Alicia Garza é Cofundadora do Movimento ‘Black Lives Matter’ e Está Esperançosa no Futuro

Alicia Garza fala sobre este momento histórico e sobre o que precisa de acontecer a seguir.

Monday, July 13, 2020,
Por Rachel Hartigan
A ativista Alicia Garza cunhou o termo “Black Lives Matter” em 2013 com uma publicação no ...

A ativista Alicia Garza cunhou o termo “Black Lives Matter” em 2013 com uma publicação no Facebook. Hoje, pessoas de todo o mundo estão a juntar-se ao movimento que Alicia ajudou a criar.

Fotografia de DAMON CASAREZ, REDUX

Quando Alicia Garza escreveu “Black Lives Matter” numa publicação no Facebook há quase sete anos, esta ativista de Oakland, na Califórnia, nunca imaginou que essas palavras iriam definir um movimento global. No dia 13 de julho de 2013, a absolvição de George Zimmerman pelo assassinato de Trayvon Martin, um adolescente negro que estava desarmado, desencadeou a sua publicação.

Um ano depois, o assassinato de Michael Brown, outro adolescente negro desarmado que foi morto por um polícia branco em Ferguson, no Missouri, galvanizou o movimento Black Lives Matter e transformou-o numa organização nacional. Agora, com a morte de George Floyd, os protestos Black Lives Matter surgiram pelo mundo inteiro e estas palavras estão agora pintadas com letras gigantes a amarelo na rua que vai dar à Casa Branca.

“Ao início até tínhamos dificuldades para as pessoas dizerem Black Lives Matter”, diz Garza, que criou a Rede Global Black Lives Matter com Opal Tometi e Patrisse Cullors. “Agora toda a gente diz Black Lives Matter. Mas o que significa?”


Alicia Garza, que também dirige a organização política Black Futures Lab, conversou recentemente com a National Geographic sobre este momento histórico e sobre o que acha que vai acontecer.

Porque é que as três palavras “Black Lives Matter” têm tanto poder?
“Black Lives Matter” é muito simples e ao mesmo tempo muito complexo. É realmente uma afirmação muito direta de um problema e de uma solução ao mesmo tempo. Aqui estamos sete anos depois, e penso que ficou claro que parte do desconforto desta afirmação acontece porque nos obriga a escolher um lado. Não podemos dizer que algumas vidas dos negros são importantes, ou que importam mais ou menos, ou que só são importantes de vez em quando. Esta declaração pergunta se acreditamos que as vidas dos negros são importantes. E se sim, é esse o mundo em que vivemos agora? E se não, o que vamos fazer para mudar a situação?

Nestes tempos de incerteza – com protestos, pandemia e uma economia em declínio – há alguma coisa que a deixe esperançosa?
Tudo, na verdade. Quero dizer, as coisas estão descontroladas. Isso é um facto. Quando estou com a mente no lugar, digo que este é o momento para estarmos vivos, porque o movimento Black Lives Matter é uma parte muito importante do diálogo global neste momento. E isso está a obrigar as pessoas de todos os estatutos, de todos os setores da nossa economia e de todos os cantos do planeta, a avaliar se estamos onde precisamos de estar – e o que precisamos de fazer para chegarmos aonde queremos chegar. Isso faz-me sentir esperançosa, mas nesta fase não tenho ilusões, as coisas não vão mudar de um dia para o outro.

Apesar de vivermos momentos muito intensos, isso deixa-me esperançosa, porque não é a primeira vez que passamos por isto. Ao início até tínhamos dificuldades para as pessoas dizerem Black Lives Matter. Agora todas as pessoas dizem isso. Mas o que significa? O que quer isto dizer? Eu diria que é um progresso. E isso enche-me de esperança.

O que receia que possa acontecer?
Como este movimento é tão poderoso, isso faz com que tenhamos inimigos realmente poderosos, e isso é uma ameaça real. Tenho a certeza de que as pessoas têm visto as notícias nos últimos dias. O presidente deste país disse que o movimento Black Lives Matter era um “símbolo de ódio”. Eu diria que isso é uma grande ameaça. A ameaça aqui, para ser mais específica, é existirem forças que não querem que nós vençamos e que distorcem o que isso significaria. Creio que os nossos oponentes querem enquadrar isto da seguinte maneira: se a vida dos negros importa, isso significa que a vida das outras pessoas não? Isto é claramente ridículo, mas pode ser eficaz.

Acho que o nosso trabalho passa agora por garantir que continuamos com esta força, onde todos sentem que este movimento lhes pertence. Não é algo apenas para os negros. Portanto, muitas pessoas assumem que o movimento também lhes pertence e é aí que reside o seu poder.

O seu trabalho abrange o que parecem ser várias causas: parar com a brutalidade policial, defender os trabalhadores domésticos, mobilizar as mulheres, construir um poder político negro. Para si, qual é o elo de ligação entre todas estas causas?
Para mim, o que une todas estas causas é o facto de as pessoas desejarem ansiosamente por algo diferente, algo melhor. No meio de todo este luto, raiva e dor, existe esperança. Há o desejo de podermos estar unidos. Este movimento entrelaça-se em muitos outros, e isso revela que podemos construir novos tipos de comunidades onde todos podem pertencer, todos podem ser valorizados e todos podem ser poderosos. É isso que me leva a fazer parte destes movimentos. É o que me motiva.

Pensa que existe algum significado no facto de o movimento Black Lives Matter ter sido fundado por três mulheres?
Completamente! Creio que este facto se presta a uma profunda compreensão sobre quem foi deixado de parte e quem foi deixado para trás. Já sabíamos [nestas eleições de 2020] que as mulheres seriam um ponto fulcral na decisão que irá definir o rumo deste país. E sabemos que isso tem sido verdade ao longo da história. Mesmo que nos contem histórias diferentes, conhecemos os factos. E os factos são que as mulheres teceram desde sempre a comunidade em lugares onde a comunidade estava ausente, porque a nossa sobrevivência dependia disso. Penso que isso se mantém válido hoje em dia.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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