D. Catarina de Bragança: a Nobre Portuguesa que Introduziu o Chá em Inglaterra

A infanta D. Catarina de Bragança foi protagonista do “casamento” entre Portugal e Inglaterra, onde iniciou a tradição do chá e o uso da porcelana da corte. Era tida pelo povo como corajosa e querida.

Publicado 4/12/2020, 16:52 WET
estátua de D. Catarina de Bragança

Antes da chegada da infanta D. Catarina de Bragança, os ingleses eram um povo consumidor de café.

Fotografia de Filipa Coutinho

D. Catarina de Bragança é a nobre portuguesa que tem responsabilidade sobre um dos hábitos diários pelos quais são conhecidos os ingleses. Nascida em Portugal, foi a única portuguesa a ser rainha de Inglaterra. Natural de Vila Viçosa, nasceu a 25 de novembro de 1638, durante o reinado do rei espanhol Filipe III em Portugal. Dois anos depois, a restauração da independência nacional, a 1 de dezembro, marcou o início do período de guerra com os espanhóis, inconformados com a declaração da independência.

O impacto na cultura inglesa

A filha do Rei D. João IV e da sua esposa D. Luísa de Gusmão, casou com o rei inglês Carlos II em 1662 e introduziu várias novidades na corte britânica. Entre elas, o hábito de beber chá, hoje considerado uma verdadeira bebida nacional no país.

Portugal foi um dos primeiros países europeus a importar chá. O chá chegou ao país em 1580, ainda que em pequenas quantidades. D. Catarina de Bragança era adepta da bebida e do seu enxoval fazia parte uma caixa de chá. Reza a lenda que quando a infanta foi ao encontro do seu noivo com folhas de chá na bagagem, na caixa estaria inscrito “Transporte de Ervas Aromáticas”, palavras que foram abreviadas para T.E.A, resultando na tradução para chá em inglês. No entanto, etimologistas acreditam que a palavra “chá” provém de uma transliteração de um caractere chinês.

O seu hábito de beber chá tornou-o popular enquanto bebida social. Ao beber, D. Catarina de Bragança influenciou outros a fazê-lo e as mulheres da corte depressa se apressaram a adotar o hábito, numa tentativa de fazer parte do seu círculo. Até ao fim do século XVII a aristocracia já bebia chá.

A D. Catarina de Bragança associa-se ainda o nome do bairro de Queens, em Nova Iorque, e o bolo conhecido por “queque”, feito com massa inglesa e com uma coroa de rainha a toda a volta. Para além do impacto na gastronomia, também através da troca culinária com os pastéis de nata portugueses, a rainha levou novidades culturais. A primeira ópera italiana foi mandada trazer por sua ordem. Introduziu também o uso de pratos de porcelana, uma vez que os pratos utilizados na corte inglesa eram de ouro ou prata e os alimentos arrefeciam rapidamente. Os leques também surgiram consigo, em substituição da máscara de passeio em seda negra.

Durante os 30 anos que viveu em Inglaterra, distinguiu-se pelos bailados e teatros que organizou, pela perícia com o arco e setas e por ter sido a patrona da Honorable Company of Bowman.

O pacto pela independência de Portugal

A nobre portuguesa coadjuvou à independência de Portugal face a Espanha. Em 1661, já com 20 anos de guerra que tinham deixado o país exausto, com a população desesperada, a fome alastrava-se por várias partes do país. Acreditava-se que Espanha estava a preparar uma grande invasão e Portugal também estava cada vez mais dependente de Inglaterra, até pelo facto de muitos países e a própria Santa Sé, não terem reconhecido a nova situação portuguesa.

Perante o cenário geral, Portugal negociou um novo tratado da velha aliança luso-britânica, que envolvia um casamento real, especiarias e terras. O casamento da princesa Catarina de Bragança com D. Carlos II, rei de Inglaterra, já estava arranjado desde os 7 anos de idade da infanta e, acabou por ocorrer em 1662, tornando-a rainha de Inglaterra, Escócia e Irlanda.

D. Carlos II tinha herdado muitas dívidas na sucessão do trono e logo contraiu novas dívidas. Desesperado e sem dinheiro, o casamento com uma princesa estrangeira e rica, em que exigiu dinheiro e bens, serviu para pagar o que devia.

D. Catarina foi educada num convento, de onde apenas tinha saído por meia dúzia de vezes, não sabia uma única palavra em inglês, pelo que conversava com D. Carlos em espanhol. Era uma católica num país de protestantes e foi a última rainha católica de Inglaterra.

A invasão espanhola aconteceu alguns meses após o casamento e os espanhóis chegaram a tomar posse de Évora, mas o exército português conseguiu expulsá-los com a ajuda de soldados ingleses. Em 1665 uma nova invasão foi tentada, mais uma vez sem sucesso. Espanha e Portugal acabaram por assinar um tratado de paz em 1668, dando finalmente por terminada a guerra. Assim, Portugal conseguiu garantir a independência conquistada no 1º de dezembro de 1640.

O acordo do casamento

D. Catarina de Bragança foi fundamental na conquista da independência de Portugal, mas o seu casamento com D. Carlos saiu caro ao país. Dois milhões de cruzados foram exigidos como pagamento.

Para reunir o pagamento necessário incluíram-se pratas, joias, tesouros de conventos e igrejas portuguesas e duplicou-se o pagamento das sisas. Para além do pagamento em cruzados, a posse de Tânger, em Marrocos, e de Bombaim, na Índia, foram transferidas para os ingleses por oferta de D. Francisco de Melo, conde da Ponte.

Através da oferta de Bombaim, juntamente com a liberdade de comércio, os ingleses iniciaram a sua presença na Índia e construíram um grande império, que se manteve até à independência indiana e paquistanesa no século XX.

Do casamento real à vida ingrata na corte

À chegada a Portsmouth, em maio de 1662, D. Catarina de Bragança pediu uma chávena de chá para aliviar a dor de garganta e a febre que tinha. Como esta bebida era tão rara na época, não existia nenhuma chávena disponível, pelo que acabou por bebê-la num copo de cerveja.

D. Catarina de Bragança não teve uma vida facilitada. Foi alvo de várias suspeitas, intrigas e conspirações, e tentaram pressioná-la a entrar num convento. Nunca conseguiu ter um filho do rei, tendo tido quatro partos prematuros. Já o rei, por sua vez, teve quinze filhos das suas várias amantes.

Uma campanha desencadeada por Batteville em oposição ao casamento foi reunida pelo embaixador espanhol e pelo conde de Bristol. Foi oferecido ao rei, pelo parlamento inglês, 500.000 libras caso este se divorciasse de D. Catarina de Bragança e chegou ainda a ser acusada por estar envolvida numa conspiração para matar o rei. Apesar de tudo isto, D. Catarina de Bragança era estimada em Inglaterra e tida como uma das melhores e mais puras mulheres que assumiu o trono de Inglaterra.

De regresso a Portugal, os festejos duraram três dias

D. Carlos faleceu em 1685 e D. Catarina de Bragança permaneceu em Inglaterra até 1693, regressando então a Portugal, onde se festejou por três dias. Permaneceu no Paço da Bemposta, hoje conhecido como Paço da Rainha, em Lisboa. D. Catarina de Bragança substituiu ainda o rei D. Pedro II no trono, em curtos períodos nos anos de 1704 e 1705.

Acabou por morrer, doze anos depois e foi sepultada no Mosteiro dos Jerónimos. No século XIX, os seus restos mortais foram transladados para o Mosteiro de S. Vicente de Fora. Para nos recordar do que alcançou, é possível ver uma estátua de D. Catarina de Bragança no Parque das Nações, em Lisboa e, uma réplica no bairro de Queens, em Nova Iorque.

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