Túnel Polémico Debaixo de Stonehenge Aprovado Contra as Objeções de Arqueólogos

Os defensores desta medida dizem que o túnel rodoviário vai aliviar o congestionamento de tráfego e melhorar a experiência dos visitantes. Os opositores receiam a perda de artefactos antigos que ainda estão escondidos no subsolo.

Publicado 17/11/2020, 17:43 WET
Perto de Stonehenge, um trecho de estrada com muito trânsito vai ser substituído por um túnel, ...

Perto de Stonehenge, um trecho de estrada com muito trânsito vai ser substituído por um túnel, anunciou o governo britânico.

Fotografia de Steve Parsons, PA Images/Getty

O governo britânico aprovou um plano controverso para construir um túnel rodoviário de quatro faixas sob o Património Mundial de Stonehenge. O túnel e respetivos acessos, com mais de três quilómetros de extensão, fazem parte de um pacote de 2.2 mil milhões de euros para atualizar a estreita autoestrada A303, que passa surpreendentemente perto do icónico círculo de pedras e que é há muito tempo conhecida pelos congestionamentos de trânsito.

A aprovação ignorou as fortes objeções de uma aliança de arqueólogos, ambientalistas e druidas da atualidade, que consideram Stonehenge um local sagrado. Mas os defensores desta medida alegam que o túnel vai restaurar a originalidade da paisagem e melhorar a experiência para as pessoas que visitam Stonehenge, que tem cerca de 1.6 milhões visitantes anuais.

“Os visitantes podem desfrutar de Stonehenge como deve ser feito, sem a presença de um emaranhado de tráfego de camiões ali perto”, diz Anna Eavis, responsável pela curadoria da English Heritage, instituição que cuida de mais de 400 monumentos históricos em Inglaterra, incluindo Stonehenge.

“As pessoas esquecem-se ou não sabem que Stonehenge é mais do que um simples círculo de pedras, é uma paisagem”, diz Anna. “Isto vai torná-lo novamente num local para se caminhar. Os visitantes podem aproximar-se das pedras vindos de sul, por exemplo, sem colocarem a vida em risco quando tentam atravessar a autoestrada.”

Os opositores afirmam que o projeto do túnel pode danificar irreparavelmente uma paisagem antiga que só agora é que está a ser compreendida e que ainda esconde muitas surpresas. Em junho passado, a descoberta de 20 poços profundos dispostos num enorme círculo forçou o governo a adiar a decisão sobre o projeto durante quatro meses, enquanto a descoberta era avaliada.

“A deteção remota revolucionou a arqueologia e está a transformar a compreensão que temos sobre paisagens antigas – incluindo Stonehenge, um lugar que pensávamos conhecer bem”, diz Vince Gaffney, arqueólogo paisagista da Universidade de Bradford e colíder do Projeto Stonehenge Hidden Landscape, que descobriu os poços desconhecidos. “Ninguém fazia ideia de que estavam lá. O que há mais para descobrir?”

Originalmente uma estrada do século XVIII para carroças entre Londres e Exeter, a autoestrada A303 evoluiu para se tornar numa das principais artérias do sudoeste de Inglaterra. Para além dos visitantes de Stonehenge, a autoestrada também tem muito tráfego de camiões e serve os inúmeros viajantes que se dirigem durante as férias para destinos costeiros na Cornualha e em Devon.

Uma das zonas de maior engarrafamento ao longo da autoestrada A303 é um trecho estreito de duas faixas entre Amesbury e Berwick Down, em Wiltshire. É onde a autoestrada passa a menos de 200 metros do icónico círculo de pedras, uma das atrações turísticas mais populares da Grã-Bretanha.

“A estrada nunca foi projetada para ter estes níveis de tráfego”, diz Tom Fort, autor de Highway to The Sun, livro que conta a história da A303. “Eles melhoraram aos poucos alguns segmentos da estrada ao longo dos anos, alargando-a em rodovias divididas por quatro faixas, mas o trecho em torno de Stonehenge foi sempre a parte mais complicada. Nunca conseguiram concordar sobre o que fazer a respeito deste trecho.”

Ao longo de décadas, foram apresentadas mais de 50 propostas diferentes para resolver o problema do tráfego. A ideia de um túnel foi proposta pela primeira vez no início dos anos 90 e foi revisitada várias vezes ao longo dos anos, mas foi sempre rejeitada devido ao custo elevado.

O plano vai expandir a autoestrada para quatro faixas conforme se aproxima de Stonehenge, e depois mergulha no subsolo num túnel de três quilómetros de extensão que vai passar a cerca de 200 metros a sul do círculo de pedras.

Embora o túnel esteja projetado para uma profundidade de cerca de 40 metros – muito abaixo de quaisquer camadas arqueológicas – as obras e perfurações serão feitas através de solo superficial que é potencialmente rico em artefactos, dentro do terreno considerado Património Mundial. Isto preocupa Vince Gaffney, que acredita que o túnel “precisa de ser muito mais comprido debaixo da totalidade do local. Não devíamos estar a revolver uma área como esta que é Património Mundial. Temos o dever de a proteger”.

As pessoas que se opõem à construção do túnel incluem arqueólogos, ambientalistas e druidas da atualidade.

Fotografia de Finnbarr Webster, Getty

Antes do anúncio feito pelo governo, uma aliança de pessoas que se opõem à construção do túnel – incluindo a Campanha para Proteger Inglaterra Rural e o Fundo Arqueológico Britânico – pediu ao governo para reconsiderar o plano.

“Se o alargamento da A303 é considerado essencial em Stonehenge, deve ser feito através de um túnel profundo com pelo menos 4.5 quilómetros de comprimento”, afirma a petição, que foi assinada por 150.000 pessoas. “Qualquer coisa mais pequena do que isso pode provocar danos irreparáveis na paisagem, violando a Convenção de Património Mundial.”

Os opositores também receiam que o trabalho preparatório de arqueologia feito antes da escavação do túnel não tenha os mesmos padrões de excelência de uma escavação académica.

“Enquanto investigador, se eu quiser escavar numa zona como Stonehenge, que é considerada Património Mundial, terei de concordar em peneirar 100% da camada superficial de solo”, diz Michael Parker Pearson, do Instituto de Arqueologia da University College de Londres, que fez escavações em Stonehenge durante muitos anos. “Eu não conseguiria uma licença de outra forma. A camada superficial de solo é onde obtemos a maior parte da nossa arqueologia.” Segundo Michael Pearson, os empreiteiros que vão construir o túnel terão permissão para peneirar apenas 1% da camada superficial de solo.

Porém, Anna Eavis, da English Heritage, diz que peneirar toda a camada superficial de solo não é uma prática padrão para um projeto com estas dimensões. “A linha de estrada foi pesquisada e avaliada arqueologicamente, e foram colocadas em prática estratégias apropriadas de escavação para garantir que nada de importante seja esquecido.”

O arqueólogo Mike Pitts concorda. “A camada superficial de solo nas áreas relevantes para o projeto do túnel foi fortemente arada durante séculos”, diz Mike Pitts, editor da British Archaeology, publicação do Conselho para a Arqueologia Britânica. “Tudo o que provavelmente será encontrado são ferramentas de pedra e detritos da sua manufatura, removidos de qualquer contexto arqueológico.”

Nem todos os arqueólogos se opõem ao projeto. “Eu sou um grande defensor do túnel e da sua realização o mais depressa possível”, diz Timothy Darvill, da Universidade de Bournemouth. “As pessoas precisam de ter em consideração que não se trata de construir uma estrada num Património Mundial, como algumas pessoas parecem pensar. É um projeto para remover uma estrada que já existe e para a colocar no subsolo.”

Todos concordam que a estrada atual é um desastre e que precisa de ser reparada, diz Timothy Darvill. “Basta ouvir o vídeo [da celebração] do solstício de verão feito em junho. Ouvimos o ruído da estrada durante a noite toda, e isto foi durante o confinamento, quando devia haver pouco trânsito.”

Timothy diz que há outro fator a favor do túnel: “Pelo que nos foi dado a perceber pela Autoestradas de Inglaterra, se o túnel não avançar, provavelmente haverá uma solução na superfície que envolve uma via dupla. Ninguém quer isso!”


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com.

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