Crianças Afro-Americanas Lidam com Verão Traumatizante que Culminou na Morte de Chadwick Boseman

“George Floyd e depois Jacob Blake, e agora as crianças regressam à escola e está tudo em convulsão social. E depois ainda perdem o Black Panther?”

Tuesday, September 15, 2020,
Por Alison Bethel McKenzie
Antes de falecer em agosto, Chadwick Boseman interpretou vários personagens icónicos, incluindo Jackie Robinson, Thurgood Marshall ...

Antes de falecer em agosto, Chadwick Boseman interpretou vários personagens icónicos, incluindo Jackie Robinson, Thurgood Marshall e, mais recentemente, Black Panther. Nesta imagem, Chadwick assiste à estreia europeia de Black Panther em 2018.

Fotografia de Gareth Cattermole, Getty Images/Disney

O meu sobrinho de 10 anos, William Ryan Cook, esperava há semanas pelo dia 28 de agosto. Era o dia em que o beisebol, o seu desporto preferido, iria celebrar através da Major League Baseball uma das suas pessoas favoritas: Jackie Robinson.

Mas naquela manhã, a mãe de William, Patricia, acordou-o para falar de outro assunto.

“Posso contar-te uma coisa que é triste?” perguntou ela ao filho na sua casa em Fort Lauderdale. “Sim”, respondeu ele. Foi então que Patricia lhe disse que outra das suas pessoas favoritas, Chadwick Boseman, o ator que interpretou Jackie Robinson no filme 42 e a icónica personagem da Marvel, Black Panther, tinha morrido. (A Marvel e a National Geographic são propriedade da The Walt Disney Company.)

“Foi apenas triste. Ainda demorei um minuto a processar aquilo”, disse William, que tinha muitas perguntas na sua cabeça. A mais prevalente: o que iria acontecer a Black Panther 2?

A morte de Chadwick aos 43 anos de idade, após uma longa batalha contra o cancro do cólon, é o mais recente golpe para as famílias afro-americanas – e crianças – num ano dominado por notícias traumatizantes: aumento dramático de mortes nas comunidades negras por COVID-19, encontros mortais entre afro-americanos e forças da autoridade, a morte repentina da estrela de basquetebol Kobe Bryant e as alterações nos planos escolares devido à pandemia. (Saiba mais sobre cancro e como começa.)

“Temos todas estas coisas a acontecer – George Floyd e depois Jacob Blake, e agora as crianças regressam para a escola e está tudo em convulsão social”, diz Patricia. “As crianças negras estão agora a apanhar [COVID-19], e depois ainda perdem o Black Panther?”

Lançado em janeiro de 2018, Black Panther foi o primeiro filme com um super-herói negro e representou a comunidade negra de uma forma que raramente é vista no grande ecrã. Wakanda, o país fictício governado por Black Panther, é o expoente do orgulho africano, lar de tecnologia que mais ninguém possui no mundo.

Os afro-americanos encheram as salas de cinema, muitas vezes com roupas de várias nações africanas. Black Panther tornou-se no terceiro maior sucesso de bilheteira de todos os tempos nos EUA e o décimo a nível mundial.

“É sobre muitas pessoas negras e sobre os seus direitos”, disse Olivia James, com 7 anos, de Alexandria, no estado de Virginia. “Fico feliz por ver um filme só com negros.”

“Quando eu e a minha família fomos ver o filme”, disse Olivia, “estávamos todos vestidos a rigor. Quando descobri que ele tinha morrido, fiquei com o coração destroçado. Ele é mesmo bom ator, ele estudou na Universidade Howard, e isso são coisas que significam muito para mim.”

A psicóloga Roselyn Aker-Black diz que Black Panther era “um símbolo da excelência que todas as crianças podiam aspirar a ser, sobretudo as crianças de cor. A representação dele enquanto rei criou a imagem de que nós, enquanto povo, éramos realeza, éramos inteligentes e mostrou simplesmente a excelência dos negros.”

As crianças afro-americanas têm testemunhado traumas a vários níveis, diz Merland Baker, conselheiro de saúde mental licenciado na Geórgia e na Flórida. “Ver homens negros a morrer na televisão – isso produz um trauma complexo. É algo que está entrelaçado de uma forma interpessoal, embora indireta, que entra na sua psique.”

Josiah Peck, de 12 anos, disse que para as crianças as inúmeras notícias traumatizantes “são demasiado peso sobre nós”.

Josiah, o mais velho de cinco irmãos, é viciado em notícias cuja primeira palavra é “Obama”. Ele foi o primeiro a contar à sua mãe, Sajanee Mack, sobre a morte de Chadwick Boseman.

“Ele disse que estava a dar na CNN”, disse Sajanee, que vive com os seus filhos em Gaithersburg, no estado de Maryland. “Eu disse que aquilo não devia estar correto. Mas estava. É demasiado pesado e tentamo-nos agarrar a qualquer coisa, tentamos permanecer positivos e seguir em frente, mas isto pode dar origem a depressão ou ansiedade sobre o que vai acontecer a seguir.”

“Descobrimos que um homem foi baleado e depois outro e outro”, acrescentou Sajanee. “É uma coisa constante.”

Brittany Beattie, proprietária do centro de Aconselhamento de Saúde Mental Spring Forward em Jacksonville, na Flórida, aconselha os pais a lembrarem aos filhos que o Black Panther ainda existe e que não devem projetar a sua própria dor nos filhos.

“O Black Panther e Wakanda podem ser tudo o que imaginámos que seria. O facto de Chadwick já não estar mais connosco não significa que o Black Panther já não existe”, disse Brittany. “Enquanto adultos, ainda estamos a dissecar isto. Devemos assegurar-nos de que não trazemos ao de cima sentimentos que os nossos filhos já ultrapassaram por si próprios.”

Karen James, mãe de Olivia, espera que as crianças afro-americanas aprendam valiosas lições de vida durante estes tempos difíceis. “É uma daquelas situações em que o que está a acontecer é real e verdadeiro”, disse Karen. “Torna-se num momento de aprendizagem que leva mais tarde a uma maior consciencialização.”

“Com a COVID, os protestos e a escola, é muita coisa para assimilar. Estas crianças são o mais importante nisto tudo. Elas nunca se chegaram a despedir dos professores. As crianças simplesmente saíram da escola e nunca mais regressaram.” Antes da COVID, diz Karen, as crianças afro-americanas “viviam num tipo diferente de Estados Unidos, eram orgulhosas e felizes, e tudo mudou. Elas estão a aprender lições mais depressa do que nós.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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