaram a Arábia, até às portas do Oceano Índico.

Chegaram a Adem já no ano de 1488, onde se separaram, combinando um reencontro no Cairo, marcado para um dos primeiros noventa dias de 1491. Daqui, Afonso de Paiva rumou à Etiópia, à procura do Preste João e, Pêro da Covilhã, rumou para a Índia, onde chega em novembro de 1488.

Desde o primeiro contacto em Calecute, com um mercador, começou por perceber o percurso das especiarias. Conheceu a proveniência da canela e da noz-moscada, sendo Calecute o centro de todo o processo.

Visitou ainda a costa oriental de África, onde regista que uma vez dobrado o fim de África, mais tarde designado como Cabo das Tormentas, facilmente se alcançaria Calecute. Será com base nesta anotação que Vasco da Gama decidirá atravessar o Oceano Índico diretamente para Calecute, na expedição marítima à Índia.

O final da missão a sós
No fim de janeiro de 1491, Pêro da Covilhã volta ao Cairo, ao local combinado com Afonso de Paiva. Em vez deste, encontra o rabino de Beja e outro judeu português, que o informam que Afonso de Paiva havia falecido de peste no princípio desse mesmo mês.

Pêro da Covilhã redige o relatório para o rei e regressa a Adem, para saber notícias do Preste João. Já na Etiópia, percebe que afinal não se tratava de um mítico reino, que se esperava grande e rico, mas de um pobre povo que tentava evitar ser esmagado pelos vizinhos muçulmanos.

Com a morte de Nahu, irmão e sucessor do imperador Alexandre, descendente do Preste João, a nova rainha Helena convida Pêro da Covilhã, em 1508, a seu conselheiro régio.

Cumprida a sua missão e com o desejo de regressar, Pêro da Covilhã pediu as credenciais necessárias para regressar a Portugal, mas o rei Narod não o deixou partir. Exerceu cargos na administração na Abissínia. Foram-lhe doadas terras, onde se instalou e constituiu família.

A missão trouxe informações decisivas para a expedição de Vasco da Gama
Em 1521, o relato das suas viagens, enviado ao padre Francisco Álvares pelo próprio Pêro da Covilhã, veio a ser editado em Lisboa, em 1540, na “Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias”.

Quanto ao relato que teria enviado a D. João II, provavelmente nunca chegou ao destinatário. Com efeito, as armadas de Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral foram preparadas no pressuposto de que a Índia era maioritariamente cristã e sem informações ajustadas à navegação no Oceano Índico, nomeadamente, aos ventos de monção.

Os dados recolhidos na viagem de Pêro da Covilhã fizeram dele um dos maiores espiões portugueses da história. Hoje recorda-se um aventureiro, habituado a viver fora da sua terra natal, à qual nunca mais regressou, de uma vida repleta de experiências.

Hoje perpetua na História de Portugal e, inclusive, podemos ver-lhe o rosto em dois lugares distintos:

Padrão dos Descobrimentos, Lisboa
Localizado mesmo ao lado da Bandeira da Ordem de Cristo e o sétimo no alinhamento, atrás do Infante D. Henrique, encontra-se Pêro da Covilhã.

Da autoria do arquiteto Cottinelli Telmo (1897-1948) e do escultor Leopoldo de Almeida (1898-1975), o Padrão dos Descobrimentos foi erguido, pela primeira vez, em 1940, de forma efémera, integrado na Exposição do Mundo Português.

Em 1960, aquando da comemoração dos 500 anos da morte do Infante D. Henrique, o Padrão é reconstruído em betão e cantaria de pedra rosal de Leiria e, as esculturas, em cantaria de calcário de Sintra.

Em 1985 é inaugurado como Centro Cultural das Descobertas, com uma remodelação do interior, pelo arquiteto Fernando Ramalho, conferindo-lhe um miradouro, auditório e salas de exposição.

Destacado no paredão à beira do Tejo, o monumento evoca a expansão ultramarina portuguesa, sintetizando um passado glorioso e simbolizando a grandeza da obra do Infante D. Henrique, impulsionador das Descobertas.

Estátua de Pêro da Covilhã, Covilhã
Na praça principal, em frente à Câmara Municipal da Covilhã, ergueu-se uma estátua que acompanha o desenho de um mapa, no chão, representando a viagem ao Oriente, na qual foi o primeiro português a pisar as terras cobiçadas da Índia.

Na estátua observa-se ainda um documento enrolado, localizado debaixo do braço direito, que representa o relato da missão secreta de um dos maiores espiões portugueses. No interior dos Paços do Concelho existe outra estátua do espião, relacionada com o traço explorador de Pêro da Covilhã.

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