Mais de Metade das Empresas Geridas Por Negros Pode Não Sobreviver à COVID-19

Um relatório constata que 41% das empresas geridas por negros encerraram devido à COVID-19, em comparação com apenas 17% das empresas geridas por brancos.

Wednesday, July 22, 2020,
Por Rodney A. Brooks
No bairro de Crown Heights, em Brooklyn, Nova Iorque, uma pessoa passa por uma fileira de ...

No bairro de Crown Heights, em Brooklyn, Nova Iorque, uma pessoa passa por uma fileira de pequenos negócios encerrados devido à pandemia de coronavírus. A crise já forçou cerca de 440 mil empresas de proprietários negros a fecharem portas de forma permanente.

Fotografia de Mark Lennihan, AP

Para Monique Greenwood, este ano começou de forma excelente. Monique comemorou 25 anos enquanto proprietária da Akwaaba Bed and Breakfast Inns, e o negócio estava a correr bem. Depois, surgiu a pandemia, trazendo consigo uma avalanche de cancelamentos. Numa questão de dias, o negócio passou de uma taxa de ocupação projetada de 80% para zero. Monique Greenwood, que tem pousadas em Brooklyn, Filadélfia, Washington D.C., Cape May, Nova Jersey e Pocono Mountains, na Pensilvânia, foi forçada a demitir quase todos os seus 15 funcionários, enquanto suportava quase três meses praticamente sem rendimentos.

Em junho, Monique estava novamente esperançosa. Os casos de COVID-19 pareciam estar sob controlo e a nação começou a reabrir. “Sou uma pessoa otimista por natureza. Eu sinto sempre que vou conseguir. Não sei como, mas vou encontrar uma maneira.”

Mas depois o vírus regressou, desta vez em regiões que tinham passado relativamente incólumes. As reservas encorajadoras nas propriedades da Akwaaba em Cape May e Poconos desapareceram. “Isto é o pior de tudo, é o meu maior receio”, diz Monique. “Eu já estava com dificuldades. Agora surgem os cancelamentos.”


Os confinamentos devido à COVID-19 afetaram particularmente as empresas geridas por negros. Uma investigação da Universidade da Califórnia em Santa Cruz (UC Santa Cruz) e um relatório do Gabinete Nacional de Pesquisa Económica descobriram que 41% das empresas pertencentes a negros – cerca de 440 mil empresas – foram encerradas devido à COVID-19, em comparação com apenas 17% das empresas geridas por brancos.

“Eu sabia que isto ia ser mau, mas nunca pensei que fosse tão devastador”, diz Robert W. Fairlie, autor do relatório da UC Santa Cruz e professor de economia na mesma universidade.

Os problemas provocados pelo vírus, juntamente com os anos de racismo sistemático e as disparidades económicas, deixou as empresas geridas por negros em dificuldades. Os que conseguiram aguentar durante os confinamentos e que agora estavam a começar a reabrir estão a ser novamente afetados, à medida que o número de casos aumenta em estados como o Texas, Flórida, Arizona e Califórnia. Os mais afetados são os bares e restaurantes geridos por negros.

“Depois de 90 dias sem retorno financeiro, as dificuldades são muitas”, diz Harold T. Epps, antigo secretário do comércio de Filadélfia e consultor sénior da Bellevue Strategies. “Não importa se é um barbeiro, uma loja de produtos de beleza, um restaurante ou outro tipo de estabelecimento comercial. Muitos já enfrentam dificuldades financeiras num dia bom e, nos últimos 90 dias, não houve dias bons. Isto significa que uma em cada duas empresas não vai conseguir regressar.”

Yvonne McNair, fundadora e CEO do Captivate Marketing Group, espera perder um ano e meio de receitas. No início de março, McNair preparava-se para anunciar a programação do Essence Music Festival 2020, um dos seus maiores clientes. Este evento anual em Nova Orleães atrai meio milhão de pessoas no fim de semana de 4 de julho e conta com alguns dos maiores artistas afro-americanos do país.

Mas no dia 11 de março as coisas desmoronaram-se por completo. A Organização Mundial de Saúde declarou o coronavírus uma pandemia global; e a NBA cancelou os jogos desta época, depois de um jogador testar positivo para COVID-19. A notícia parecia uma sentença de morte para o Essence Music Festival, que primeiro foi adiado e depois cancelado.

Sem que McNair conseguisse dar por isso, 95% do seu negócio anual tinha desaparecido. McNair foi obrigada a demitir os seus sete funcionários e os 25 colaboradores. “Tive de demitir a minha equipa e esperar que, quando as coisas regressarem ao normal, as pessoas também regressem.”

Por que razão os negócios geridos por negros são mais vulneráveis
De acordo com o Instituto de Política Económica: “A disparidade racial do impacto do vírus está profundamente enraizada nas injustiças socioeconómicas históricas. As disparidades raciais persistentes no acesso a cuidados de saúde, riqueza, emprego, salários, habitação e pobreza contribuem para uma maior suscetibilidade ao vírus, tanto física como economicamente.”

Kristen Clarke, presidente e diretora executiva do Comité de Advogados dos Direitos Civis, afirma que os afro-americanos ainda estão a recuperar do colapso económico de 2007-2009, que teve um impacto brutal na riqueza dos negros. “Ao contrário do que acontece com outras comunidades, os afro-americanos não estão preparados para recuperar de um segundo período de colapso económico.”

Harold T. Epps concorda. “O impacto da COVID coloca a nu todas as desigualdades e disparidades dos padrões na América. Quando se trata de educação, salários, negócios ou saúde, estamos em desvantagem e somos afetados com uma extensão muito maior do que acontece com os brancos.”

Andre Perry, investigador da Instituição Brookings em Washington e autor do livro Know Your Price: Valuing Black Lives and Property in America’s Black Cities, diz que a falta de riqueza na comunidade negra teve um enorme impacto na sua capacidade de sobrevivência à pandemia.

“Como muitos dos empresários negros não têm o mesmo tipo de equidade devido ao racismo estrutural, não têm um suporte para aguentar este momento em particular”, diz Perry. “Se as empresas e os indivíduos negros tivessem o mesmo tipo de suporte que os seus homólogos brancos, não estaríamos nessa situação.”

Segundo Robert W. Fairlie, o economista da UC Santa Cruz, metade de todas as famílias negras têm menos de 9 mil dólares de riqueza total, enquanto que em média a riqueza das famílias brancas ronda os 130 mil dólares. “Se alguém precisar de 10 mil dólares para atravessar um período difícil, pode fazê-lo se tiver 130 mil”, diz Robert. “Mas se tiver apenas 9 mil, torna-se impossível.”

“Os negros recebem em média cerca de metade dos empréstimos empresariais em relação ao que acontece com os brancos, e quando os recebemos, têm taxas de juros mais elevadas. ”

por ANDRE PERRY, AUTOR DE “KNOW YOUR PRICE: VALUING BLACK LIVES AND PROPERTY IN AMERICA’S BLACK CITIES”

Para além disso, diz Perry, há menos negócios geridos por negros que mantêm relações com bancos. “Os negros recebem em média cerca de metade dos empréstimos empresariais em relação ao que acontece com os brancos, e quando os recebemos, têm taxas de juros mais elevadas.”

A grande questão é: Quantas empresas geridas por negros serão capazes de reabrir? A recessão de 2009, considerada na altura a pior crise económica desde a Grande Depressão, viu 60% das empresas geridas por negros a não reabrir, em comparação com 50% das empresas geridas por brancos, diz Perry. “Acredito que esta pandemia vai ter resultados ainda piores.”

Sem crédito, sem ajuda
O muito divulgado Programa de Pagamento de Proteção (PPP) do governo foi projetado para ajudar as pequenas empresas a cobrir os salários e benefícios dos seus funcionários, bem como pagar rendas ou juros sobre hipotecas. Mas 95% das empresas geridas por negros e 91% das empresas geridas por latinos não tiveram praticamente possibilidades de receber um empréstimo, diz Aracely Panameno, do Center for Responsible Lending.

Para se candidatarem a um empréstimo a fundo perdido, as empresas precisam de ter uma relação com um banco, explica Panameno. Muitas empresas geridas por negros não têm este tipo de relação, nem o número mínimo de funcionários necessário para se qualificarem. Os bancos que trabalham com a comunidade negra não foram incluídos na primeira fase de financiamento, diz Panameno, e os bancos exigem taxas mais elevadas para lidarem com empréstimos maiores.

“Eu acrescentaria que, do ponto de vista histórico, a negação sistémica de financiamento e a discriminação nos serviços financeiros colocam a comunidade negra de parte. Eles não conseguem obter crédito porque não têm crédito, e não têm crédito porque não o conseguem obter.”

Uma das empresárias negras que conseguiu receber um empréstimo PPP foi Dawn Kelly, proprietária do The Nourish Spot no bairro Jamaica de Nova Iorque, em Queens. O empréstimo, diz Kelly, “ajudou-me a aguentar e a preencher algumas lacunas”.

A loja de Kelly, que se especializa em sumos, smoothies, saladas e wraps, não encerrou, e nenhum dos seus cinco funcionários foi demitido. Kelly reduziu o horário e começou a trabalhar em regime de take-away, e equipou desde o início a sua equipa com máscaras e luvas e impediu a entrada de clientes na loja. No entanto, outras empresas no seu bairro não conseguiram sobreviver.

“Acho que muitas pessoas tiveram de fechar os seus negócios”, diz Kelly. “É demasiado difícil e há muitas contas para pagar. As pessoas continuam a ter de pagar rendas e salários. E não nos foi permitido adiar os impostos sobre as vendas. Vemos muitas empresas à venda porque não conseguiram recuperar.”

As empresas geridas por negros também tendem a ter mais consumidores negros, muitos dos quais foram severamente atingidos pelos confinamentos. De acordo com o Instituto de Política Económica, os afro-americanos “sofreram um número recorde de desemprego nos últimos meses, juntamente com a devastação económica resultante”. A taxa de desemprego dos afro-americanos subiu para os 15,4% em junho.

Dificuldades de sobrevivência
Nos EUA, desde o condado de Prince George, em Maryland – o condado maioritariamente negro nos EUA – até Nova Orleães e Chicago, as grandes e pequenas empresas geridas por negros enfrentam dificuldades para reabrir, e as que não encerraram lutam para permanecerem abertas.

“Sabemos que perdemos um grande número de empresas geridas por negros no nosso condado.”

por ANGELA ALSOBROOKS, EXECUTIVA DO CONDADO PRINCE GEORGE, MARYLAND

“Sabemos que perdemos um grande número de empresas geridas por negros no nosso condado”, diz Angela Alsobrooks, executiva do Condado Prince George, em Maryland. “Os negócios pertencentes a negros no Condado Prince George estão a ser afetados da mesma forma que acontece no resto da nação.”

Karl Turner, CEO da A La Carte Specialty Foods em Nova Orleães, que vende marisco para restaurantes de todo o país, diz que o confinamento generalizado reduziu as suas vendas em 90%.

“Não demitimos ninguém, mas tivemos de cortar custos”, diz Turner. “Tivemos de baixar os salários em 25%. No meu caso, foram 50%. Enquanto fundador da empresa, fui o mais afetado.”

As encomendas vindas da Carolina do Norte e do Sul e da Virgínia estavam a aumentar “devido ao comércio de praia”, diz Turner. “Mas agora isso pode abrandar devido ao que está a acontecer. Vimos uma queda significativa no Texas e na Flórida por causa dos encerramentos [de restaurantes]. Nem consigo dizer se estou otimista. Estou muito preocupado.”

Karl Turner não está sozinho. O M&R Prescription Center está no sul de Chicago há 37 anos e permaneceu aberto durante o confinamento, mas o negócio foi tudo menos normal. Os consultórios médicos fecharam, pelo que não havia prescrições. Os preços dos medicamentos duplicaram e triplicaram, e os fornecedores limitaram os produtos. O M&R não conseguiu fornecer itens essenciais aos clientes, como luvas de proteção.

Os tumultos e as pilhagens que se seguiram à morte de George Floyd pioraram uma situação que já de si era má. Os manifestantes assaltaram o centro e roubaram medicamentos. E sem aviso prévio, a FedEx e a UPS interromperam as entregas neste bairro durante cinco dias.

“Isso piorou bastante as coisas”, diz Pamela Jones, farmacêutica e proprietária. “Eu tinha medicamentos encomendados, e alguns precisavam de refrigeração. Em alguns casos, tivemos de solicitar o mesmo medicamento a outro fornecedor para ser entregue por outra fonte. Uma das encomendas foi desviada até cerca de 65 quilómetros de distância.”

Pamela Jones disse que lhe passou pela cabeça fechar o negócio. “Eu vou e venho. Temos um legado na comunidade. Eu gostava de manter o negócio aberto. Mas é fácil ir abaixo, e cada vez que isso acontece, tenho mais dificuldades em recuperar. Estou a tentar servir a comunidade e a mim ao mesmo tempo, sem ir à falência ou enlouquecer.”

Negócio ajuda negócio
Lester Barclay, advogado de Chicago que representa várias pequenas empresas, diz que a solução reside na América corporativa. “O governo federal fez o que pôde. Os nossos municípios não têm os recursos. Isto tem de partir do setor privado.”

Algumas das grandes empresas e filantropos já começaram a agir. A cantora e filantropa Beyoncé Knowles-Carter está a doar as receitas da sua nova música, Black Parade, às pequenas empresas geridas por negros. A Netflix doou 5 milhões de dólares às organizações que se dedicam à criação de oportunidades para os negros criadores de conteúdos, jovens negros e empresas pertencentes a negros. O Google vai gastar mais 175 milhões de dólares no financiamento de empresas geridas por negros e no apoio a empreendedores negros. O Facebook vai gastar 200 milhões de dólares para apoiar empresas e organizações geridas por negros. E a Charter Communications vai investir 10 milhões de dólares “para apoiar as pequenas empresas pertencentes a negros e a minorias em comunidades carenciadas”. (A cofundadora do movimento Black Lives Matter está esperançosa no futuro.)

São boas notícias para negócios como o histórico restaurante Neir’s Tavern em Woodhaven, Nova Iorque. Depois de encerrar por completo durante quase três meses, o proprietário Loycent Gordon reabriu em meados de junho com uma redução de horário. Apesar de o estado de Nova Iorque ter limitado as refeições no interior dos restaurantes, depois de os casos de COVID-19 terem começado a aumentar noutros estados, Gordon recomeçou recentemente a servir refeições ao ar livre.

“Se as coisas continuarem assim, talvez fiquemos bem”, diz Gordon. O Neir's Tavern tem até 30 lugares sentados no exterior. Antes da pandemia, tinha 40 lugares na sala de jantar interior e outros 14 no bar.

“Neste momento, com base no que fizemos a semana passada, estamos com pouco mais de 50% da nossa receita pré-COVID. A semana passada foi a primeira semana de refeições ao ar livre. As pessoas saíram à rua. E sentavam-se no chão só para saírem de casa”, diz Gordon, que não espera contratar os dez funcionários que tinha antes do confinamento. Agora tem quatro funcionários, nenhum da sua equipa anterior à COVID-19.

“Espero que as pessoas continuem a vir”, diz Gordon. “Acho que com 60% [da receita pré-COVID] e as despesas que cortámos, conseguimos superar a pandemia. Tento ser otimista e ver o lado positivo de tudo, porque eu podia ter fechado como muitos outros lugares. Mas somos todos diferentes. Com base no que está a acontecer e com base nos números da semana passada, estou otimista pelo nosso negócio, mas não estou muito confiante pela indústria como um todo.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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