Migrantes Adolescentes Precisam de ir à Escola, Mas São Mundialmente Pressionados Para Não o Fazer

Mesmo antes da pandemia, os deveres familiares, o crime organizado e a necessidade básica de sobrevivência mantiveram estes adolescentes longe das escolas.

Wednesday, July 8, 2020,
Por Giovanna Dell'Orto
Haneen, refugiada síria em Zarqa, na Jordânia, casou-se aos 14 anos com um refugiado oito anos mais ...

Haneen, refugiada síria em Zarqa, na Jordânia, casou-se aos 14 anos com um refugiado oito anos mais velho. (Haneen pediu para que se usasse apenas o seu primeiro nome.) As crianças noivas abandonam quase sempre a escola, mas Haneen, agora com 18 anos, divorciada e mãe de uma criança de dois anos, lutou com sucesso para voltar a estudar.

Fotografia de Alexandros Avramidis

“Eu quero ser alguém”, diz Gulab Rahimi, que abandonou o Afeganistão quando tinha 12 anos. “Não quero ser como as outras pessoas.” Esta primavera, Rahimi terminou o ensino secundário, um feito raro para um jovem refugiado.

Rahimi deixou os pais e os sete irmãos mais velhos para viajar sozinho para o Irão e eventualmente acabou por se estabelecer na Grécia, para estudar e viver sob o que ele chama de “democracia clara”. Agora com 21 anos, Rahimi vive num apartamento em Thessaloniki que está repleto de livros em farsi e em grego; e tem um poster vermelho na parede com uma citação inspiradora em inglês sobre o poder de ter um sonho.


Durante anos, Rahimi passou 19 horas por dia a trabalhar nas cozinhas de restaurantes, a frequentar a escola e a estudar. Foi uma maratona, e ele estava agora perto de terminar o ensino secundário – online e durante uma pandemia global.

Este refugiado afegão de 17 anos está detido desde o dia em que chegou à Grécia. Foi preso enquanto remava num barco que transportava refugiados e migrantes da Turquia para a Grécia. Na prisão, frequenta a escola pela primeira vez na vida. (As autoridades prisionais gregas pediram para que a sua identidade não fosse revelada.)

Fotografia de Alexandros Avramidis

“Grande parte do tempo sou o único nas aulas”, diz Rahimi. Os outros estudantes não participam nas aulas online.

Existem mais de 7 milhões de migrantes em idade escolar legalmente reconhecidos como refugiados ao abrigo do mandato do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e há centenas de milhares de outros refugiados cujas solicitações de asilo ainda estão pendentes ou que não foram documentadas. Para todos estes migrantes, como para Rahimi, a melhor oportunidade que têm para encontrar algum suporte nos novos países reside geralmente na instituição que outras pessoas mais afortunadas adoram odiar: a escola.

No entanto, a maioria destes adolescentes não frequenta o ensino secundário, e são muito menos os que o terminam. As forças que os afastam – pobreza, crime organizado, família – são demasiado fortes. E agora, com a pandemia, os jovens que se conseguiram matricular descobrem que este suporte de vida está mais longe devido ao encerramento das escolas.

“Para mim, você é grego”
Os migrantes adolescentes perdem muitas vezes anos de escolaridade devido aos seus percursos de vida. Muitos são analfabetos – nunca usaram um lápis e não sabem ler na sua língua nativa, muito menos na língua do seu novo país.

Estas pessoas precisam de uma educação básica para encontrar emprego e, assim, evitar as redes criminosas que atacam os menores de idade mais vulneráveis. “Se não aprenderem grego na escola”, explica Olga Kalomenidou, professora que se voluntariou para trabalhar em abrigos de refugiados perto de Thessaloniki, “aprendem na prisão”.

Antes do surto de coronavírus, dezenas de migrantes e refugiados reuniam-se na estação de comboios de Thessaloniki, na Grécia, na esperança de que os comboios de carga os levassem para a Europa Ocidental.

Fotografia de Alexandros Avramidis

A escola também os ajuda a ambientar a um mundo novo. “A escola é o lugar onde se integram numa nova cultura, e onde se prevê as probabilidades de sucesso que poderão ter”, diz Frosso Motti-Stefanidi, especialista em educação de crianças migrantes na Universidade Nacional Kapodistrian de Atenas.

Para muitos destes jovens, esta será a primeira vez em que se sentam ao lado de colegas de outra nacionalidade, raça, género ou orientação sexual. Isto significa que precisam de aprender a estabelecer a sua identidade, que geralmente engloba algo de híbrido entre o antigo e novo.

Em Berlim, numa escola para migrantes recém-chegados no distrito multicultural de Kreuzberg, as colegas de turma intimidaram Alia Basal, uma refugiada síria de 16 anos, para não usar o hijabe. “Eventualmente, nós escolhemos o nosso caminho”, diz Basal. “Temos de lutar para conseguirmos o que queremos.”

Mohamad Marof, sírio de 18 anos, encontrou uma forma de vingar na pequena cidade grega de Platanakia, onde um professor de uma escola profissional o acolheu. Mohamad recorda-se orgulhosamente das palavras que um habitante mais velho da cidade lhe disse: “Você fala grego, você estuda... para mim, você é grego.”

“Os únicos adultos em quem podem confiar.”
Os professores mais dedicados, como o de Mohamad, são cruciais para os migrantes adolescentes.

Nos EUA, quando a escola do segundo e terceiro ciclo da professora Sandra Aparicio, em Phoenix, no Arizona, mudou para o ensino à distância, apenas 5 dos seus 85 alunos de inglês integrado participavam nas aulas online, e isto pode ser uma luta para quem está a aprender um novo idioma ou que tem acesso limitado a tecnologia. A professora passou dias a tentar contactar os pais.

“Eu estava mais ocupada do que um call center”, diz Sandra sobre o trabalho que teve para ajudar os pais a criarem senhas de acesso online e dos esforços que fez para os pais pedirem carregadores emprestados quando perdiam os que vinham com os tablets fornecidos pela escola.

“Se eu lhes telefonar, eles fazem o que for necessário”, diz Sandra. “Não vou desistir.”

Passado cerca de um mês, a sua persistência começou a dar frutos: mais de metade dos seus alunos já trabalhava online e cerca de uma dúzia de estudantes participava nas reuniões virtuais semanais – inicialmente, só dois estudantes é que participavam.

Sandra Aparicio era uma adolescente quando saiu do México para ir viver com a sua mãe nos Estados Unidos. Quando Sandra viu um dos seus alunos a usar uma tomada elétrica na sala de aula para carregar a pulseira das autoridades de imigração, não mencionou que também ela já tinha usado uma pulseira semelhante. Sandra não queria que as crianças tivessem receio de que também ela fosse obrigada a partir.

“Somos os únicos adultos em quem podem confiar”, diz Sandra. “O professor é o único adulto a quem dão ouvidos.

“O potencial desaparece de um momento para o outro.”
Mesmo antes da pandemia, os migrantes adolescentes já estavam sob uma pressão esmagadora para abandonar a escola e ganhar dinheiro – para pagar dívidas de contrabando, enviar remessas para as suas famílias, para ajudar os irmãos mais novos, para sobreviver. Os níveis brutais de desemprego devido ao coronavírus só vieram exacerbar este problema.

Na América Central, as famílias hipotecam as suas casas e terrenos com taxas usurárias para pagar dividas de contrabando. Estas despesas são tão elevadas que só os salários ganhos nos EUA as conseguem cobrir – de acordo com Richard Lee Johnson, investigador da Universidade do Arizona. E os adolescentes dizem que os contrabandistas, nas terras altas do norte da Guatemala, em Huehuetenango, um epicentro de migração, cobram agora o equivalente a 12 mil dólares. Isto deixa a maior parte das crianças que chega aos Estados Unidos sem outra opção a não ser abandonar a escola, seguindo diretamente para trabalhos ilegais na agricultura ou na construção civil.

Olman, hondurenho de 19 anos que completou o ensino até ao nono ano, sabia que, quando finalmente chegasse aos Estados Unidos, não iria frequentar a escola – iria procurar emprego. (Olman pediu que se utilizasse apenas o seu primeiro nome.) Tem a sua mãe e três filhos para sustentar. Ainda assim, quando ficou durante alguns dias no abrigo Casa del Migrante, em Saltillo, no México, frequentou as aulas de inglês oferecidas na cantina do abrigo. Olman aprendeu com muita dificuldade a dizer “tenho fome” e “frango, peru, porco”, para além de “estou à procura de emprego” e “jardineiro”.

No Médio Oriente, as raparigas refugiadas não saem de casa para encontrar trabalho. Em vez disso, são forçadas a aliviar os encargos financeiros das suas famílias com casamentos precoces que incluem dotes. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) informa que, na Jordânia, onde os refugiados representam 20% da população do país, a taxa de casamentos de refugiadas sírias menores de idade aumentou dramaticamente devido à guerra civil e ao desespero dos refugiados.

Migrantes que passaram a noite no abrigo Casa del Migrante, em Saltillo, no México, caminham pelos caminhos de ferro nas proximidades. Alguns esperam apanhar um comboio de carga até à fronteira com os Estados Unidos; outros estão a regressar a casa depois de tentativas falhadas.

Fotografia de Nick Oza

As noivas adolescentes abandonam quase sempre a escola, diz Robert Jenkins, antigo representante da UNICEF na Jordânia. “O potencial desaparece de um momento para o outro.”

Wafa, de 19 anos, foi forçada pelos pais a casar aos 14 anos. O seu marido, um homem mais velho, abusou e divorciou-se dela. (Wafa pediu que se utilizasse apenas o seu primeiro nome.) Agora, Wafa e os seus dois filhos regressaram à casa da família em Amã onde partilham um apartamento sem mobília com uma dezena de familiares. A mãe de Wafa diz que lamenta o sucedido: “Pelos menos antes só tinha uma filha [para alimentar], mas agora também há as duas crianças.”

Neste apartamento sobrelotado, a filha de Wafa agarra-se ao vestido preto da mãe. Quando questionada se consideraria casar a sua filha em tenra idade, Wafa responde imediatamente em inglês que não, acrescentando em árabe: “Nem que eu tenha de mendigar na rua para a alimentar.”

Um mau negócio
Para além das dificuldades financeiras, praticamente todos os adolescentes que fogem dos seus países colocam as vidas nas mãos de contrabandistas, ficando assim expostos ao mundo do crime organizado. Desde as fronteiras até aos portões das escolas, os adolescentes são pressionados para venderem substâncias ilícitas, ou o corpo, e alguns até se tornam contrabandistas.

Um afegão de 17 anos recebeu uma proposta de um contrabandista onde obteria um desconto de 1.500 euros na sua própria travessia se remasse num barco que transportava uma dezena de migrantes pelo rio Evros, que separa a Grécia e a Turquia. Mas acabou por ser um mau negócio – o adolescente foi detido com acusações de tráfico de seres humanos e foi preso na Grécia no ano passado. (As autoridades prisionais gregas pediram para a sua identidade não ser revelada como uma condição para a entrevista.)

O pai destas crianças não pode trabalhar e a mãe é analfabeta, mas os filhos da família Al Razzaq, com idades entre os seis e os 13 anos, ainda frequentavam a escola antes da pandemia. Se não fosse a ajuda financeira do programa Hajati da UNICEF, estes jovens refugiados sírios provavelmente teriam de trabalhar para sustentar a família.

Fotografia de Alexandros Avramidis

Por outro lado, pela primeira vez na sua vida, este jovem afegão pôde frequentar a escola – dentro da prisão. “Quero aprender coisas porque, se eu ficar aqui, preciso de saber falar grego.” Mas os confinamentos devido ao coronavírus na Grécia adiaram não só as aulas como a decisão do julgamento.

Do outro lado do mundo, em Houston, no Texas, pelo menos três gangues recrutam membros nas redondezas da Escola Las Americas Newcomer, de acordo com a diretora Marie Moreno. Quando as escolas encerraram em março devido à pandemia, dezenas de estudantes não participaram nas aulas online. Os professores da escola, que ensinam novos imigrantes com capacidades limitadas em inglês, tentaram localizar os alunos para os manterem envolvidos nas aulas à distância.

Um dos funcionários da escola que trabalha arduamente para envolver os alunos é Anuar Rodriguez Guerra, de 19 anos. Anuar começou a frequentar a Escola Las Americas Newcomer em 2014, depois de atravessar a fronteira para o Texas sozinho – vinha das Honduras para se juntar aos pais. Agora que Anuar terminou o ensino secundário, é funcionário na escola. E vê-se como um modelo para as crianças mais novas: “Quero provar-lhes que, se eu consegui, elas também conseguem. Eu não gostaria de ser como outras pessoas que são criminosos.”

O direito à educação
É este tipo de resiliência e esperança no futuro que anima Haneen, refugiada síria que, tal como Wafa, casou aos 14 anos. Haneen teve um bebé que foi levado pela família do seu marido e, eventualmente, divorciou-se. (Haneen pediu que se utilizasse apenas o seu primeiro nome por questões de segurança pessoal.)

Esta jovem de 18 anos vive com os pais e cinco irmãos num apartamento numa cave, em Zarqa, na Jordânia. Haneen diz que, depois de terem levado o bebé, mal conseguia comer durante semanas. Mas depois recuperou e lutou pelo seu direito à educação. Alguns diretores não queriam receber uma rapariga divorciada, mas ela encontrou uma escola que a aceitou. Haneen estava determinada em concluir os estudos para poder seguir o que diz ser o seu objetivo principal: “Independência”.

Mas isso agora vai ter de esperar – os trabalhos de casa feitos online nem sempre são entregues devido às falhas na ligação Wi-Fi – e Haneen passa a maior parte do tempo a ajudar a mãe a limpar e a cozinhar numa cozinha que não tem água corrente.

Quando Haneen recebeu a indemnização do divórcio, comprou uma câmara de fotografar profissional. Haneen espera em breve poder ter aulas de fotografia para depois levar a sua câmara para o deserto, para poder fotografar o vasto céu noturno repleto de estrelas.

 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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