Arqueólogos Provam que Ocupação Humana em Portugal foi Antes do que se Pensava

Achados encontrados na Lapa do Picareiro revelam que a ocupação humana em Portugal foi cerca de 5 mil anos antes do que se julgava, indicando que possivelmente se tenham “cruzado” com os Neandertais.

Wednesday, November 4, 2020,
Por National Geographic
Os trabalhos arqueológicos na Lapa do Picareiro que conduziram à publicação do artigo na revista Proceedings of the National Academy ...

Os trabalhos arqueológicos na Lapa do Picareiro que conduziram à publicação do artigo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences foram iniciados há cerca de 10 anos.

Fotografia de Jonathan Haws

Achados na Lapa do Picareiro, no distrito de Santarém, levam cientistas a afirmar que os humanos modernos chegaram à zona mais Ocidental da Europa cerca de 5 mil anos antes do que até então se pensava ter acontecido.

A Lapa do Picareiro, situa-se perto da Gruta do Almonda, em Torres Novas, sendo que um dos locais que apresenta indícios da presença de humanos modernos e o outro de Neandertais, embora ainda não sejam conhecidas evidências de relações culturais entre os dois grupos.

Os trabalhos arqueológicos no local tiveram duas fases principais. A primeira teve início em 1994 e foi liderada por Nuno Bicho, docente na Universidade do Algarve (UAlg) que já recebeu várias bolsas da National Geographic Society, e a segunda começou em 2005, coordenada pelo investigador Jonathan Haws da Universidade de Louisville. A equipa que esteve envolvida nos trabalhos mais recentes incluiu arqueólogos da UAlg e da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL).

As ferramentas de pedra lascada encontradas revelam indícios de ocupação humana em Portugal, num período a uma distância de 41.000 a 38.000 anos.

Todas as ferramentas encontradas no sítio arqueológico são em pedra lascada.

Fotografia de Jonathan Haws

Rápida dispersão
Até à data, a evidência mais antiga da nossa espécie localizava-se a sul do rio Ebro, no norte de Espanha, numa gruta na zona de Málaga. As datas e ferramentas em pedra provenientes de contextos estratigráficos seguros do Picareiro fornecem evidências definitivas para a chegada do Homem Moderno a Portugal muito antes do que se julgava.

A investigação conclui que os achados da Lapa do Picareiro ligam este local a descobertas semelhantes feitas pela Eurásia até à planície russa. Tal facto sustenta uma dispersão rápida em direção a oeste dos humanos modernos pela Eurásia, alguns milhares de anos após a sua primeira aparição no sudeste europeu.

A descoberta tem ramificações importantes que ajudam a compreender a possível interação entre os humanos modernos e os Neandertais. 

Coexistência de humanos modernos e Neandertais
Apesar de ainda não ser claro como os humanos modernos chegaram à região, estima-se que tenham migrado ao longo de rios no interior. No entanto, também é possível que tenham efetuado uma rota costeira. 

De acordo com a equipa de investigadores, a dispersão de humanos modernos pela Europa há milhares de anos é central para a compreensão de onde viemos. Durante muito tempo foi considerado que os humanos modernos e os neandertais eram dois grupos completamente distintos, sem relação cultural ou genética. Este trabalho oferece novas evidências que vão ajudar a moldar futuras investigações, para um problema científico complexo: o de se compreender a relação entre os dois grupos.

Nuno Bicho afirma que "este tipo de estudos possibilitam a investigação sobre o desaparecimento dos Neandertais e da possível mistura genética e cultural que houve entre as duas espécies, há cerca de 40 mil anos.”

A equipa de arqueólogos durante os trabalhos na Lapa do Picareiro.

Fotografia de Jonathan Haws

Metodologia de investigação
A investigação utilizou técnicas avançadas de pré-tratamento das amostras e espectrometria de massa por acelerador, para datar os ossos que mostram evidências de marcas de corte e quebra intencional para extrair medula óssea, um alimento nutritivo e altamente valorizado para consumo por estas comunidades.

Nuno Bicho explica que foram utilizaram duas tecnologias principais na construção das ferramentas, "a produção de lascas com um modelo denominado centrípeto produzidas por Neandertais; e a produção de lamelas (pequenas lâminas, apontadas, que terão servido como pontas de projétil para a caça), provavelmente produzidas por homens anatomicamente modernos”.

Os resultados das datações por radiocarbono situam a ocupação humana em Portugal no intervalo entre 41.000 e 38.000 anos atrás, sendo que, por outro lado, a ocupação neandertal na Lapa do Picareiro ocorreu há 45.000 a 42.000 anos.

A análise espacial de dados tridimensionais de alta resolução confirmou as relações estratigráficas precisas entre artefactos e amostras de radiocarbono, revelando camadas discretas de ocupação no local. Esta análise de dados a alta resolução é crucial para documentar e observar os vários momentos de ocupação humana e para reconstruir padrões ocupacionais.

Características da ocupação humana em Portugal
As diferenças entre ferramentas de pedra datadas, de antes e depois de há cerca de 41.000 anos na Lapa do Picareiro são notáveis. Os níveis mais antigos são dominados pela exploração de matérias-primas como o quartzito e o quartzo, marcados pela presença da tecnologia Levallois, típica das ocupações neandertais na Europa.

Característicos dos homens modernos, os níveis Aurignacenses são dominados pelo sílex e pela produção de lâminas muito pequenas, que provavelmente eram inseridas em flechas para a caça. O sílex foi também utilizado para a caça de animais como veados, cabras-montês e, possivelmente, coelhos.

A equipa de investigadores conseguiu recuperar alguns dentes caninos de veado, utilizados como adornos pessoais, embora não tenham sido encontrados vestígios da sua manufatura na Lapa do Picareiro.

Através do tamanho dos clastos de calcário e da química dos sedimentos finos da gruta, foi possível obter um registo paleoclimático bem preservado para ajudar a determinar as condições climáticas existentes na época dos últimos neandertais e da chegada dos homens modernos.

A equipa internacional
O projeto foi liderado por Jonathan Haws, Michael M. Benedetti da Universidade da Carolina do Norte em Wilmington e, por Lukas Friedl, da Universidade da Boémia Ocidental, na República Checa, em parceria com Nuno Bicho e João Cascalheira da UAlg, e com Telmo Pereira da UAL. 

A colaborar com a equipa esteve ainda Sahra Talamo, da Universidade de Bolonha e do Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology, em Leipzig, para ajudar a determinar a idade da ocupação humana em Portugal, dos últimos neandertais e dos primeiros humanos modernos.

Os ossos encontrados na Lapa do Picareiro constituem um dos maiores conjuntos de fauna paleolítica em Portugal e, fornecerão uma imensa quantidade de informações sobre o comportamento humano, bem como a paleoecologia durante o Paleolítico.

De acordo com Nuno Bicho, “esta descoberta é uma das primeiras no sul da Península Ibérica com esta antiguidade. É natural que no futuro apareçam outros sítios com a mesma cronologia confirmando assim a dispersão da nossa espécie no sul da Península Ibérica."

Para darem continuidade às escavações arqueológicas na Lapa do Picareiro, a equipa está a preparar novos projetos para requerer financiamento, bem como para obter a autorização necessária por parte da Direção Geral do Património Cultural. O desenvolvimento de trabalhos semelhantes noutras jazidas arqueológicas também é fundamental - a mesma equipa já está a explorar as grutas do Escoural, próximo de Évora, e da Companheira, em Portimão.

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