Cientistas Analisam ADN Para Explorar Raízes Genéticas dos Vikings

Embora os nossos conceitos modernos sobre estes antigos marinheiros pintem um quadro bastante homogéneo, a sua realidade era decididamente diversa.

Monday, September 21, 2020,
Por Erin Blakemore
Atores usam armaduras em preparação para um combate corpo a corpo durante o Festival de Eslavos ...

Atores usam armaduras em preparação para um combate corpo a corpo durante o Festival de Eslavos e Vikings de Wolin, na Polónia. Embora os vikings tenham captado a imaginação popular, a sua história é mais complexa do que muitos pensam.

Fotografia de David Guttenfelder, Nat Geo Image Collection

Na imaginação popular, os vikings eram guerreiros escandinavos robustos de cabelos louros que saqueavam as costas do norte da Europa em elegantes navios de guerra feitos de madeira. Mas, apesar das antigas sagas celebrarem aventureiros navegantes com linhagens complexas, há um mito moderno que permanece, o de que os vikings eram um grupo étnico ou regional distinto de pessoas com uma linhagem genética “pura”. Tal como o icónico capacete “Viking”, trata-se de uma ficção que surgiu na Europa durante os fervorosos movimentos nacionalistas em finais do século XIX. No entanto, este mito continua a ser celebrado até aos dias de hoje entre vários grupos de supremacia branca que usam a suposta superioridade dos vikings como uma forma de justificação para o ódio, perpetuando assim o estereótipo viking ao longo do caminho.

Agora, um estudo abrangente de ADN antigo, publicado no dia 16 de setembro na revista Nature, está a revelar a verdadeira diversidade genética das pessoas a quem chamamos vikings, confirmando e enriquecendo o que as evidências históricas e arqueológicas já sugeriam sobre este grupo cosmopolita e politicamente poderoso de comerciantes e exploradores.

Origens obscuras
Quem eram os vikings? A resposta nunca foi bem definida. O próprio termo “viking” é contestado; o termo em inglês tem origem numa palavra do nórdico antigo – víking – com uma variedade de significados que vão desde invasão e exploração a pirataria. Normalmente usado pelos povos que eram atacados, o termo descreve grupos de marinheiros escandinavos entre 750 d.C. e 1050 d.C. – o período agora conhecido como a Era Viking.

O ADN de um esqueleto feminino chamado Kata, encontrado num cemitério viking em Varnhem, na Suécia, foi sequenciado no estudo da Nature.

Fotografia de VÄSTERGÖTLANDS MUSEUM

Os artefactos vikings, como estas espadas e elmos vindos da atual Noruega, ajudam os arqueólogos a rastrear as antigas expedições deste povo.

Fotografia de MUSEU DE HISTÓRIA CULTURAL, UNIVERSIDADE DE OSLO, NORUEGA / EIRIK IRGENS JOHNSEN (ESQUERDA) E MUSEU DE HISTÓRIA CULTURAL, UNIVERSIDADE DE OSLO, NORUEGA / OVE HOLST (DIREITA)

O estudo da Nature reúne dados genéticos de 442 humanos cujos restos mortais datam de cerca de 2400 a.C. até 1600 d.C. – todos sepultados em áreas conhecidas de expansão dos vikings. Alguns estavam em lugares como a Gronelândia, para onde navegavam; outros foram enterrados com artefactos de estilo escandinavo como moedas, armas e até barcos inteiros.

Foi um desafio logístico reunir as centenas de amostras antigas, provenientes de mais de 80 sítios arqueológicos do norte da Europa, Itália e Gronelândia. Para além disso, também havia o desafio de analisar o grande volume de informações extraídas dos restos mortais. “Eu nem consigo imaginar os desafios computacionais deste conjunto de dados”, diz o geneticista evolucionista que liderou o projeto do genoma viking, Eske Willerslev, professor de ecologia e evolução na Universidade de Copenhaga e diretor de Centro de Excelência em Genética da mesma universidade.

Ligações distantes
A análise do ADN revelou que os vikings eram um grupo diverso, com linhagens de caçadores-coletores, agricultores e populações das estepes da Eurásia. A investigação também destaca três importantes pontos de foco de diversidade genética, zonas onde se misturavam com pessoas de outras regiões: um dos pontos de foco fica onde atualmente é a Dinamarca, e os outros nas ilhas de Gotland e Öland, onde atualmente fica a Suécia. Acredita-se que todos estes locais tenham sido focos de comércio na época.

Mas apesar de os vikings terem partido da – e em alguns casos regressado para – Escandinávia, a análise genética revela que não interagiram tanto dentro da grande região escandinava como o fizeram fora dela, misturando-se com uma vasta gama de povos que encontraram nas suas longas viagens.

“Com base na análise genética, fica muito claro que os vikings não eram um grupo homogéneo de pessoas”, diz Eske Willerslev. “Muitos são indivíduos mistos” com antepassados do sul da Europa e da Escandinávia, ou até mesmo com uma mistura de Sami (Escandinavo Indígena) e antepassados europeus.

Uma vala comum com cerca de 50 vikings decapitados em Dorset, no Reino Unido. Alguns destes restos mortais foram usados na análise de ADN publicada recentemente na Nature.

Fotografia de Dorset County Council, Oxford Archaeology

“Chegámos até a encontrar pessoas enterradas na Escócia com espadas e equipamentos viking, pessoas que geneticamente não são escandinavas.”

Eske também diz que os resultados provam que o fenómeno viking não era estritamente escandinavo. “Tem as suas origens na Escandinávia, mas espalha-se e associa-se a outros grupos de pessoas pelo mundo inteiro.”

Sem barreiras étnicas
Ao contrário do que poderíamos imaginar, os individuos analisados também não têm muito em comum com os escandinavos modernos. Apenas 15% a 30% dos suecos da atualidade partilham linhagens com os indivíduos estudados que viveram na mesma região há 1300 anos, sugerindo ainda mais migração e mistura de povos após a era viking. E nesta era, os próprios habitantes da região não tinham a aparência escandinava estereotipada: tinham, por exemplo, cabelos e olhos mais escuros do que um grupo selecionado aleatoriamente de dinamarqueses modernos.

Os dados genéticos confirmam o que os investigadores suspeitavam há muito sobre as evidências históricas e arqueológicas, que retratam os vikings como um grupo diverso, desvinculado de nação ou etnia. “É um estudo maravilhoso”, diz o arqueólogo Jesse Byock, professor da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, que lidera o Projeto Arqueológico Mosfell na Islândia. Jesse não participou na investigação, mas diz que esta “fornece novas informações, e também reforça quase tudo o que sabemos sobre a Era Viking.”

Davide Zori, professor assistente de história e arqueologia na Universidade Baylor, que também não participou no estudo, concorda com Jesse. “Estamos a começar a deixar de pensar nos vikings como um grupo de homens de barbas, de peito largo, cabelos louros e que pareciam todos iguais”, diz Davide. “De certa forma, nós já sabíamos isto pelas fontes.”

Para Miguel Vilar, antigo oficial sénior de programa da National Geographic Society, não é surpreendente que as descobertas pintem um quadro tão complexo sobre a herança viking – que vai contra as noções modernas de nacionalismo e identidade cultural. “O ADN nem sempre se encaixa bem nas noções [pré-concebidas]”, diz Miguel (que era o cientista-chefe do Projeto Genográfico da National Geographic Society e que não participou no estudo.)

Grupos de irmãos
Embora o alcance dos vikings fosse vasto, o estudo também revela laços de proximidade ao nível familiar. Numa sepultura em Salme, na Estónia, onde depois de uma batalha 41 suecos foram enterrados ao lado de dois barcos e respetivas armas, foram identificados quatro irmãos deitados lado a lado. Os investigadores também descobriram uma ligação familiar de segundo grau entre um viking num cemitério dinamarquês e outro em Oxford, Inglaterra – prova de como os membros de uma família se moviam durante a época.

Os vestígios de cemitérios vikings, como este local com sepulturas em forma de barco perto de Aalborg, na Dinamarca, fornecem evidências genéticas importantes para a compreensão dos antigos marinheiros.

Fotografia de Keenpress, Nat Geo Image Collection

Contudo, há uma questão que este vasto estudo de ADN não consegue decifrar: como é que o fenómeno viking começou. Se não era a etnia que unia estas pessoas, o que era? Seria a capacidade tecnológica para construir embarcações capazes de navegar e travar uma guerra eficazmente no mar, ou será que havia outros fatores em jogo?

“As pessoas podem adotar e adaptar-se a modos culturais dominantes de sobrevivência”, diz Davide. “Por alguma razão, ser viking era um dos principais modos para sobreviver e ter sucesso a nível económico e político.”

Com esta nova confirmação de que pelo menos 442 homens da Era Viking eram geneticamente diversos, os investigadores podem agora expandir a sua procura pelas raízes dos vikings. “Este é um estudo incrivelmente vasto, mas na verdade são apenas 450 esqueletos”, diz Jesse Byock. “É um grande primeiro passo.” Jesse espera que isto seja apenas o início de uma consideração mais ampla sobre a história genética desta era.

“Provavelmente é verdade que a genética é um pouco mais credível do que as sagas dos vikings”, acrescenta Davide. “Mas só o tempo e as investigações adicionais podem completar o quadro.”

Agora, o trabalho árduo de lidar com as implicações deste estudo massivo – e combinar as evidências textuais e arqueológicas com os novos resultados de ADN – pode começar. Ainda há muito para aprender sobre a forma como os catalisadores culturais a quem chamamos vikings viveram, como se movimentaram e o que aconteceu enquanto procuravam aventura e influência. “A migração tem sido desde sempre um fator na história da humanidade”, diz Davide. “Há mais material por aí.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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