As Mulheres Estão na Linha da Frente na Luta Contra a COVID-19

As mulheres são os “amortecedores de choque da sociedade” – estão em maioria na força de trabalho global ao nível da saúde, mas não em papéis de liderança. Será que isso pode mudar?

Thursday, July 30, 2020,
Por Rachel Jones
Elizabeth Wanjiru, enfermeira da Cruz Vermelha, é apresentada durante uma cerimónia no estádio Kenyatta, em Machakos, ...

Elizabeth Wanjiru, enfermeira da Cruz Vermelha, é apresentada durante uma cerimónia no estádio Kenyatta, em Machakos, no Quénia, onde foi estabelecido um hospital de campanha para o tratamento da COVID-19.

Fotografia de Yasuyoshi Chiba, AFP/Getty Images

Em meados de maio, Emma Robbins entrou num avião particular em Van Nuys, na Califórnia, com apenas três passageiros: ela própria; o ator galardoado com um Óscar Sean Penn; e o reconhecido realizador de cinema Sam Bayer. Penn e Bayer estavam a dirigir-se para a Nação Navajo para se reunirem com o presidente da reserva, Jonathan Nez, para debaterem como é que a organização de ajuda humanitária de Penn, a Community Organized Relief Effort (CORE), poderia oferecer ajuda, incluindo o fornecimento de testes para a COVID-19 na reserva durante a pandemia. E convidaram Emma Robbins para ir com eles.

Emma Robbins, diretora do Navajo Water Project da DigDeep, está a trabalhar na expansão do acesso a água corrente na Nação Navajo. Ela e a sua equipa (Robbins é a segunda a contar da esquerda) posam com alguns dos tanques de água que vão instalar para as famílias navajo.

Fotografia de of Shanna Yazzie

A artista de 33 anos e ativista comunitária quase que não aceitou o convite de última hora – tinha muito trabalho para fazer no seu escritório em Los Angeles. Mas não podia perder a oportunidade de fazer uma viagem rápida ao local onde cresceu e onde atua como diretora do Navajo Water Project da DigDeep, uma organização sem fins lucrativos que visa expandir o acesso a água potável nos Estados Unidos.


Um terço da população que vive na Nação Navajo não tem acesso a água potável e canalização interior – uma situação perigosa de saúde pública que a pandemia transformou em catástrofe. Na semana em que Emma Robbins voou com as estrelas de cinema, as taxas de infeção por COVID-19 na reserva ultrapassaram as de Nova Iorque e Nova Jersey, tornando-as nas mais elevadas do país. O governo federal designou 600 milhões de dólares para a Nação Navajo ao abrigo da Lei Coronavírus de Ajuda, Alívio e Segurança Económica (Lei CARES).

“Todos têm uma opinião sobre o que fazer com o dinheiro”, diz Emma Robbins. “Mas por que razão temos taxas tão elevadas de infeção? Isto acontece porque as pessoas não têm acesso a água limpa. Eles precisam de viajar, precisam de lavar as mãos, mas não há saneamento. Mentalmente, isto está a desgastar as pessoas. Eu sabia que, se participasse na conversa, podia ter impacto.”

Um terço dos habitantes da Nação Navajo não tem água limpa ou canalização interior, o que dificulta as precauções de saúde na lavagem das mãos (esquerda). Num ponto de distribuição de água e mantimentos (direita), a fila de carros estende-se ao longo da estrada.

Fotografia de MARK RALSTON, AFP/GETTY IMAGES

A abordagem prática de Emma Robbins no combate à COVID-19 reflete a de muitas outras mulheres pelo mundo inteiro que estão diretamente envolvidas na resposta à pandemia. Sejam profissionais de saúde na linha de frente, prestadoras de cuidados de enfermagem em casas de repouso, ou ativistas comunitárias, as mulheres estão a trabalhar longas horas na gestão das consequências da COVID-19, enquanto tentam conjugar tudo isto com as suas próprias responsabilidades para com os filhos e família durante a pandemia.

Porém, quando se trata de papéis de liderança e de tomada de decisões, existe uma disparidade evidente para as mulheres. Os dados da Organização Mundial de Saúde estimam que, embora as mulheres representem 70% da força de trabalho global na saúde, ocupam apenas 25% das posições de liderança. Uma fotografia de fevereiro da equipa de resposta ao coronavírus dos EUA, liderada pelo vice-presidente Mike Pence, gerou polémica porque só tinha homens.

“Nós impomo-nos porque achamos que temos uma resposta”, diz Winnie Byanyima, diretora executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre VIH/SIDA. “Nós organizamo-nos e tentamos encontrar uma solução.”

Fotografia de FABRICE COFFRINI, AFP/GETTY IMAGES

Mulheres de diversas áreas da saúde identificaram a crise de COVID-19 como um cenário que lhes permite alavancar posições de liderança. O facto de existirem mais mulheres a assumirem a liderança nas políticas globais de saúde e na resposta a emergências traduz-se inevitavelmente em alterações positivas, diz Winnie Byanyima, diretora executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre VIH/ SIDA.

“As pessoas que historicamente estiveram excluídas acabam por transformar uma situação, porque trazem novas perspetivas, novas questões, novas necessidades para a mesa”, diz Winnie Byanyima, nascida no Uganda, que passou a vida inteira a derrubar barreiras. Winnie Byanyima conseguiu um diploma de engenharia aeroespacial e trabalhou para a Uganda Airlines, antes de entrar para o Exército de Resistência Nacional e lutar para derrubar Milton Obote, o então presidente do Uganda. Mais tarde, atuou como diretora executiva da OxFam International.

As décadas de ativismo político fomentaram a ascensão de Winnie Byanyima aos escalões mais elevados de liderança global na área da saúde. “A minha história é como a de muitas outras mulheres de países pobres, que enfrentam crise após crise enquanto exigem soluções. Nós impomo-nos porque achamos que temos uma resposta. Nós organizamo-nos e tentamos encontrar uma solução. Foi assim que cultivei a minha liderança, querendo sempre fazer parte da procura por uma solução para o grande problema que enfrentamos.”

Em abril, a enfermeira Sasha Winslow juntou-se a outros profissionais de saúde para protestar contra as perigosas condições de trabalho nos hospitais da cidade de Nova Iorque.

Fotografia de Nina Berman, NOOR/Redux

Em relação à COVID-19, Winnie Byanyima diz que o mundo só precisa de colocar os olhos no sucesso dos países liderados por mulheres. A Alemanha, a Noruega e a Nova Zelândia têm sido nações amplamente elogiadas pelo seu progresso nos testes, no rastreamento de contactos e na contenção da disseminação de coronavírus. De facto, a análise das respostas dadas à COVID-19 feita pelo grupo Open Democracy constatou que os países com mulheres em posições de liderança registaram seis vezes menos mortes confirmadas por COVID-19 do que os governos com homens ao leme. E os governos liderados por mulheres conseguiram aplanar a curva de coronavírus e avançar para uma reabertura em segurança mais cedo.

“Basta ver o exemplo de Jacinda Ardern [primeira-ministra da Nova Zelândia]”, diz Winnie Byanyima. “Ela teve de lidar com enormes desafios logo no seu primeiro mandato. Ela enfrentou um sismo, um ataque terrorista, e agora enfrenta a COVID-19. Mas é muito admirada porque a sua abordagem em cada caso foi sempre fora da caixa. É empática, transformadora e tem uma abordagem multifacetada.”

Embora as investigações mostrem que os homens têm mais probabilidades de sofrer complicações graves de COVID-19, as mulheres que trabalham na linha da frente correm um risco muito maior do que os homens de contrair a doença, diz Michelle McIsaac. Esta economista e especialista em grupos de trabalho na Organização Mundial de Saúde lidera um programa sobre género e equidade global na área da saúde.

“Ouvimos dizer que as mulheres podem ser mais afetadas pela escassez de equipamentos de proteção individual (EPI), ou pela falta de formação na utilização dos EPI”, diz Michelle McIsaac. E o pior de tudo, muitos dos EPI disponíveis, incluindo os equipamentos de corpo inteiro, são projetados por homens e geralmente não são adaptáveis ao corpo das mulheres, nem levam em consideração as suas necessidades menstruais.

Profissionais de saúde chegam para o seu turno no Hospital Grady Memorial, em Atlanta, na Georgia, onde os casos de COVID-19 estão a aumentar.

Fotografia de Audra Melton, The New York Times/Redux

Face aos salários mais baixos, contratos de trabalho precários e a violência que os profissionais de saúde enfrentam em geral, as mulheres que trabalham na linha da frente são indiscutivelmente mais vulneráveis. “Esta pandemia demonstrou que as mulheres são os ‘amortecedores de choque’ da sociedade”, diz Roopa Dhatt, que ainda estava na faculdade de medicina quando fundou a Women in Global Health – organização que lida com questões de igualdade de género nos cargos de liderança na área da saúde.

A Women in Global Health fez recentemente uma parceria com a Pathfinder International para estabelecer filiais no Burkina Faso, Etiópia, Níger, Nigéria e Paquistão. “Quem lidera – seja ao nível nacional ou no sistema de saúde de um hospital – é importante não só da perspetiva de género, mas também de uma perspetiva de diversidade mais ampla”, diz Dhatt. “As mulheres precisam de moldar os sistemas de saúde a todos os níveis.”

Uma das grandes questões abordadas por esta organização é a diferença de género na remuneração das mulheres no setor da saúde. “Por detrás da imagem do heroísmo das mulheres na linha da frente está o facto de metade do que as mulheres fazem no setor da saúde não ser atualmente pago – o que equivale a 1.3 biliões de dólares anualmente”, diz Dhatt. “E se levarmos em consideração o trabalho de assistência social não remunerado, as estimativas chegam aos 10 biliões de dólares.”

Shaandiin Parrish, a atual Miss Nação Navajo, prepara-se para distribuir comida, água e outros mantimentos em Huerfano, na Nação Navajo.

Fotografia de Sharon Chischilly/Getty Images

Promover efetivamente a equidade e liderança de género pode exigir uma abordagem mais eficaz na recolha de dados, diz Shirin Heidari, presidente fundadora da GENDRO, uma ONG sediada em Genebra que apoia a igualdade de género através de investigações académicas.

Como exemplo, diz Shirin Heidari, “os países não estão a produzir dados suficientes relacionados com género sobre as taxas de infeção ou mortalidade entre os profissionais de saúde. Um estudo feito durante os primeiros dias da pandemia na China descobriu que as trabalhadoras na linha da frente têm riscos mais elevados de problemas de saúde mental, depressão, insónia e ansiedade – precisamos mesmo de compreender melhor esta dinâmica.”

As mulheres em papéis de liderança, como Winnie Byanyima, afirmam que a sua presença no cenário global é crucial enquanto a crise se prolonga, para garantir que existe uma equidade geral à medida que os tratamentos médicos e ferramentas de prevenção são desenvolvidos.

Uma profissional de saúde durante o período de pausa é iluminada pelos faróis de um táxi que leva um paciente a uma clínica na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, no Brasil.

Fotografia de Leonardo Carrato, VII/Redux  

“Ainda estou a lutar por um compromisso, para que, caso uma vacina seja lançada, os primeiros a serem imunizados sejam os profissionais de saúde na linha da frente”, diz Winnie Byanyima. “Não é possível que, se uma vacina for encontrada, uma criança num país rico como o Reino Unido seja vacinada e uma funcionária na linha da frente no Burkina Faso esteja no fim da fila porque o seu país é pobre. É demasiada injustiça.”

Por vezes, lutar contra a injustiça significa aproveitar oportunidades improváveis, como um voo num avião particular com estrelas de cinema. Quando Emma Robbins visitou a Nação Navajo e se reuniu com o presidente da reserva, Jonathan Nez, ela participou imediatamente na conversa, enfatizando as necessidades de acesso a água e canalização na Nação Navajo. Mais tarde, Emma Robbins apresentou uma proposta para fortalecer a infraestrutura com financiamento da Lei CARES.

Desde abril, a DigDeep já distribuiu 990 mil litros de água engarrafada e ajudou 300 famílias navajo a obter água corrente – quente e fria. Até ao final de julho, cerca de 300 tanques de armazenamento de água já estavam em funcionamento.

Ter um lugar à mesa faz toda a diferença, diz Emma Robbins.

“É importante que as pessoas que têm poder não se esqueçam do que eu represento, enquanto navajo, para estes projetos e para a minha equipa. Esta é a lição que aprendi com as mulheres da minha família, cuidar da nossa comunidade, porque é muito mais do que cuidar de indivíduos – é cuidar da nossa cultura e garantir que todos são contemplados.”

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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