"Stonehenge de Madeira" Descoberto no Alentejo

Uma estrutura de madeira única na Pré-História da Península Ibérica, foi encontrada por um grupo de arqueólogos nos arredores de Reguengos de Monsaraz.

Wednesday, October 14, 2020,
Por National Geographic
Vista aérea da parte exposta da estrutura de madeira descoberta.

Vista aérea da parte exposta da estrutura de madeira descoberta.

Fotografia de Projecto Perdigões / Era Arqueologia SA

Escavações no sítio arqueológico dos Perdigões, próximo de Reguengos de Monsaraz, deixaram a descoberto uma construção monumental, identificada como "Stonehenge de madeira", com uma planta circular e mais de 20 metros de diâmetro.

A estrutura é de caráter cerimonial, conhecida apenas na Europa Central e nas Ilhas Britânicas, como “Woodhenge”, “versão em madeira de Stonehenge” ou “Timber Circle”. Esta construção seria composta por vários círculos concêntricos de paliçadas e alinhamentos de grandes postes ou troncos de madeira.

Construção única na Península Ibérica
A construção em Perdigões é a primeira a ser identificada na Península Ibérica, datada entre 2800-2600 a.C., revelando-se anterior à construção em pedra de Stonehenge, em Inglaterra.

A estrutura descoberta está localizada no centro do grande complexo de recintos de fossos de Perdigões e articula-se sobre a paisagem megalítica, que vai do sítio arqueológico até Monsaraz. No solstício de verão é possível aceder ao seu interior, o que reforça o seu caráter cosmológico.

Apresenta-se como um anfiteatro natural, aberto ao vale da Ribeira de Vale do Álamo, onde se situa uma das maiores concentrações de monumentos do megalitismo alentejanos. Entre eles, destaca-se o famoso Cromeleque dos Almendres, a 14 quilómetros de Évora, e centenas de antas conhecidas, pelo menos, desde a Idade Média.

1400 anos de história
Os acessos aos recintos exteriores, e outros mais interiores, estão orientados aos solstícios ou aos equinócios, funcionando o horizonte para o qual está virado, tal como um calendário anual do nascer do sol.

Esta situação também é conhecida nos “Woodhenges” e “Timber Circles” europeus, onde os alinhamentos astronómicos das entradas são frequentes, salientando a estreita relação entre estas arquiteturas e as visões do mundo neolíticas.

O sítio exibe uma cronologia de cerca de 1400 anos, desde aproximadamente 3400 a.C., no final do Neolítico Médio, e de 2000 a.C., no início da Idade do Bronze. É conhecido como um imenso centro de agregação de comunidade humanas, onde ocorriam práticas cerimoniais, e se geriam relações identitárias, culturais e políticas.

Aspeto das valas de paliçadas e alinhamentos de buracos de postes que constituem o "timber circle" da área central dos Perdigões.

Fotografia de Projecto Perdigões / Era Arqueologia SA

Monumento Nacional reconhecido
O sítio arqueológico onde foi descoberta a estrutura de madeira, conta com 16 hectares de área e um diâmetro de 450 metros. A descoberta reforça a importância científica do complexo, no contexto internacional dos estudos do Neolítico Europeu, aumentando a sua relevância patrimonial, reconhecida como Monumento Nacional no ano de 2019.

Os vestígios de vários círculos de madeira construídos há mais de 4500 anos começaram por ser divulgados na comunicação social como “Woodhenge”, embora os arqueólogos prefiram referir-se a eles como círculos de madeira.

Por enquanto, foi escavado um terço dos círculos e apenas os buracos e valas onde estes permanecem. As escavações estão a decorrer e a maioria dos artefactos encontrados nos círculos correspondem a fragmentos de cerâmica e restos de animais.

Um santuário megalítico
O recinto dos Perdigões suscita interesse da comunidade científica internacional, sendo um sítio de referência no âmbito da investigação da pré-história recente europeia. O Complexo Arqueológico dos Perdigões é um projeto da Herdade do Esporão, cuja missão é a preservação, promoção e desenvolvimento do mesmo.

A importância dos vestígios pré-históricos de Évora é inegável, embora o número de visitantes não lhes faça justiça. O complexo em Perdigões está a ser escavado há 23 anos pela empresa Era – Arqueologia, em colaboração com diversas instituições e investigadores, nacionais e internacionais.

António Valera, arqueólogo e pré-historiador, é o responsável que coordena as escavações. Desenvolve responsabilidades de direção de campo desde 1985, em mais de três dezenas de sítios arqueológicos. Atualmente, realiza investigação sobre as comunidades neolíticas e calcolíticas do ocidente peninsular, com particular foco no Complexo Arqueológico dos Perdigões e recintos de fossos do sul de Portugal, tendo desenvolvido vários projetos de investigação.

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