Em Myanmar, Todas as Pessoas Confiam Neste Cosmético Natural

As pessoas usam “thanaka” como um reforço de beleza. Diz-se que suaviza a pele, previne o aparecimento de rugas, evita queimaduras solares e também mantém os mosquitos afastados.

Publicado 8/09/2020, 16:30 WEST, Atualizado 5/11/2020, 05:59 WET
Mi Mi Shaw, 16 anos, trabalha numa loja de eletrodomésticos em Shwebo, Myanmar, e usa diariamente ...

Mi Mi Shaw, 16 anos, trabalha numa loja de eletrodomésticos em Shwebo, Myanmar, e usa diariamente uma camada de thanaka, uma pasta amarela feita de casca de árvore pulverizada.

Fotografia de Paul Salopek

PERTO DE SHWEBO, MYANMAR – Quando é que os humanos decoraram pela primeira vez a sua tela mais antiga: o corpo?

É impossível dizer. Os indícios primordiais – as peles dos povos da Idade da Pedra –transformaram-se em pó há muito tempo. Ainda assim, há vestígios que permanecem. Foi descoberto na África do Sul um mineral de cor vermelha chamado ocre, finamente moído e pronto para aplicação, dentro de uma concha de abalone com 100 mil anos. E outros achados arqueológicos sugerem que os pigmentos cosméticos eram usados por antepassados dos humanos há 250 mil anos. A vaidade é, de facto, muito antiga.


Hoje, em Myanmar, ou antiga Birmânia, este antigo impulso humano para a beleza pessoal continua exposto por todo o lado. Mulheres, homens e crianças de todas as origens usam thanaka, uma pasta amarela feita de casca de árvore pulverizada que é pintada de forma artística ou simples no rosto. (Veja como as pessoas em Myanmar usam thanaka.)

Ao contrário dos cosméticos industriais modernos, a pasta thanaka não foi feita para ser subtil, para esconder imperfeições ou acentuar características. É um símbolo evidente de saúde e beleza. E está presente em milhões de bochechas e testas para que todos possam ver. Os agricultores mais velhos e enrugados de Myanmar usam thanaka. As jovens funcionárias nas lojas urbanas desenham padrões estilizados na sua pele com a pasta. As crianças vão para a escola com camadas de thanaka apressadamente espalhadas nos seus rostos pelas mães.

Ar Kar Phyo, 6 anos, tem o rosto coberto por thanaka enquanto se dirige para o seu jardim de infância perto de Ye U.

Fotografia de Paul Salopek

“A pasta deixa a pele mais macia. Remove borbulhas e irritações”, explica U Nyo, de 55 anos, agricultor cuja propriedade está pontilhada por árvores thanaka, a fonte do popular bálsamo para a pele. “As árvores selvagens são as melhores, sobretudo as que foram plantadas por pássaros que comem frutos. As árvores cultivadas perdem o seu poder.”

U Nyo chega a comer uma colher de casca pulverizada todas as manhãs, acompanhada por um copo de água. É um elixir para uma boa saúde em geral, diz Nyo.

A primeira referência histórica a thanaka aparece num poema da corte do rei Rajadhirat, o unificador da Birmânia no século XIV. Mas o uso deste pigmento provavelmente é muito mais antigo. Hoje, este cosmético orgânico é tão omnipresente nas comunidades de Myanmar – budistas, muçulmanos e minorias étnicas – que se tornou num símbolo da cultura birmanesa da mesma forma que a longyi, a saia nacional parecida com um sarongue que é usada tanto por homens como mulheres.

Homens, mulheres e crianças de todas as origens usam thanaka, seja pintada como forma de arte, ou simplesmente esfregada no rosto.

Fotografia de Tino Soriano, Nat Geo Image Collection

“Não tem comparação com a maquilhagem moderna”, diz Ma Tin Hla, 36 anos, vendedora de thanaka naquela que pode ser chamada a região central deste pigmento natural – as planícies quentes e secas do centro de Myanmar, perto da cidade de Mandalay. “Os cosméticos comprados nas lojas destroem realmente a nossa pele. Thanaka faz exatamente o oposto – repara.”

Como acontece com todos os utilizadores regulares deste pigmento, Ma Tin Hla atribui poderes a thanaka que vão muito para além do simples embelezamento de um rosto. A pasta funciona como protetor solar, diz Ma Tin Hla. Combate as rugas. Afasta os mosquitos. E as suas qualidades antibióticas servem para controlar a acne – embora um estudo científico feito recentemente desconsidere esta afirmação.

A matéria-prima da thanaka vem de árvores específicas, como a Naringi crenulata e Limonia acidissima, coloquialmente conhecidas por macieira, sândalo, maçã-de-elefante ou árvores frutíferas. A preparação da pasta é trabalhosa.

Esquerda: Daw San Tin vende thanaka na sua forma primária, numa estrada perto de Shwebo.
Direita: Pó de thanaka da casca de várias árvores selvagens é misturado com água e aplicado no rosto e braços das pessoas na região centro de Myanmar.

Fotografia de PAUL SALOPEK

Os ramos das árvores são serrados em segmentos do tamanho de uma mão em quintas e florestas. Depois, em mercados, templos, bancas de beira de estrada e nos lares, a fina camada de casca de árvore é raspada durante horas em pequenas pedras de esmeril de ardósia. O produto final parece farinha de milho seca. Misturada com água, a pasta é aplicada com os dedos ou palitos, e seca até formar uma leve crosta dourada na pele. A sua aplicação em desenhos delicados de folhas são um estilo thanaka muito comum entre os utilizadores mais jovens.

“Qualquer pessoa no mundo consegue aplicar um batom barato”, diz Han Ni, de 26 anos, esteticista que aplica este pigmento no pagode de Kuthodaw, em Mandalay. “Mas só nós conhecemos a beleza da thanaka.”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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