Gruta da Aroeira: Descobertos Primeiros Indícios do Uso de Fogo Há 400 Mil Anos

Foram descobertas evidências do uso controlado do fogo, no Sudoeste da Europa, que remontam há 400 mil anos. A Gruta da Aroeira foi o centro da investigação.

Wednesday, September 16, 2020,
Por National Geographic
Vista aérea, tomada por drone, do Arrife da Serra d’Aire (a escarpa de falha que separa ...

Vista aérea, tomada por drone, do Arrife da Serra d’Aire (a escarpa de falha que separa o Maciço Calcário Estremenho da Bacia Terciária do Tejo) junto à nascente do Rio Almonda.

Fotografia de Pedro Souto

João Zilhão é o nome do arqueólogo que liderou o estudo no interior da Gruta da Aroeira, tendo evidenciado que as populações da Península Ibérica dominavam o fogo há mais tempo do que se pensava até então.

A Gruta da Aroeira é um sítio arqueológico e paleoantropológico localizado na vila do Almonda, no município de Torres Novas. É uma caverna que deixou a descoberto as pedras da cultura Acheulense, do Paleolítico, e um crânio de Homo heidelbergensis com cerca de 400 mil anos. O crânio da Aroeira foi descoberto em 2014, numa investigação também liderada por João Zilhão, e trata-se do vestígio humano mais antigo em Portugal. A gruta é parte do sistema cársico da nascente do rio Almonda, afluente do Tejo.

Técnicas do fogo dominadas há já 400 mil anos
O estudo foi desenvolvido por uma equipa do Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa e resulta de investigações realizadas entre os anos de 2013 e 2017. Durante as escavações na Gruta da Aroeira, foram recolhidos vestígios da ação do fogo, tal como restos de ossos queimados, carvões e seixos.

A investigação comprova que há 400 mil anos as populações humanas da Península Ibérica dominavam as técnicas ligadas ao uso controlado do fogo. Prevê-se que isto também ocorreria nas outras regiões habitadas da Europa, Ásia e África.

Restos ósseos da Gruta da Aroeira (cervídeos e tartaruga terrestre) carbonizados pelo fogo.

Fotografia de Montserrat Sanz

Estas são, de momento, as provas mais antigas que indicam datações precisas sobre o uso do fogo. Contudo, tal não significa que a humanidade não dominasse o fogo há mais tempo.

O uso controlado do fogo permitia a sobrevivência humana
Existe uma corrente de opinião que defende que o uso controlado do fogo é tão antigo quanto a humanidade, isto é, tem entre 1.5 a 2 milhões de anos. Outra corrente defende que tal só foi conseguido há menos de 50 mil anos, sendo que antes disso os grupos humanos saberiam utilizá-lo, mas não o conseguiam gerar.

Como exemplo, surgem as jazidas de Beeches Pit, no Reino Unido, e a Caverna de Qesem, em Israel, com os vestígios mais antigos de conservação de lareiras, pela presença de carvão, ferramentas de pedra e restos de caça consumida. O período varia entre 375 a 425 mil anos e, entre 200 a 300 mil anos, respetivamente.

A utilização controlada do fogo era de extrema importância, já durante o período Paleolítico Inferior, entre 3 milhões a 250 mil anos, permitindo cozinhar os alimentos, melhorando a qualidade da nutrição e alargando o leque de plantas comestíveis.  

O fogo era também sinónimo de calor e aquecimento das cavernas, sem o qual não seria possível a sobrevivência humana durante o inverno, permitindo também expandir os territórios ecológicos.

O fogo faria parte de uma rotina comportamental, sendo utilizado como ferramenta de proteção e de ataque, o que implicava um pensamento complexo, capaz de prever o comportamento do fogo e as suas necessidades de combustível.

A preservação dos vestígios na Gruta da Aroeira permite indicar datações precisas
A combinação dos vários elementos recolhidos na Gruta da Aroeira, designadamente o crânio humano, associado aos bifaces acheulenses, traz uma complexidade adicional ao debate em volta do comportamento humano durante o período Paleolítico Inferior.

Uma das grandes questões da paleoantropologia é a identificação do início do uso controlado do fogo, que permitiu aos grupos humanos sobreviver e evoluir.

A Gruta da Aroeira é um dos raros sítios na Península Ibéria com contextos arqueológicos datados de há cerca de 400 mil anos. A excecionalidade está na boa preservação dos vestígios e na associação entre o crânio, a indústria lítica típica do período em questão e, agora, a confirmação do uso controlado do fogo. Esta junção permite obter um registo único, com novos dados sobre o comportamento das populações do Sudoeste da Europa, no período entre 700 mil a 125 mil anos antes do tempo atual, revelando-se crucial para o estudo da humanidade.

É a partir das primeiras formas humanas que surgiram em África há 2.5 milhões de anos - o Homo erectus - que se dá a emergência de populações com capacidades cranianas que entram dentro da margem de variação do Homo sapiens.

Para os próximos anos, o plano de investigação assenta na contínua recolha de dados da Gruta da Aroeira, para o conhecimento de dois intervalos de tempo: o período entre há 100 mil e há 250 mil anos; e o período há 30 mil e há 70 mil anos.

Os conhecimentos em Portugal ainda se revelam escassos. Ao lado de João Zilhão, um dos mais reputados arqueólogos portugueses, estão os investigadores espanhóis Montserrat Sanz Borràs e Joan Daura.

Continuar a Ler