Quando Uma Doença Mortal Assolou Uma Cidade no Alasca, Um Cão Salvou o Dia – Mas a História Aclamou Outro Cão

Um novo filme narra um ato de heroísmo durante um surto. Neste artigo, a estrela Willem Dafoe descreve como foi colocar um rosto na essência de um homem – e, quase um século depois, Togo recebe finalmente o devido reconhecimento.

Wednesday, August 26, 2020,
Por Simon Ingram
Leonhard Seppala com os seus cães de trenó

Leonhard Seppala com os seus cães de trenó, em 1925. Togo (o primeiro cão da esquerda) e Seppala são o tema de um novo filme que narra a “corrida ao soro” de 1925.

Fotografia de CARRIE MCLAIN MUSEUM / ALASKA STOCK

Parece algo que Jack London poderia ter inventado. No pico do inverno, uma doença mortal atinge as crianças de uma pequena cidade no Alasca, uma cidade cercada por um mar gelado e um deserto coberto de neve. A única esperança dos habitantes residia num plano modesto que passava pelo resgate de medicamentos de uma estação ferroviária que ficava a centenas de quilómetros de distância, para além das montanhas, através de enseadas congeladas e durante uma tempestade... um plano que envolvia trenós puxados por cães.

Mas esta fábula não é ficção. A Corrida ao Soro de 1925, como é chamada por quem a conhece, foi um evento com importância suficiente para merecer uma estátua no Central Park de Nova Iorque – um espaço partilhado com outras 29 comemorações artísticas, entre elas as representações de Cristóvão Colombo, as personagens de Shakespeare e de Alice no País das Maravilhas, e um memorial de John Lennon.

É a estátua de um cão, de corpo imponente e pose heroica, que as crianças adoram escalar. É um testemunho da lealdade, tenacidade e do dever para com um bem maior. O nome do cão, esculpido na base da estátua, diz Balto. Mas provavelmente devia dizer outra coisa.

Esta história de um heroísmo um tanto ou quanto sonegado – e uma história que é a própria definição de triunfo contra todas a probabilidades – forma a base de Togo, um novo filme original do Disney+ que conta uma história familiar, mas com alguns nomes desconhecidos. Um dos nomes é o do cão que dá título ao filme e que talvez mereça uma estátua de bronze para as crianças escalarem; o outro é o nome do seu dono, Leonhard Seppala, um imigrante norueguês que fracassou na prospeção de ouro e que virou as suas atenções para a criação de cães.

(A The Walt Disney Company é proprietária maioritária da National Geographic Partners.)

A estátua de Balto em Central Park, Nova Iorque. A placa na estátua é dedicada à ‘resistência, fidelidade e inteligência’ dos cães de trenó da corrida ao soro. O artista Frederick Roth e o próprio Balto estiveram presentes na sua inauguração em 1925.

Fotografia de ANTOINE BOUREAU / PHOTONONSTOP / ALAMY

Nenhum dos nomes é conhecido o suficiente, inclusive para Willem Dafoe – o ator que interpreta Seppala, um homem que ele ainda não conhecia. “Eu conhecia a história básica da corrida do soro”, disse Dafoe à National Geographic UK. “Mas a história de Leonhard Seppala e Togo, nem por isso. Geralmente, quando as pessoas conhecem a história, conhecem Balto.” A questão é, porquê?

Terror no isolamento
A cidade de Nome, no alto da costa oeste do Alasca, no Mar de Bering, é uma cidade fronteiriça construída à volta do ouro e do comércio de peles. Fundada em 1901, Nome está mais perto da Sibéria do que da maior cidade deste estado norte-americano, Anchorage. E esta localização remota apresentaria um cenário de pesadelo quando, em 1925, uma doença começou a assolar as crianças da cidade. Quando as autoridades descobriram que não se tratava apenas de um caso grave de amigdalite, já era tarde demais; era difteria.

A difteria, uma infeção bacteriana contagiosa que ataca o sistema respiratório superior e provoca inchaço nos tecidos da garganta, pode ser mortal. Foi o que aconteceu em Nome, quando, no final de dezembro, duas crianças de Iñupiaq sucumbiram à doença, e foi quando descobriram que as únicas reservas de antitoxina disponíveis no pequeno hospital já tinham passado da validade. No dia 24 de janeiro, sabia-se que quatro crianças tinham morrido – mas presume-se que nas comunidades vizinhas do Alasca morreram mais. Num telegrama enviado para Anchorage, o médico de Nome, Curtis Welch, que tinha implementado uma quarentena, enviou um pedido para o envio de um milhão de unidades de antitoxina – afirmando que “uma epidemia de difteria é quase inevitável”.

Nome em 1916. A população de Nome aumentou exponencialmente em 1899, quando foi encontrado ouro. A localidade tornou-se cidade em 1901, com cerca de 12.500 habitantes.

Fotografia de CREATIVE COMMONS / WIKIMEDIA

Front Street, em Nome, nos tempos modernos. A cidade é a meta da famosa Corrida de Iditarod, que foi em parte inspirada pela corrida ao soro de 1925. Quando a corrida ao ouro abrandou, a população de Nome também diminuiu. A cidade tinha cerca de mil habitantes quando surgiu o surto de difteria – embora se estime que vivessem mais de nove mil nativos do Alasca em povoações de risco fora da cidade.

Fotografia de P.A. LAWRENCE, LLC. / ALAMY

O facto de este surto já ter precedentes tornou tudo ainda mais aterrador. “Na história do Alasca, o surto de difteria de 1925, em Nome, foi apenas um de uma série de epidemias na região”, diz David Reamer, historiador e escritor do The Anchorage Daily News – que escreveu extensivamente sobre a história das doenças no Alasca. “Nome e as aldeias indígenas vizinhas foram de longe as comunidades mais afetadas pela pandemia de gripe de 1918 e 1919 – a chamada “gripe espanhola”. Morreram centenas de pessoas na região, incluindo bebés que morreram congelados ao colo das mães que sucumbiram à gripe”, diz Reamer. “Este horror, apenas sete anos antes, estava bem vivo na memória de todos – e certamente na mente dos habitantes de Nome, enquanto assistiam à propagação de difteria entre os seus filhos.”

Entre algumas das piores condições de inverno em décadas e temperaturas negativas, ficou claro para as autoridades da cidade que o transporte de um pequeno mantimento de antitoxinas para o Alasca através de meios convencionais seria demasiado lento ou impossível, antes de a doença assolar toda a cidade. O porto estava congelado e os aviões não podiam voar em segurança no frio, muito menos aterrar. Sem nenhuma outra forma de atravessar os 1080 quilómetros que separavam Nome da estação ferroviária de Nenana – uma rota que normalmente os correios demoravam um mês a atravessar – as autoridades voltaram as suas atenções para um criador de cães e campeão de corridas de trenó chamado Leonhard Seppala.

A própria história de Seppala estende-se ao longo de muitos quilómetros. Este imigrante norueguês, conhecido por Sepp, tinha viajado originalmente para o Alasca à procura de ouro, e trabalhou numa mina de ouro. Desiludido com o trabalho, começou a trabalhar por conta própria, fazendo a manutenção das valas de água da mina e transportando mercadorias e passageiros entre os campos com trenós puxados por cães – e com um pupmobile projetado para andar nas linhas férreas.

“É uma personagem de um determinado período na história”, diz Dafoe, cuja representação de Seppala em Togo mereceu rasgados elogios. “Ele faz-me lembrar homens que eu conheci na minha vida, como o meu pai. As pessoas diziam que ele era um tipo muito pragmático. Não era reservado, era apenas pragmático. É aquele espírito de quem vive na fronteira – dependemos apenas de nós próprios, somos autossuficientes, precisamos de aprender as coisas por nós. E precisamos de cuidar de nós próprios sem receber caridade de ninguém.”

Estimulado pelo trabalho e encarregado da formação e manutenção de cães na mina, Seppala encontrou a sua vocação. Graças à ligação que mantinha com o proprietário da mina, Seppala foi contratado para treinar uma equipa de crias de cães de trenó para uma expedição que tinha como objetivo chegar ao Polo Norte a partir do Alasca – feita pelo explorador norueguês Roald Amundsen. Quando surgiu a ameaça da Primeira Guerra Mundial, a expedição foi abandonada – e os cães treinados para a expedição foram oferecidos a Seppala.

Leonhard Seppala fotografado com os seus “Corredores Siberianos” em 1916 (em cima) e em 1923 com o explorador norueguês Roald Amundsen. Amundsen foi o homem que derrotou Robert Falcon Scott na corrida para chegar à Antártida em 1911 – e para quem, em 1914, Seppala tinha treinado uma equipa de cães para uma expedição ao Polo Norte. A expedição foi cancelada e Seppala foi presenteado com os cães.

Fotografia de CREATIVE COMMONS

As corridas de trenó eram uma atividade colateral natural para quem trabalhava com cães – e que envolviam não só os malamutes-do-alasca, ou husky (uma adaptação de esky, abreviatura para esquimó), como os cães siberianos mais leves que foram levados para o Alasca pelos Chukchis em 1908. Apreciados pela sua resistência e inteligência, o vigor e a capacidade de propulsão destes cães tornaram-nos no mecanismo perfeito para atravessar terrenos inóspitos. Os cães destinados à expedição de Amundsen eram huskies siberianos, e Sepp – agora na posse da sua própria equipa de cães – começou a competir nas corridas do Alasca. A partir de 1915, Seppala venceu três All Alaska Sweepstakes consecutivas, uma corrida de 656 quilómetros em terreno aberto entre Nome e Candle, seguindo a rota da linha telegráfica. As vitórias de Seppala foram creditadas aos seus cães de estatura mais leve – “ratos siberianos”, como eram amarguradamente chamados pelos outros concorrentes. Isso e os instintos do cão à frente do arnês que, para Seppala, rapidamente se iria evidenciar.
 

O ‘desfavorecido’ original
Com um nome que homenageia Heihachiro Togo, um famoso almirante japonês, Togo nasceu em 1913, e nas corridas de cães de trenó não parecia ser inicialmente muito promissor. Togo tinha uma cor manchada que fazia o seu pelo parecer sujo, e quando era pequeno foi cuidado pela esposa de Seppala, Constance, devido a uma condição na garganta: circunstâncias que podem ter resultado na sua constituição mais pequena, e na disponibilidade incondicional e lealdade profundamente enraizada para com o seu dono. Togo fugia frequentemente para correr atrás de Seppala, quando este ia trabalhar nos treinos de cães ou fazer outras tarefas. Considerado um incómodo, foi entregue aos sete meses de idade a uma amiga como animal de companhia, mas Togo fugiu novamente e regressou para casa. Nesse momento, Seppala reparou numa virtude do cão: a sua determinação e talento para encontrar a distância mais curta entre dois pontos.

O norueguês Leonhard Seppala fracassou na prospeção de ouro e virou as suas atenções para a criação e treino de cães de trenó. No filme Togo, é interpretado pelo ator norte-americano e nomeado ao Oscar Willem Dafoe.

Fotografia de ALAMY / DISNEY

Dafoe, cuja representação em Togo no papel de Seppala foi bastante elogiada, acredita que o norueguês viu algo de si próprio no cão. “Seppala era muito determinado. Fisicamente tinha uma estatura pequena, era imigrante e teve algumas deceções na vida. Ele projetava este tipo de paralelo no Togo, que era uma espécie de desfavorecido. O Togo era demasiado pequeno, indisciplinado, e foi basicamente chamado de fracasso. Talvez Seppala se tenha identificado com isso.”

Seppala, embora possa ter sido um prospetor de ouro fracassado, acabou certamente por encontrar o seu próprio nicho vencedor. “Eu acredito que é sempre muito útil quando interpretamos uma personagem que tem uma ação central, uma especialização, paixão ou profissão”, diz Dafoe. “Eu sinto que o caminho para entrar nas personagens é aprender a fazer o que elas faziam, ou abordar a sua mentalidade da forma mais prática possível.”

Em Togo, isso significou tomar as rédeas – e obter uma noção física da profissão escolhida por Seppala. “Nós pensamos que isto parece muito simples... um tipo sentado e os cães fazem o trabalho todo...” diz Dafoe a rir. “Mas é um bocado mais complicado do que isso. É preciso conhecer os cães, ajustar a tensão das rédeas, lidar com o desconforto, o frio, o equilíbrio, a leitura do terreno – envolve muita coisa. É preciso ter um caráter resistente.”

O verdadeiro Togo (esquerda) vive na linhagem dos huskies siberianos de Seppala – os proprietários geralmente tentam rastrear a genealogia dos seus cães até ao seu antepassado heroico. Um destes cães, Diesel (direita), um husky siberiano de 5 anos de idade que é descendente direto de Togo, aparece no filme.

Fotografia de CREATIVE COMMONS / DISNEY

Cansado das fugas constantes de Togo, Seppala deixou-o finalmente correr com a equipa – primeiro na parte de trás da matilha, e depois subindo até atingir a liderança, onde Togo acabou por brilhar. Em The Cruellest Miles, de Gay e Laney Salisbury, Seppala é creditado por ter dito que no Togo “tinha encontrado um líder nato... algo que tinha tentado procriar há anos”. Os dois iriam tornar-se inseparáveis – e nos anos que se seguiram, em várias expedições, salvariam a vida um ao outro.

‘A Grande Corrida de Misericórdia’
Quando ocorreu o surto de difteria, Seppala já era famoso por todo o Alasca, e era conhecido como o “rei dos trilhos” – com o astuto e diminuto Togo igualmente venerado. Na noite de 24 de janeiro de 1925, Seppala foi convocado pelas autoridades de Nome para liderar aquilo que, na hipérbole de muitos dos subsequentes títulos de jornais, ficaria conhecido por “A Grande Corrida de Misericórdia”. Com uma viagem de ida e volta a rondar mais de 2 mil quilómetros a ser irrealista para uma só equipa, os frascos da antitoxina para a difteria, as únicas 300 mil unidades disponíveis no Alasca, seriam transportados numa espécie de corrida por estafetas feita por várias equipas de cães de trenó, de Nenana até Nome, através de um ponto intermédio que ficava em Nulato – ambas as secções exigiam uma viagem de ida e volta de mais de 965 quilómetros.

Os perigos eram consideráveis. Com Seppala encarregado das secções mais traiçoeiras a partir de Nome, ele seria forçado a atravessar a costa de Norton Sound – que tem o apelido arrepiante de “fábrica de gelo”. Este atalho, que cortava um dia de viagem, era a secção mais perigosa do percurso e estava repleta de ventos fortes e blocos de gelo instáveis que eram afiados como uma navalha. Era uma secção que muitos conheciam, mas que só Seppala, com os instintos de Togo para o perigo e terreno acidentado, conseguiam atravessar. Mas mesmo assim era uma tarefa difícil: Togo já tinha 12 anos nessa altura.

Seppala partiu no dia 27 de janeiro. À medida que o surto e as condições pioravam, e sem que Seppala soubesse, os planos já de si difíceis de concretizar foram alterados a meio do caminho – muitas vezes com riscos consideráveis de se perder um encontro entre as equipas de estafetas nas cabanas rústicas, que eram a única zona de pausa no trajeto. Foram acrescentadas equipas adicionais para aliviar a tensão e acelerar o trânsito dos medicamentos – ampolas embrulhadas em peles e seladas dentro de um recipiente de metal – à medida que o surto piorava em Nome.

O progresso dos estafetas a partir de Nenana aconteceu mais depressa do que o esperado. Por sorte, Seppala intercetou o soro que era trazido pela equipa de Henry Ivanoff, nos arredores de Shahtoolik – e regressou para Nome em condições ainda piores.

“É preciso ter um caráter resistente.” Willem Dafoe no papel de Leonhard Seppala em Togo.

Fotografia de DISNEY ENTERPRISES LTD

“Todas as pessoas querem ser úteis algures. Penso que este foi o seu momento, onde ele sentiu que isto era algo que tinha de tentar fazer.”

por WILLEM DAFOE

As temperaturas estavam perto dos 35 graus negativos, com ventos gelados a atingirem uns cruéis 65 graus negativos. Seppala estava habituado a confiar nos instintos de Togo quando não conseguia ver o caminho por causa dos ventos e da neve profunda. Mas devido ao desgaste completo de Seppala e dos seus cães, foi forçado a parar em Golovin – faltando ainda 125 quilómetros até Nome. A sua equipa já tinha percorrido um total de 420 quilómetros – incluindo duas travessias através de gelo instável em Norton Sound. Charlie Olsen, com a sua equipa de cães, transportou a antitoxina até cerca de 80 quilómetros de Nome, onde Gunner Kaasen estava à espera com uma equipa de 13 cães – liderada por Balto.

A fama resultante de Balto, juntamente com a de Kaasen, foi um resultado infeliz, ainda que involuntário.

A viagem de 1080 quilómetros da antitoxina demorou cinco dias e meio – um recorde mundial. Este recorde foi enfatizado pela recente chegada do rádio à região centro da América, tornando a história do soro num fenómeno. Em Nome, morreram apenas cinco ou sete pessoas – embora o número de mortes fora da cidade não tenha sido registado e provavelmente tenha sido maior. No entanto, estava claro que se tinha milagrosamente evitado um mal maior. A história ficou famosa – e os seus heróis também.

Balto foi o cão que fez a parte final do percurso até Nome e permitiu realmente a Kaasen entregar a antitoxina, no dia 2 de fevereiro. Um simples olhar pela quilometragem seria suficiente para dissipar quaisquer confusões: os cães Balto e Fox, com Kaasen, cobriram 80 ou 90 quilómetros – as fontes variam – enquanto que Seppala, com Togo, transportaram o soro ao longo de 146 quilómetros por terreno muito mais técnico e perigoso. No total de ida e volta, Togo percorreu 420 quilómetros; Balto, pouco mais de 160.

Gunnar Kaasen com Balto, o cão na linha da frente da equipa que fez a secção final de 80 quilómetros para levar a antitoxina para a difteria até Nome, em 1925. Enquanto mensageiros finais na entrega do soro, tornaram-se ambos celebridades – com Balto inspirando uma estátua, vários livros, um documentário dramatizado e um filme de animação.

Fotografia de BROWN BROTHERS / WIKIMEDIA COMMONS

Mas o público precisava de algo para venerar – e sendo a costa de Nome fotogénica, a imprensa garantiu que Kaasen e Balto seriam os sujeitos dessa veneração. Foram as suas imagens que apareceram nas primeiras páginas dos jornais e foram os seus nomes que se transformaram em lenda – eclipsando de certa forma não só Togo e Seppala, mas também as outras 18 pessoas e cerca de 150 cães que participaram na tarefa. “Em termos mais amplos, a fama de Balto obscurece a de todos os outros”, diz David Reamer, “incluindo muitos dos nativos do Alasca cujas contribuições foram muito mais esquecidas”.

Um cão é finalmente reconhecido
Kaasen e Balto tiveram o seu mérito nas secções que percorreram: apesar de modestas em termos quilometragem, as condições eram tão más que Kaasen, que fez a viagem durante a noite, mal conseguia ver os cães. A determinada altura, o trenó capotou – e Kaasen precisou de andar pela neve à procura do recipiente da antitoxina, sofrendo queimaduras de gelo.

Porém, o competitivo Seppala não ficou feliz com a adulação em torno de Balto. Embora Seppala fosse o dono e tivesse sido ele a educar e a treinar o cão que Kaasen usou na sua equipa, Seppala sustentava que Balto era um “cão de mato” em comparação com o seu amado Togo – e que, de qualquer forma, Balto tinha sido o líder nos quilómetros finais em conjunto com um cão chamado Fox. Em 1927, o The New York Times aumentou ainda mais a confusão, quando publicou uma notícia com o título “Balto Não é o Cão Herói de Nome” – designando Fox como o verdadeiro herói da corrida ao soro. Sem nenhuma menção a Togo, o resto da notícia foi dedicado ao suposto paradeiro de Balto.

Mas a situação iria ter uma reviravolta cruel para Balto. Depois da corrida ao soro, para além da sua estátua em Central Park, entre outras coisas, Balto recebeu a chave (em forma de osso) da cidade de Los Angeles, participou num filme e fez uma viagem pelos Estados Unidos perante um público que o adorava. Mas quando Kaasen se cansou de todo este alarido e quis regressar ao Alasca, Balto e os seus cães companheiros foram vendidos – não se sabe por quem – para participarem em espetáculos do género Vaudevile. E Balto foi vítima de maus tratos até que um esforço de angariação de fundos garantiu os seus cuidados no Zoo de Cleveland, onde viveu o resto da vida.

Embora diminuta, a estátua de Togo de 2001, em Seward Park, Nova Iorque, dá ao cão uma presença na mesma cidade que é o lar da estátua muito maior de Balto.

Fotografia de DISNEY, INC

Realidade vs fábula
O nome de Balto ganhou fama, escreveram-se livros sobre ele, ergueram-se estátuas e até foi feito um filme de animação – onde Kevin Bacon deu voz ao animal – pelo que o historiador do Alasca David Reamer está satisfeito por ver que este novo filme consegue de alguma forma esclarecer as coisas. “O filme consegue corrigir uma injustiça histórica sem se perder em detalhes”, diz Reamer. “A história não precisava certamente de nenhum drama adicional.”

A corrida ao soro também inspirou a corrida de trenós mais famosa do mundo, a Iditarod – que percorre uma rota semelhante entre Nome e Nenana, antes de continuar para sul, até Anchorage. A linhagem de Togo continua nos huskies siberianos de Seppala, enquanto o próprio Togo “vive” atualmente na sede da Iditarod, em Wasilla, onde o cão de 107 anos – o seu pelo foi guardado por Seppala após a sua morte – está numa vitrine. Tanto o cão como a sua raça remontam a uma era da história do Alasca onde os cães de trenó eram vitais para a sobrevivência dos humanos na natureza.

“A literatura do Alasca está repleta de histórias sobre cães líderes natos como Togo... com uma capacidade quase estranha de avaliar obstáculos.” Escreveu Gay e Laney Salisbury em The Cruellest Miles. “Sem estes cães, muitos alasquianos acreditam que o Alasca não se teria desenvolvido.”

Para além disso, a corrida ao soro deixou outro legado – que, sem dúvida, salvou muitos milhares, ou até mesmo centenas de milhares de vidas na geração que se seguiu. “Numa época em que o fornecimento da antitoxina simplesmente não era viável por via aérea ou marítima – juntamente com a determinação e tenacidade para salvar os filhos de Nome – a história do trajeto por estafetas com trenós puxados por cães impulsionou a necessidade e a importância da vacinação”, diz Basil Aboul Enin, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres. “É uma história que continua a ecoar pelos anais da história de saúde pública.”

“É uma história que continua a ecoar pelos anais da história de saúde pública.” Nesta imagem vemos uma cena do filme Togo.

Fotografia de CHRIS LARGE / DISNEY ENTERPRISES

A questão em torno da estátua de Balto em Central Park também continua a ecoar. Em finais de 2019, a Change.org iniciou uma petição para se substituir a estátua de Balto por uma de Togo. Noutra zona de Nova Iorque, há uma pequena estátua de Togo de 2001, em Seward Park – parque que homenageia William Seward, Secretário de Estado dos EUA que comprou o Alasca à Rússia em 1868 – que foi recentemente transferida para uma posição mais proeminente, uma ação integrada num processo de renovação do parque.

Quanto ao filme, Willem Dafoe está confiante de que a história de Seppala e Togo vai para além da simples correção de uma usurpação que se descontrolou. “Vai significar coisas diferentes para pessoas diferentes, como tudo o resto. Acho que o mais importante é percebermos qual é o nosso lugar no mundo. A interdependência entre nós e a natureza, nós e os animais... isso pode levar a uma forma de viver melhor e a uma maior compreensão sobre as razões pelas quais estamos aqui.”

“Todas as pessoas querem ser úteis algures. E penso que este foi o seu momento, onde ele sentiu que isto era algo que tinha de tentar fazer. Penso que ele não teve escolha.”

Togo está disponível no Disney+ a partir de 15 de setembro.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.co.uk.

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