Eles Eram Famosos – e Entregavam Correio

Antes de atingirem o estrelato, cantores, romancistas, atores e até um futuro presidente trabalharam para o Serviço Postal dos EUA.

Monday, August 24, 2020,
Por David Beard
Um selo postal dos EUA com a imagem do presidente americano Abraham Lincoln (1809 – 1865) ...

Um selo postal dos EUA com a imagem do presidente americano Abraham Lincoln (1809 – 1865) que foi emitido pela primeira vez a 19 de novembro de 1954.

Fotografia de Blank Archives, Getty Images

Abe Lincoln era um deles. O mesmo aconteceu com o escritor Richard Wright e a nadadora olímpica galardoada com a medalha de ouro Shirley Babashoff. Walt Disney e os cantores John Prine e Brittany Howard trabalharam para o Serviço Postal dos EUA durante algum tempo. E o romancista vencedor do Prémio Nobel William Faulkner era um funcionário tão desinteressado que foi demitido.

O Serviço Postal dos EUA, para além de ter sido um canal de comunicação ao longo da história do país, também ofereceu aos seus funcionários uma vasta experiência e uma compreensão mais aprofundada sobre a América.

O Serviço Postal tem quase 500 mil funcionários e tem sido uma porta de entrada para o mercado de trabalho, ou até uma plataforma de salvação para dezenas de criativos ao longo dos anos. Charles Bukowski foi carteiro em Los Angeles durante mais de uma dezena de anos, antes de começar a escrever, aos 50 anos, o seu primeiro romance. O título do livro? Estação dos Correios. E Richard Wright foi um de vários afro-americanos que encontraram emprego estável nos correios quando muitos dos outros setores lhe fecharam as portas devido à discriminação.


Quando Wright se tornou carteiro temporário em Chicago, “a minha confiança disparou”, escreveu ele na sua autobiografia, Black Boy. “Ganhava setenta cêntimos à hora e já podia ir para a cama todas as noites com o estômago cheio.” Depois de passar no exame postal no final da década de 1920, Wright começou a ganhar mais dinheiro, trabalhando durante a noite e escrevendo ficção experimental durante o dia.

Décadas mais tarde, quando o organizador comunitário Barack Obama chegou a Chicago, tentou imaginar Richard Wright e a glória da cidade naquela altura, incluindo como teria sido cruzar-se com Wright. “O carteiro que vi era Richard Wright, estava a entregar correspondência antes de vender o seu primeiro livro”, escreveu Obama no seu livro de memórias de 1995, Dreams from My Father. (O Serviço Postal dos EUA emitiu um selo comemorativo de Wright em 2009.)

Para o veterano do exército e futuro cantor John Prine, transportar correspondência pelos subúrbios de Chicago durante três anos permitiu-lhe ver um mundo que seria mais tarde capturado de forma sincera nas suas canções. A última música que Prine gravou, I Remember Everything, foi tocada recentemente na Convenção Nacional Democrata juntamente com uma montagem de algumas das mais de 173 mil pessoas que faleceram até agora nos EUA devido ao novo coronavírus. (Prine morreu de complicações de COVID-19 em abril.)

Quando era um jovem carteiro, Prine dava ocasionalmente boleia a crianças na sua sacola de correio, quando esta já estava vazia, no final da rota. E cumprimentava os residentes de uma casa de repouso que aguardavam ansiosamente pelo correio, uma experiência das suas rondas diárias que se transformou na canção Hello In There. O crítico Roger Ebert ficou maravilhado com um programa de 1970 onde participou o Carteiro Cantor de 23 anos: “Interrogamo-nos como é que alguém pode ter tanta empatia e ainda estar ansioso pelo seu 24º aniversário no sábado.”

Algumas lendas começaram a trabalhar nos correios depois de terem conquistado a fama noutro lugar. O campeão de pesos pesados da WBA, Mike Weaver, começou a trabalhar nos correios em 1999, depois de terminar a sua carreira no boxe. A melhor nadadora da América da década de 1970, Shirley Babashoff, trabalhou durante três décadas como carteira em Huntington Beach, na Califórnia. Sem muitos patrocínios depois de terminar a carreira de nadadora, o emprego nos correios deu-lhe condições para criar um filho enquanto mãe solteira. E também lhe deu tempo para escrever sobre a batalha que travou contra as nadadoras da Alemanha Oriental carregadas de esteroides nos Jogos Olímpicos de 1976: Making Waves: My Journey to Winning Olympic Gold and Defeating the East German Doping Program.

Shirley Babashoff é um dos muitos funcionários dos correios que fizeram história, para além de a entregarem. Os habitantes do sul da Califórnia viram Babashoff durante décadas na sua rota dos correios, mas antes disso, ela foi uma nadadora olímpica que ganhou a medalha de ouro; aqui fotografada depois de vencer o Campeonato Mundial de 1975 nos 200 metros livres.

Fotografia de PETER READ MILLER, SPORTS ILLUSTRATED/GETTY IMAGES (ESQUERDA) E NEIL LEIFER, SPORTS ILLUSTRATED/GETTY IMAGES (DIREITA)

Muitos dos famosos começaram cedo e seguiram em frente. Walt Disney trabalhou como substituto nas entregas quando era jovem, assim como os atores Rock Hudson e Sherman Hemsley. Antes de participar em The Office, Steve Carrell trabalhou para os correios. E antes de Bill Nye ser um homem da ciência, era um homem dos correios. Brittany Howard, antes de tocar e cantar na banda Alabama Shakes, era assistente de transportes no Alabama rural.

Ao que tudo indica, Abraham Lincoln, de vinte e poucos anos, fez um bom trabalho enquanto chefe dos correios em New Salem, no Illinois, na década de 1830. Se um destinatário não conseguisse recolher a sua correspondência na estação dos correios, Lincoln iria entregá-la pessoalmente, de acordo com o Serviço Postal dos EUA.

Mas não foi assim com William Faulkner, desistente do ensino secundário, amante rejeitado e chefe negligente dos correios da Universidade do Mississippi, de 1921 a 1924.

Faulkner concentrou-se em ler e escrever durante as horas de expediente, muitas vezes sentado nos sacos de correspondência por classificar. Ele deixava a correspondência numa lata do lixo para as pessoas a classificarem. Faulkner reconheceu abertamente que foi despedido porque se recusou a “estar à disposição de todos os sacanas que queriam comprar um selo de dois cêntimos”. Ele chegou até a dedicar uma cópia do seu primeiro livro, The Marble Faun, ao inspetor dos correios que o demitiu – e agradeceu-lhe.

Os membros da sua família acharam divertido quando o Serviço Postal dedicou um selo comemorativo a Faulkner em 1987. A sua sobrinha, Dean Faulkner Wells, disse: “Acho que ele iria ficar encantado com a ironia de tudo isto”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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