Como o Advento das Armas Nucleares Mudou o Rumo da História

Muitos cientistas acabaram por se arrepender do papel que tiveram na criação de uma arma que consegue destruir praticamente tudo numa questão de segundos.

Monday, July 20, 2020,
Por Erin Blakemore
Nos 75 anos que se seguiram ao primeiro teste bem-sucedido de uma bomba de plutónio, as ...

Nos 75 anos que se seguiram ao primeiro teste bem-sucedido de uma bomba de plutónio, as armas nucleares mudaram a face dos confrontos armados. Nesta imagem, tropas da 11ª divisão aerotransportada assistem a uma explosão atómica a curta distância no deserto de Las Vegas, no dia 1 de novembro de 1951.

Fotografia de Bettmann, Getty

Às 5:30 da manhã do dia 16 de julho de 1945, uma luz mais brilhante do que o sol irradiou sobre o Novo México. Uma bola de fogo aniquilou tudo nas redondezas e produziu uma nuvem cogumelo que pairou a mais de 11 quilómetros de altura.

No rescaldo deste acontecimento, os cientistas que produziram a explosão sorriram, cumprimentaram-se e beberam em celebração. Depois, perceberam o potencial sombrio da arma que tinham criado. Tinham acabado de produzir a primeira explosão nuclear do mundo.


O teste, com o nome de código “Trinity”, foi um triunfo; provou que os cientistas conseguiam aproveitar o poder da cisão do plutónio. E impulsionou o mundo para a era atómica, mudando as guerras e as relações geopolíticas para sempre. Menos de um mês depois, os EUA lançaram duas armas nucleares em Hiroshima e Nagasaki, no Japão – provando ainda mais que agora era possível destruir grandes áreas de terra e matar dezenas de milhares de pessoas em segundos.

Em agosto de 1945, os Estados Unidos decidiram lançar as suas armas nucleares recém-desenvolvidas nas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, na tentativa de acabar com a Segunda Guerra Mundial. Nesta fotografia, um homem não identificado está ao lado de uma lareira de azulejos, onde estava uma casa em Hiroshima, no dia 7 de setembro de 1945.

Fotografia de Stanley Troutman, AP

Os cientistas estavam a tentar descobrir como produzir a cisão nuclear – uma reação que acontece quando os núcleos atómicos se dividem, produzindo uma quantidade enorme de energia – desde a descoberta deste fenómeno na década de 1930. A Alemanha nazi foi a primeira a tentar transformar este tipo de energia em arma, mas as informações sobre estes esforços saíram do país juntamente com os dissidentes políticos e cientistas exilados, muitos deles alemães judeus.

Em 1941, depois de o físico e emigrante Albert Einstein alertar o presidente Franklin Roosevelt de que a Alemanha poderia estar a tentar desenvolver uma bomba de cisão, os Estados Unidos entraram na primeira corrida ao armamento nuclear. Isto deu origem a um projeto secreto de pesquisa atómica, com o nome de código Projeto Manhattan, que reuniu os físicos mais eminentes do país e cientistas exilados da Alemanha e de outros países ocupados pelos nazis.

O projeto foi realizado em dezenas de locais, desde Los Alamos, no Novo México, até Oak Ridge, no Tennessee. Ao longo do período de desenvolvimento, e apesar de empregar cerca de 600 mil pessoas, o projeto era tão secreto que muitos dos que contribuíram para o resultado final não faziam ideia de como é que os seus esforços se iriam encaixar num objetivo maior e coordenado. Os investigadores seguiram dois caminhos para fazer uma arma nuclear: um que dependia de urânio e outro, mais complexo, que dependia de plutónio.

Depois de anos de investigação, o Projeto Manhattan fez história em 1945, quando o teste da “engenhoca”, uma de três bombas de plutónio produzidas antes do final da guerra, teve sucesso. Os EUA também desenvolveram uma bomba de urânio que não foi testada. Apesar do potencial óbvio destas armas para terminar ou alterar o rumo da Segunda Guerra Mundial, muitos dos cientistas que ajudaram a desenvolver a tecnologia nuclear opuseram-se à sua utilização na guerra. Leo Szilard, físico que descobriu a reação nuclear em cadeia, pediu à administração de Harry S. Truman (que sucedeu Roosevelt como presidente) para não a usar na guerra. Mas os seus apelos, que foram acompanhados pelas assinaturas de dezenas de cientistas do Projeto Manhattan, não foram ouvidos.

No dia 6 de agosto de 1945, um “superbombardeiro” B-29 lançou uma bomba de urânio sobre Hiroshima, na tentativa de forçar a rendição incondicional do Japão. Três dias depois, os EUA lançaram uma bomba de plutónio, idêntica à bomba de teste Trinity, sobre Nagasaki. Os ataques dizimaram as duas cidades e mataram ou feriram pelo menos 200 mil civis.

O Japão rendeu-se no dia 15 de agosto. Alguns historiadores argumentam que as explosões nucleares tinham um propósito adicional: intimidar a União Soviética. E não existem dúvidas de que estas explosões deram início à Guerra Fria.

O líder soviético Joseph Stalin já tinha aprovado um programa nuclear em 1943 e, um ano e meio depois dos atentados no Japão, a União Soviética conseguiu a sua primeira reação nuclear em cadeia. Em 1949, a URSS testou o “First Lightning”, o seu primeiro dispositivo nuclear.

Ironicamente, os Estados Unidos acreditavam que a construção de um arsenal nuclear robusto funcionaria como um fator dissuasor, que iria ajudar a impedir uma terceira guerra mundial, e mostrava que os EUA conseguiam esmagar a URSS caso esta invadisse a Europa Ocidental. Mas quando os EUA começaram a investir em armas termonucleares com centenas de vezes o poder de fogo das bombas que usaram para acabar com a Segunda Guerra Mundial, os soviéticos seguiram os seus passos. Em 1961, a União Soviética testou a “Tsar Bomba”, uma arma poderosa com o equivalente a 50 megatoneladas de TNT e capaz de produzir uma nuvem cogumelo com a altura do Monte Evereste.

“Não importava quantas bombas tivessem ou o quão poderosas fossem as suas explosões, eles precisavam de mais e maior”, escreve o historiador Craig Nelson. “O suficiente nunca bastava.”

À medida que outros países adquiriam as suas capacidades nucleares e a Guerra Fria atingia um pico em finais dos anos 1950 e início dos anos 1960, um movimento antinuclear começou a crescer em resposta a uma variedade de acidentes nucleares e testes de armas que tiveram efeitos ambientais e humanos nefastos.

Os cientistas e o público em geral começaram por pedir a proibição dos testes nucleares, e depois apelaram ao desarmamento. Einstein – cujo aviso inicial a Roosevelt visava impedir uma guerra nuclear, em vez de a colocar em movimento – estava entre estas pessoas. Num manifesto de 1955, o físico e um grupo de intelectuais pediram para o mundo abandonar as armas nucleares. “Aqui está o problema que apresentamos, severo, terrível e inevitável. Será que devemos colocar um fim à raça humana; ou deve a humanidade renunciar à guerra?”

Mas esta questão urgente ficou por resolver. Depois, em 1962, relatos de armas soviéticas em Cuba levaram à Crise dos Mísseis de Cuba, um impasse tenso entre os EUA e a URSS que muitos temiam que terminasse numa catástrofe nuclear.

Em resposta às preocupações dos ativistas, os EUA e a URSS (e mais tarde a Rússia) assinaram um tratado parcial de proibição aos testes em 1963, seguido por um tratado de não-proliferação nuclear em 1968 e vários acordos adicionais projetados para limitar o número de armas nucleares.

Ainda assim, de acordo com a Federação de Cientistas Americanos (FAS), no início de 2020 havia um número estimado de 13.410 armas nucleares no mundo – abaixo das cerca de 70.300 verificadas em 1986. A FAS informa que 91% de todas as ogivas nucleares pertencem à Rússia e aos EUA. Os outros países nucleares são a França, China, Reino Unido, Israel, Paquistão, Índia e Coreia do Norte. E há suspeitas de que o Irão está a tentar construir a sua própria arma nuclear.

Apesar dos perigos da proliferação nuclear, só duas armas nucleares – as usadas em Hiroshima e Nagasaki – foram utilizadas numa guerra. Contudo, o Escritório das Nações Unidas para Assuntos de Desarmamento escreve que “os perigos de tais armas surgem da sua própria existência”.

Setenta e cinco anos depois do teste Trinity, a humanidade conseguiu sobreviver, até agora, à era nuclear. Mas num mundo com milhares de armas nucleares, um mundo em constante mudança de alianças políticas e com conflitos geopolíticos intermináveis, as preocupações levantadas pelos cientistas que criaram a tecnologia que possibilita a guerra nuclear permanecem.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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