A Primeira Posse ‘Virtual’ da América Abre Uma Nova Era

No juramento com uma pequena audiência socialmente distanciada, Biden disse que “a causa da democracia” tinha triunfado e pediu união.

Publicado 22/01/2021, 12:21
Joseph R. Biden faz o juramento para se tornar no 46º presidente dos Estados Unidos. “A ...

Joseph R. Biden faz o juramento para se tornar no 46º presidente dos Estados Unidos. “A história americana não depende de cada um de nós, não depende de alguns de nós”, disse Biden no seu discurso, “mas de todos nós, o povo, que procura uma união mais perfeita”.

Fotografia de Andrew Harnik, AP

“Hoje celebramos o triunfo não de um candidato, mas de uma causa, a causa da democracia”, disse Joseph Robinette Biden Jr. momentos depois de tomar posse enquanto 46º presidente dos Estados Unidos.

Neste dia, os americanos são lembrados de que são diferentes. Contudo, em qualquer outro dia, podem exagerar um pouco na sua singularidade. Afinal de contas, a América não inventou a democracia. Os EUA estão longe de serem o único repositório mundial de liberdade de expressão, dos encontros pacíficos e dos julgamentos imparciais. Com exceção para a dupla da música country Brooks & Dunn, cuja música “Só na América” foi um marco na campanha eleitoral, em muitas outras nações “todas as pessoas podem dançar” e “sonhar tão alto quanto quiserem”. Neste contexto, o grupo apartidário FairVote lista o que chama de 35 “democracias bem estabelecidas” – e em cada um desses países, uma eleição nacional produz normalmente um vencedor a quem o poder é transferido de forma ordeira e pacífica.

O que diferencia a América é o espetáculo dessa transferência, transmitida ao vivo para o mundo inteiro: a pessoa que abdica do poder e o seu recetor no mesmo palco, na ala oeste do Capitólio, rodeados pelas suas famílias e por outras pessoas eleitas, incluindo a fraternidade de elite dos anteriores presidentes, enquanto centenas de milhares de pessoas se reúnem para assistir, um mar de testemunhas que por vezes se espalha por todo o National Mall até ao obelisco dedicado ao primeiro presidente da América, George Washington. Enquanto ato de abertura e renovação, é um evento ao ar livre por excelência. Acima de tudo, esta passagem de poder de um presidente para outro transmite a ideia sagrada de que o poder é sempre derivativo – que reside, em última análise e de forma imutável, no povo. Apesar de todo o burlesco que degrada a política norte-americana, este ritual quadrienal realizado no dia 20 de janeiro é quando os americanos são humildemente recordados das suas solenes responsabilidades. É uma autorregulação transformada em manifesto.

A cerimónia de posse em 2013 foi muito diferente da que aconteceu em 2021. Quase 200.000 bandeiras americanas, juntamente com as bandeiras de cada estado, representam a multidão que teria comparecido se não fosse a pandemia.

Fotografia de STEPHEN WILKES

Uma família com máscaras com a bandeira dos EUA espreita através da vedação de segurança para ver o trajeto que a comitiva de posse iria fazer até ao Capitólio dos Estados Unidos.

Fotografia de Nina Berman, National Geograhpic

Hoje, o impacto visual desse evento foi visivelmente enfraquecido pela ausência do presidente cessante, Donald Trump. Desde 1869 que um antigo presidente não se recusava a juntar ao novo presidente em palco. Nesse dia de posse, há mais de 150 anos, outro presidente recentemente impugnado, Andrew Johnson, optou por não comparecer. Fora isso, a multidão era enorme para receber o recém-eleito Ulysses S. Grant, quando este fez o seu juramento de posse no pórtico leste do Capitólio, de frente para o Supremo Tribunal. (Para acomodar o aumento do público, as cerimónias foram transferidas para a ala oeste, começando com o juramento de Ronald Reagan no dia 20 de janeiro de 1981.) No seu discurso à nação, Grant disse: “O país acaba de emergir de uma enorme rebelião, muitas questões virão perante o país para serem solucionadas nos próximos quatro anos, questões com as quais as administrações anteriores nunca tiveram de lidar.”

O 18º presidente passou os oito anos seguintes a supervisionar uma reconstrução de curta duração, crises económicas e um governo corrupto. Ainda assim, Grant manteve a América unida e, em 1877, deu as boas-vindas ao seu sucessor, Rutherford Hayes, para um jantar na Casa Branca. Por outras palavras, o país sobreviveu à quebra de tradição de Andrew Johnson. E é provável que ultrapasse o desentendimento entre o 45º e o 46º presidente. (Descubra algumas das transições presidenciais mais conturbadas da América.)

Tanto os seguidores como os opositores do presidente Trump podem concordar em pelo menos uma coisa: os quatro anos de Trump na Sala Oval resultaram num corte profundo com muitas das normas que o precederam. Ou como Trump disse com um eufemismo atípico na Base Aérea de Andrews antes de partir para Palm Beach: “Não éramos uma administração normal”. Muito antes de Trump, os burocratas no governo eram esporadicamente considerados incompetentes pelos políticos – mas nunca profundamente malévolos. A imprensa era criticada pelo seu preconceito liberal e elitismo (e de facto foi abertamente partidária durante o início do século XIX), mas nunca foi repetidamente acusada de ser “inimiga do povo americano”, pelo menos durante as nossas vidas. A experiência de cientistas, educadores e funcionários das autoridades foi sempre considerada falível, mas nunca foi completamente descartada. Agora, uma suspeita abrangente sobre quase todas as grandes instituições aflige um segmento perturbadoramente grande do eleitorado.

A Banda Showtime da Universidade Howard ensaia no campus, na noite anterior a escoltar Kamala Harris, formada em Howard, para a posse.

Fotografia de RED SOARES, NATIONAL GEOGRAPHIC

Antes de prestar juramento, Biden e a sua família juntaram-se aos líderes do Congresso para a missa na Catedral de St. Matthew em Washington D.C.

Fotografia de Tom Brenner, REUTERS

Esquerda: A Banda do Exército dos EUA toca durante a cerimónia de posse. Esta cerimónia repleta de tradição foi reduzida para evitar a propagação de coronavírus.
Direita: Com distanciamento social, o público assiste aos protocolos de posse. Devido à pandemia e ameaças à segurança, não foi permitida a presença de uma grande multidão.

Fotografia de TASOS KATOPODIS, GETTY IMAGES (ESQUERDA) E CAROLYN KASTER, AP (DIREITA)

No seu discurso, Biden sentiu a necessidade de lembrar que “há verdade e há mentira”, acrescentando que todos os cidadãos têm o dever de defender a primeira enquanto derrotam a segunda. Acima de tudo, o seu discurso foi um apelo à união. “A política não precisa de ser um incêndio violento que destrói tudo no seu caminho”, disse Biden. “Cada desacordo não precisa de ser um motivo para uma guerra aberta.” Será que Biden está a despertar um vocabulário americano perdido? Ou será que este tipo de linguagem já está extinto?

Hoje, graças à pandemia, foi o primeiro dia de posse “virtual” da América. Isto também marcou um romper da tradição – embora fosse estranhamente compatível com os eventos da campanha presidencial de Biden, eventos conscientes em relação à COVID-19, ao passo que os de Trump estavam repletos de multidões. Pela primeira vez, os EUA têm um novo presidente cujo mandato se pode medir apenas pelo número total de votos, em vez de reforçar as métricas visuais de multidões nos salões de convenções, na sede da campanha eleitoral e no dia de posse. Tudo isto, para além da sua idade – 78 anos, o presidente mais velho da história dos EUA – suscita questões sobre a forma como irá governar um país tão fisicamente abalado, como a nação que o presidente Grant enfrentou quando tinha 46 anos.

O casal Biden caminha sobre um tapete azul e vermelho em direção ao palco na ala oeste do Capitólio dos EUA, onde acontece a transferência de poder entre as administrações.

Fotografia de Win McNamee, Getty Images

Kamala Harris faz o juramento para a vice-presidência perante a juíza do Supremo Tribunal Sonia Sotomayor, enquanto o seu marido, Doug Emhoff, segura na bíblia. Kamala Harris é a primeira vice-presidente mulher, negra e asiática do país.

Fotografia de Andrew Harnik, AP Photo

Tradicionalmente, o Dia de Posse oferecia um primeiro vislumbre sobre o tom e prioridades de uma nova administração. Era um prenúncio útil da nova era que se aproximava, embora nos últimos anos o esplendor do dia 20 de janeiro também possa ser encarado como uma celebração dos excessos americanos, com doadores corporativos a invadirem os bares de hotéis em Washington. Eu estava na cidade em 2005 para o início do segundo mandato de George W. Bush – para participar, entre outras festas de gala, no badalado baile “Black Tie & Boots” organizado por texanos abastados. A arrogância vertiginosa daquela noite virou decididamente a página em relação ao início turbulento de Bush quatro anos antes, após uma eleição contestada que foi finalmente decidida no Supremo Tribunal dos EUA.

Quatro anos mais tarde, enquanto habitante de Capitol Hill, acordei na manhã de 20 de janeiro para assistir a milhares de vizinhos afro-americanos aglomerados de pé, sob um frio cortante, para testemunhar a posse do primeiro presidente negro. Mais tarde, enquanto eu fazia investigação para um livro sobre o Congresso, viria a descobrir que, naquela mesma noite, um grupo de cerca de 15 líderes republicanos se reuniu para um jantar casual numa churrascaria em Washington. Muitos deles assistiram à posse de Barack Obama e ficaram visivelmente chocados com a imensidão da multidão – uma evidência visual de que toda a América estava contra eles. (Ao final da noite, o seu ânimo melhorou bastante, enquanto traçavam um plano para fazer de Obama um presidente com um só mandato.)

Uma bandeira ondula ao vento em Black Lives Matter Plaza, a norte da Casa Branca, enquanto o helicóptero Marine One levanta voo com Donald e Melania Trump a bordo.

Fotografia de David Guttenfelder, National Geographic

Esquerda: Trump fala à imprensa na Casa Branca pela última vez enquanto presidente, antes de partir com a sua família para Mar-a-Lago, uma propriedade na Flórida que será agora a sua residência principal.
Direita: Trump desembarca no aeroporto de West Palm Beach para começar a sua vida enquanto cidadão comum.

Fotografia de ALEX BRANDON, AP (ESQUERDA) E CARLOS BARRIA, REUTERS (DIREITA)

Mas a minha memória mais nítida de 20 de janeiro de 2009 surge mais tarde nessa noite, depois de um baile de gala em que participei na Pennsylvania Avenue. Os participantes eram na sua maioria jovens funcionários da campanha de Obama e voluntários, mas entre eles estava Walter Dellinger, o ex-procurador-geral durante o governo de Clinton. Quando a festa acabou, vi Dellinger de cabelo branco e smoking a despedir-se, montar uma bicicleta (durante anos foi o seu veículo de eleição em Washington) e a pedalar noite dentro. Alguns participantes mais jovens olharam para o antigo funcionário de Clinton com admiração, como se ele tivesse na sua mente um mapa da cidade que para eles era incompreensível.

Esta mesma cidade aguarda agora um presidente que, enquanto senador dos EUA durante 36 anos, fez questão de não viver lá, preferindo apanhar o comboio todas as noites depois do trabalho para seguir para Wilmington, no estado de Delaware, para estar com a sua família. Os presidentes interagem com Washington de formas que são reveladoras. Contudo, apesar de uma vida dedicada à política, a ligação de Biden com a capital é pouco distinta. George W. Bush era famoso por gostar de estar na Casa Branca, raramente se aventurava ao ar livre (exceto para fazer trilhos de bicicleta); alguns amigos de Bush, que tinham um restaurante muito conhecido em Austin chamado Jeffrey's, abriram um restaurante irmão em Washington na esperança de capitalizar a presença de texanos, mas fracassou. Os Obama faziam questão de patrocinar os estabelecimentos locais e eventos desportivos, enquanto que Trump preferia ficar na residência da Casa Branca ou no seu enorme hotel na mesma rua. Será que Biden vai usar Washington como o seu palco? As pistas habituais do Dia de Posse não são evidentes.

Enquanto Biden discursa após tomar posse, as escadarias do Capitólio dos EUA estão escassamente preenchidas com participantes. A tarde incluiu discursos, orações, espetáculos e um recital de poesia.

Fotografia de Brendan Mcdermid, Reuters

Ainda assim, foi feita história quando o novo presidente fez o seu juramento perante um símbolo sagrado da democracia que apenas duas semanas antes tinha sido invadido por apoiantes do seu antecessor. O Capitólio permanece de pé. A insurreição fracassou, uma insurreição que visava privar Joe Biden da sua presidência conquistada democraticamente. Com máscaras na cara sob um céu ensolarado de inverno, algumas centenas de convidados curvaram-se em oração em nome da nova administração. Se um National Mall vazio era o preço da preservação da República, então Washington contou as suas bênçãos e aguarda por futuras celebrações.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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