Perda de Idosos Devido à COVID-19 Coloca em Perigo Línguas Indígenas

“Estamos muito preocupados”, diz uma líder indígena. “Eles têm muito mais para dizer.”

Fotografias Por Rafael Vilela
Publicado 18/11/2020, 11:33 WET
As crianças Guarani Mbya, como Manuela Vidal, aprendem a sua língua e cultura nas escolas públicas, ...

As crianças Guarani Mbya, como Manuela Vidal, aprendem a sua língua e cultura nas escolas públicas, mas a pandemia obrigou ao encerramento das escolas.

Eliézer Puruborá, uma das últimas pessoas que cresceu a falar a língua Puruborá, morreu de COVID-19 no Brasil no início deste ano. A sua morte aos 92 anos de idade enfraqueceu o domínio frágil que o seu povo tem sobre a língua Puruborá.

Desde a chegada dos europeus que as línguas indígenas do Brasil estão ameaçadas. Apenas cerca de 181 das 1500 línguas que existiam ainda são faladas – cada uma na sua maioria por menos de mil pessoas. Alguns grupos indígenas, principalmente os que têm populações maiores, como os Guarani Mbya, conseguiram manter a sua língua materna. Mas as línguas de grupos mais pequenos, como os Puruborá, que hoje só tem 220 indivíduos, estão prestes a desaparecer.

A pandemia está a agravar uma situação que já de si era má. Estima-se que existam mais de 39.000 casos de coronavírus entre os indígenas brasileiros, incluindo seis entre os Puruborá, e cerca de 877 mortes. A COVID-19 está a ceifar a vida de idosos como Eliézer, que costumam ser os guardiões da língua. O coronavírus também força o isolamento dos membros da comunidade, impede os eventos culturais que mantêm as línguas vivas e afeta o lento progresso de gestão das línguas. (O coronavírus está perigosamente perto do ‘Povo de Flecheiros’ isolado da Amazónia.)

Para os Puruborá, a preservação da sua língua e cultura tem sido uma longa batalha. Há mais de um século, os seringueiros que atuavam sob os auspícios dos Serviços de Proteção ao Índio, o órgão federal que gere os assuntos indígenas, chegaram às suas terras no estado amazónico de Rondônia. Estes homens colocaram homens e crianças indígenas, incluindo Eliézer, a trabalhar na recolha de látex das seringueiras e distribuíam as mulheres e raparigas pelos seringueiros não indígenas como recompensa. O português era a única língua autorizada a ser falada.

“Tudo o que estivesse relacionado com a nossa cultura era proibido”, diz Hozana Puruborá, que se tornou líder dos Puruborá após a morte da sua mãe Emília. Emília era prima de Eliézer; e quando eram crianças, as duas primas, ambas órfãs, sussurravam em Puruborá, quando mais ninguém conseguia ouvir. “Eles mantiveram a sua língua viva em segredo.”

Em 1949, os Serviços de Proteção aos Índios declararam que já não havia mais indígenas na região, porque tinham sido “misturados” e “civilizados”. Oficialmente, os Puruborá tinham desaparecido.

O coronavírus ameaça a vida de idosos como Hotencio Karai, de 107 anos, que costumam ser os guardiões da língua de uma cultura. Mas os adolescentes como Richard Wera Mirim, de 17 anos, também são muito ligados à sua cultura, diz Sónia Ara Mirim, líder comunitária. “O Nhandereko – o modo de vida Guarani – está dentro de nós”, diz Sónia. “Uma criança pode passar o dia inteiro no telemóvel, no computador, a ver televisão, mas não há uma forma de retirar isto de nós.”

Construir um arquivo
Mas os Puruborá recusaram-se a desaparecer e fundaram Aperoi, a última aldeia dos Puruborá, uma parcela de 25 hectares de terra ancestral que compraram a produtores de soja e gado. Não é grande o suficiente para todas as pessoas, pelo que Eliézer vivia nas proximidades com a sua filha na cidade de Guajará Mirim.

Os Puruborá também começaram a trabalhar com Ana Vilacy Galucio, linguista do Museu Paraense Emílio Goeldi, que tem arquivos permanentes de 80 línguas indígenas da Amazónia brasileira. Com a ajuda dos Puruborá, Ana também queria criar um arquivo.

Em 2001, quando Ana os começou a visitar, havia nove anciãos Puruborá, entre eles Eliézer e Emília, que viajaram até Aperoi para falar a sua língua. Muitos viviam longe de Aperoi e não falavam Puruborá há décadas.

“Não era só uma questão de não conseguirem falar”, diz Ana. “Eles não ouviam a língua falada; não tinham contacto com o seu idioma.”

Ana reuniu-os para conversarem. Eles usaram auscultadores e falaram para microfones. Tudo o que disseram foi gravado para criar um arquivo de áudio do seu idioma. Ao início, só se conseguiam lembrar de algumas palavras. Os nomes de animais surgiram facilmente; mas a gramática e a estrutura das frases eram mais complicadas. Mas quanto mais falavam uns com os outros, mais se lembravam.

Agora, só restam dois idosos pouco fluentes – Paulo Aporete Filho e Nilo Puruborá. Na casa dos 90 anos e com problemas de saúde, ambos são altamente vulneráveis ao coronavírus. Nenhum dos dois vive em Aperoi e ninguém os pode visitar devido à pandemia. Hozana teme que a COVID-19 os possa levar antes de partilharem tudo o que sabem.

“Há muita coisa em falta no arquivo”, diz Hozana. “Estamos muito preocupados. Eles têm muito mais para dizer.”

Ajuda inesperada
Mais a sul, a pandemia também está a atingir os Guarani Mbya. Nas seis aldeias que compõem a comunidade dos Guarani Mbya em São Paulo, centenas de pessoas contraíram COVID-19, incluindo idosos com mais de 100 anos. Até agora, ninguém morreu.

Jovens habitantes da aldeia de Tekoa Pyau disputam um campeonato de futebol durante horas. A terra Guarani fica no meio de São Paulo, e esta cidade – a maior do Brasil – está sempre a usurpar terreno.

Esquerda: A comunidade celebra um aniversário em Guyra Pepó, uma aldeia no interior para onde se mudaram 36 famílias Guarani durante a construção de uma autoestrada nas suas terras, em São Paulo.
Direita: Em junho, os jovens Guaranis reuniram-se para combater um incêndio. “Este é o nosso trabalho”, diz o professor Anthony Karai. “Nós somos os guardiões da floresta.”

Anthony Karai, de 21 anos, dá aulas online de Guarani na sua casa, na aldeia Tekoa Pyau. As aulas são para alunos não indígenas e são uma forma de Anthony angariar dinheiro para a sua comunidade.

As escolas públicas do primeiro ciclo da comunidade, que ensinam a língua e a cultura Guarani, estão encerradas, deixando as crianças sem um importante meio de aprendizagem e partilha. Muitas pessoas perderam o emprego.

Mas a língua Guarani também recebeu uma ajuda inesperada. Quando a pandemia atingiu a região, Anthony Karai, um jovem cacique indígena, começou a dar aulas online de Guarani como uma forma de angariar dinheiro para os membros desempregados da comunidade. Anthony achava que conseguia ensinar perto de 100 alunos – mas em cerca de duas horas, inscreveram-se mais de 300.

Anthony não queria deixar ninguém de fora, pelo que contactou outros dois professores em aldeias diferentes para ensinarem os 200 alunos adicionais. Ensinar Guarani, diz Anthony, não só lhe oferece uma forma de manter a língua viva, mas também ajuda os não indígenas a encararem a sua comunidade de uma perspetiva diferente.

“Quando aprendemos um idioma, não podemos aprender apenas o idioma”, diz Anthony. “Temos de aprender a cultura também.”

O oposto também é verdadeiro: perder uma língua também pode significar a perda de uma cultura – e é isso que preocupa Mário Puruborá, professor de Puruborá.

Thiago Karaí Kekupe, um jovem cacique Guarani Mbya, combate um incêndio que a comunidade suspeita ter sido provocado intencionalmente.

Esquerda: No início de 2020, centenas de árvores foram derrubadas para construir edifícios de apartamentos. Os membros da comunidade Guarani protestaram em trajes tradicionais e conseguiram evitar mais destruição.
Direita: Uma criança Guarani a nadar perto da sua aldeia. “Não temos água potável na aldeia”, diz Thiago Karaí Kekupe. “A única água que temos vem de uma nascente de água natural.”

Sem terras, é difícil manter um idioma e uma cultura. Em 2017, as famílias Guarani estabeleceram uma nova aldeia no interior de São Paulo.

Em Aperoi, tal como acontece nas aldeias Guarani Mbya, as crianças aprendem Puruborá numa escola pública. Mas mesmo antes da pandemia, as autoridades locais já queriam encerrar a escola porque havia poucos alunos.

Mário, que tem enfrentado dificuldades para manter as aulas em funcionamento, não é fluente em Puruborá. Mário aprendeu o que sabe com as gravações de áudio feitas por Ana Galucio para o arquivo do museu.

Antes da pandemia, Mário dependia das visitas que fazia regularmente aos idosos que viviam fora da aldeia, como Paulo e Nilo, para obter respostas para as suas dúvidas sobre o idioma. O coronavírus tornou estas viagens muito perigosas e agora Mário receia que muitos dos detalhes linguísticos desaparecem com eles.

Os Puruborá estão a fazer os possíveis para manterem os membros da sua comunidade em segurança. A comunidade adiou a sua assembleia anual e o festival cultural, onde partilham histórias, cantam e organizam esforços de preservação da língua, para além de ter reduzido as viagens não essenciais. Mas os membros da comunidade dizem que, quando a pandemia finalmente abrandar, vão trabalhar para garantir que a responsabilidade de preservar a sua cultura e idioma não caia apenas sobre os frágeis ombros dos seus idosos.

“Muitas pessoas dizem que ressurgimos, mas não gosto desse termo”, diz Mário. “Nós sempre conhecemos a nossa identidade e sempre estivemos aqui. Sempre estaremos.”


Este trabalho foi financiado pelo Fundo de Emergência COVID-19 para Jornalistas da National Geographic Society e publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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