Momentos Marcantes da História que Moldaram 2020

Fotógrafos da National Geographic captam um ano dominado por desastres, instabilidade e incerteza.

Por Gail Fletcher
Publicado 23/12/2020, 16:18

   

Fotografia de Sakke Overlund (MOSAICO)

Captada no pico da pandemia de COVID-19 na Bélgica, uma fotografia a preto e branco de Cédric Gerbehaye mostra uma máscara facial e um fato de proteção individual descartados no exterior de um hospital. O fato – despido poucos momentos antes por um médico que transportava um paciente de uma ambulância para uma unidade de cuidados intensivos – ainda tinha o formulário do médico, como se a pessoa que o tinha vestido tivesse simplesmente desaparecido.

Esta imagem, de uma coragem silenciosa em tempos de crise, é uma das 47 fotografias selecionadas pela National Geographic para representar um ano dominado por desastres, instabilidade e incerteza.

Os incêndios florestais e as tempestades tropicais devastaram casas e comunidades pelo mundo inteiro. Em Beirute, no Líbano, a má gestão governamental resultou numa explosão de nitrato de amónio no porto da capital que matou quase 200 pessoas, feriu 6500 e deixou 300.000 sem casa.

Nos EUA, milhões de pessoas manifestaram-se contra a brutalidade policial e o racismo sistémico, depois de várias negros terem sido assassinados pela polícia, incluindo George Floyd e Breonna Taylor. Também nos EUA, monumentos foram derrubados e feridas históricas reabertas.

O fotógrafo Kris Graves conduziu ao longo de mais de 5600 quilómetros em 23 dias para fotografar mais de 250 memoriais, monumentos e escolas – 90% dos quais eram dedicados à Confederação. Em Oklahoma, a fotógrafa Bethany Mollenkof documentou a descoberta de valas comuns de vítimas do Massacre Racial de Tulsa em 1921. “O momento parecia surreal”, diz Bethany. “Durante muito tempo, os negros em Tulsa exigiram que a cidade procurasse pelos corpos das vítimas naquele local do cemitério, portanto, saber que tinham encontrado restos humanos ali foi uma sensação pesarosa. Eu senti responsabilidade em mostrar aquela emoção.”

A instabilidade também se fez sentir no resto do mundo. As tensões étnicas de longa data entre grupos arménios e azerbaijanos em Nagorno-Karabakh eclodiram num conflito de 44 dias que terminou com um ténue cessar-fogo. A China reprimiu os protestos liderados por estudantes de Hong Kong ao impor uma nova lei de segurança que criminalizava a dissidência, desmantelando efetivamente a identidade política e cultural da cidade. “O que significa para uma cidade morrer?” pergunta a fotógrafa Laurel Chor, nativa de Hong Kong que documentou a agitação na cidade. “Como é que lamentamos a perda de um lugar onde ainda vivemos?”

Em 2020 também foram assinalados marcos importantes. Para o 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, Hiroki Kobayashi documentou a forma como o Japão se recorda do trauma das bombas atómicas, enquanto Robert Clark fotografou veteranos e sobreviventes nos EUA, Japão e Europa. Em agosto, os americanos comemoraram o 100º aniversário da 19ª Emenda, que concedeu às mulheres o direito constitucional ao voto.

Nos EUA, em novembro, oito fotógrafos da National Gerographic cobriram uma eleição presidencial cuja importância parecia mais urgente do que nunca. Um número recorde de americanos votou pelo futuro de uma nação dividida.

Enquanto isso, uma pandemia de coronavírus afetou todos os aspetos da nossa vida em todos os cantos do globo, desde a forma como celebramos à forma como fazemos o luto dos nossos mortos. Morreram mais de 1.4 milhões de pessoas. Milhões de pessoas perderam os seus empregos e enfrentam agora dificuldades para alimentar as suas famílias. Mas as primeiras doses de uma vacina podem chegar dentro de semanas, oferecendo esperança para o novo ano.

Eis os momentos que vão ficar gravados na história, vistos pelas objetivas dos fotógrafos da National Geographic.

O equipamento de proteção individual (EPI) de um médico está espalhado no chão, no exterior de um hospital em La Louviere, na Bélgica. O médico retirou o EPI para evitar a contaminação ao entrar numa sala de emergência vindo de uma ambulância.

Fotografia de CÉDRIC GERBEHAYE

A pandemia de coronavírus obrigou as pessoas a alterarem a forma como praticavam os seus rituais. Em Tver, na Rússia, crentes com máscaras reúnem-se numa igreja para celebrar de forma diferente a Páscoa Ortodoxa, um feriado religioso muito importante neste país.

Fotografia de Nanna Heitmann

Embora os alertas iniciais sobre a COVID-19 enfatizassem o risco para os idosos, o vírus também pode ser perigoso para os mais jovens. Nesta imagem, uma equipa médica preparava-se para intubar um jovem que sofria de problemas pulmonares, na enfermaria dedicada à COVID-19 no Hospital No. 52 de Moscovo.

Fotografia de Nanna Heitmann

Uma enfermeira no Hospital Spallanzani, em Roma, tira a sua roupa de proteção individual após visitar um paciente com COVID-19.

Fotografia de Massimo Berruti, National Geographic Itália

Em abril, depois de o presidente queniano Uhuru Kenyatta ter ordenado um recolher obrigatório desde o amanhecer ao anoitecer, as estradas do país estavam em grande parte desertas, incluindo no bairro de Kitisuru, em Nairobi.

Fotografia de Nichole Sobecki

Em abril, enquanto respeitavam o confinamento imposto pelo governador de São Paulo, os habitantes do edifício Copan, o maior complexo de apartamentos residenciais do Brasil, protestaram contra a resposta dada pelo presidente Jair Bolsonaro à pandemia. Bolsonaro testou positivo para o coronavírus em julho.

Fotografia de JOÃO PINA

A Indonésia registou uma das taxas mais elevadas de mortalidade por COVID-19 na Ásia. No leste de Jacarta, o Cemitério Público de Pondok Ranggon, fotografado em finais de abril, limpou terreno para conseguir suportar o fluxo de vítimas do vírus.

Fotografia de Muhammad Fadli

Numa casa de repouso em La Louviere, na Bélgica, uma enfermeira estabiliza um residente para o seu colega conseguir fazer um teste COVID-19. Os lares de idosos foram particularmente afetados pela pandemia.

Fotografia de CÉDRIC GERBEHAYE

Esquerda: LaVondria Herbert, polícia em Detroit, usa uma máscara em homenagem à sua filha de cinco anos, Skylar, que LaVondria e o seu marido, Ebbie, perderam devido a complicações relacionadas com a COVID-19.
Direita: Laura Whalen e o seu filho Maji (à esquerda) sobreviveram à luta que travaram contra a COVID-19, mas Tony, o seu marido, não conseguiu sobreviver. O filho Cai (à direita) foi o único membro da família que não foi infetado. Laura espera que a certidão de óbito de Tony seja alterada para declarar de forma evidente que o marido morreu de COVID-19. A causa atual de morte indica a falência de múltiplos órgãos e complicações da sépsis.

Fotografia de WAYNE LAWRENCE

Entes queridos choram a morte de Esther Iyabode Akinsanya, que morreu após contrair COVID-19 enquanto trabalhava como prestadora de cuidados de saúde no Hospital Queen Elizabeth em Londres, Inglaterra.

Fotografia de Lynsey Addario

Durante o confinamento em Amã, um jovem da Jordânia brincava com um papagaio num telhado. As empresas da cidade distribuíram papagaios para incentivar uma atividade recreativa que podia ser realizada em segurança, longe de multidões.

Fotografia de Moises Saman

Este ano, a Califórnia sofreu a sua pior época de incêndios de que há registo. Nesta imagem, um bombeiro caminha pela Floresta Nacional de Sierra, que ficou em chamas devido ao incêndio Creek, que deflagrou no início de setembro. Este incêndio florestal, o maior na história deste estado, queimou mais 150.000 hectares. Os bombeiros esperam conseguir conter este incêndio até ao final do ano.

Fotografia de Stuart Palley

Em maio, uma tempestade tropical devastadora atingiu o leste da Índia e Bangladesh, matando dezenas de pessoas e deixando milhares sem casa. Na Índia, Sudhangshu Bera e a sua família carregam os seus pertences para uma escola nas proximidades, depois de a sua casa ter ficado inundada. O ciclone Amphan ficou registado como a tempestade mais forte do século XXI na Baía de Bengala.

Fotografia de Ronny Sen

No Louisiana, o furacão Laura, um dos furacões mais poderosos de que há registo nos EUA, deixou a Igreja Católica de St. Eugene, em Grand Chenier, cheia de canas-de-açúcar e lama.

Fotografia de Kathy Anderson

Um prédio em ruínas no bairro de Mar Mikhael, em Beirute, no Líbano, depois de um armazém com nitrato de amónio ter explodido no porto da capital. De acordo com um relatório da UNESCO, pelo menos 600 edifícios históricos com estatuto de património foram afetados pela explosão.

Fotografia de Rena Effendi

Um dia depois de a China ter aprovado uma lei de segurança nacional que criminalizava a dissidência em Hong Kong, a polícia cancelou a marcha anual pró-democracia da cidade. Nesta imagem, jornalistas com coletes amarelos protegem-se para evitar um canhão de água da polícia que estava apontado para os manifestantes e transeuntes.
(Do artigo: Hong Kong lamenta o fim do seu modo de vida enquanto a China reprime a dissidência.)

Fotografia de Laurel Chor

Em julho, em Hong Kong, uma mulher prestava a sua homenagem num memorial improvisado para Marcus Leung, que morreu em 2019 num protesto contra o projeto de extradição proposto pela China.

Fotografia de Laurel Chor

Profissionais médicos do Centro Médico Republicano em Stepanakert cuidam de um ferido que luta no lado Arménio do conflito de Nagorno-Karabakh, conflito entre a Arménia e o Azerbaijão.

Fotografia de ANASTASIA TAYLOR-LIND, FUNDO DE EMERGÊNCIA PARA A COVID-19 DA NATIONAL GEOGRAPHIC SOCIETY

No 75º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, pessoas que lutaram em ambos os lados do conflito refletiram sobre o legado da guerra. Quando R.R. “Russell” Clark (à esquerda) tinha 18 anos, pagou uma cirurgia para corrigir uma hérnia, para se poder alistar na Marinha dos EUA. Vera Nikitina (à direita) era uma criança quando foi evacuada de Leningrado, depois de as forças armadas alemãs sitiarem a cidade num bloqueio que se iria arrastar durante quase 900 dias. Quase todos os membros da família de Vera que não conseguiram fugir da zona controlada pelos nazis morreram de fome, frio ou devido aos bombardeamentos. Ao refletir sobre a sua infância, Vera disse que não queria que alguém “passasse novamente por este sofrimento”.

Fotografia de ROBERT CLARK

Helicópteros militares sobrevoam a Praça Vermelha de Moscovo no Dia da Vitória para comemorar a rendição da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Devido à pandemia e às ordens de confinamento, a comemoração não teve muita afluência.

Fotografia de Nanna Heitmann

Setenta e cinco anos depois de os EUA terem lançado bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, estes artefactos ainda mostram a intensidade das explosões nucleares: uma estátua de metal derretido de Buda e um relógio de bolso congelado às 11:02, no momento em que a bomba atingiu Nagasaki.

Fotografia de HIROKI KOBAYASHI

Elizabeth Cady Stanton e Ida B. Wells foram figuras importantes no movimento sufragista feminino nos EUA, movimento que há 100 anos conseguiu ajudar na aprovação da 19ª Emenda. O legado destas mulheres vive nas suas descendentes. A trineta de Elizabeth Stanton, Coline Jenkins (à esquerda), cofundou um fundo para preservar a história deste movimento que lutou pelos direitos das mulheres. A bisneta de Ida Wells, Michelle Duster (à direita), é uma ativista que escreveu dois livros sobre Ida B. Wells e angariou dinheiro para construir um monumento dedicado à sua bisavó em Chicago.

Fotografia de CELESTE SLOMAN

Em setembro, um dia após o funeral de estado de Ruth Bader Ginsburg, Lauren Stocker e as suas filhas contemplaram o retrato das quatro juízas do Supremo Tribunal dos EUA na Galeria Nacional de Retratos, em Washington D.C.

Fotografia de Maddie McGarvey

Este ano, Matilda McCrear foi identificada como sendo a última sobrevivente do último navio negreiro de que há conhecimento. Matilda foi levada em 1860 para os EUA a bordo do Clotilda, quando tinha dois anos de idade, e acredita-se que tenha sido enterrada numa sepultura sem identificação no Cemitério de Martin Station, perto de Safford, no Alabama.

Fotografia de Elias Williams

Apoiantes do movimento Black Lives Matter reuniam-se em frente ao Barclays Center, na cidade de Nova Iorque, enquanto se preparavam para marchar sobre a Ponte de Brooklyn.

Fotografia de Ruddy Roye

Esquerda: Schcola Chambers, de Miami, na Flórida, participou na Marcha do Compromisso no dia 28 de agosto em Washington D.C. “Era importante para mim fazer parte da história”, disse Schcola.
Direita: JD Barnes, nativo do Alabama que vive em Nova Iorque, começou a querer participar na Marcha do Compromisso em Washington D.C. durante o funeral de George Floyd. “Estamos no meio de algo que pode vir a ser uma revolução, algo que precisa de ser uma revolução”, diz JD Barnes.

Fotografia de WAYNE LAWRENCE

Manifestantes protestam contra a brutalidade policial numa manifestação organizada pelo movimento Black Lives Matter em Brooklyn, Nova Iorque.

Fotografia de Ruddy Roye

Na noite anterior à Marcha do Compromisso em Washington, um homem contemplava um mural que retratava Breonna Taylor, de 26 anos, que foi mortalmente baleada pela polícia em Louisville, no Kentucky. A morte de Breonna Taylor gerou indignação por todos os Estados Unidos.

Fotografia de Joshua Rashaad McFadden

O Monumento da Confederação de Tuskegee foi erguido em 1906 pelas Filhas Unidas da Confederação. Depois de ter sido vandalizado em junho, o monumento foi coberto com uma lona azul pela cidade de Tuskegee, que está a tentar encontrar uma forma de o remover completamente.

Fotografia de Kris Graves

O reverendo Robert Turner faz uma oração durante uma das escavações no cemitério de Oaklawn, em Oklahoma, onde cientistas que procuravam vítimas do Massacre Racial de Tulsa de 1921 descobriram uma vala comum. Os corpos ainda não foram identificados.

Fotografia de Bethany Mollenkof

Funcionários do Lucille’s 1913, um restaurante móvel sem fins lucrativos gerido por Chris Williams, prepara refeições gratuitas para as comunidades necessitadas em Houston, no Texas. De acordo com a Feeding America, um em cada seis americanos podia vir a passar fome em 2020 devido à pandemia.

Fotografia de Graham Dickie

Karla González e a sua mãe, Mirelis Toro, esperam na fila para comprar materiais para a “quinceañera” de Karla num bazar em Havana, Cuba. A economia do país foi severamente afetada pelo declínio no turismo e a queda nas remessas enviadas do estrangeiro, criando uma escassez de alimentos devastadora.

Fotografia de Eliana Aponte

Em Queens, Nova Iorque, um frigorífico comunitário permite que as pessoas doem ou recolham alimentos. O bairro de Queens, um dos epicentros iniciais da pandemia de COVID-19, tem sentido o desemprego generalizado e taxas elevadas de insegurança alimentar.

Fotografia de Natalie Keyssar

Enquanto aguardavam para saber os resultados das eleições presidenciais nos EUA, apoiantes de Trump participaram numa conferência de imprensa realizada por Donald Trump Jr., na sede do Partido Republicano na Geórgia, em Atlanta.

Fotografia de Christopher Gregory Rivera

Edith Singleton, residente há 45 anos em Rochester, Nova Iorque, evitou as multidões e votou antecipadamente no Centro Comunitário David F. Gantt.

Fotografia de Stephanie Mei-Ling

Ben Hoffmann esperou na fila para votar antecipadamente no Venice Town Office, em Scipio, Nova Iorque. Este ano, um recorde de 100 milhões de pessoas votaram antecipadamente nos EUA.

Fotografia de Stephanie Mei-Ling

Uma multidão celebra a vitória iminente de Joe Biden sobre Donald Trump nas eleições presidenciais, num evento “contem os votos” em Filadélfia, na noite das eleições.
(Do artigo: As eleições nos EUA terminaram. Veja as fotografias da reação de uma América dividida.)

Fotografia de Natalie Keyssar

Apoiantes de Trump e Biden discutem nas escadas do Capitólio do Estado de Michigan, em Lansing, após o anúncio dos resultados das eleições.

Fotografia de David Guttenfelder

Após o anúncio da vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais, Cooper Sherwin e Joan Taylor beijam-se enquanto seguram numa cópia emoldurada da Declaração de Independência. Cooper e Joan apoiavam Joe Biden, o presidente eleito, na Pensilvânia.

Fotografia de Natalie Keyssar

Ali, do Paquistão, comemora a vitória de Biden-Harris com a sua família em Times Square. Kamala Harris marcou uma série de estreias com a sua eleição para a vice-presidência em novembro. Kamala Harris é a primeira mulher, a primeira pessoa de cor e a primeira pessoa de ascendência sul asiática a ser eleita para este cargo.

Fotografia de Ismail Ferdous

Uma fotografia de longa exposição mostra o lançamento da nave Crew Dragon da SpaceX, no Centro Espacial Kennedy, em novembro. Este lançamento foi um marco importante nos voos espaciais com financiamento privado.

(Do artigo: Lançamento da SpaceX assinala arranque de voos comerciais regulares em órbita.)

Fotografia de Michael Seeley


Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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