A Resposta Branda da Polícia à Invasão do Capitólio Enfatiza o ‘Poder Branco na América’

Joe Biden, o presidente eleito dos EUA, diz que “a resposta da polícia foi uma falha clara na justiça igualitária”.

Por DeNeen L. Brown
Publicado 11/01/2021, 17:17 WET
Um polícia de Washington D.C. (de capacete) foi violentamente empurrado dos degraus do Capitólio dos EUA ...

Um polícia de Washington D.C. (de capacete) foi violentamente empurrado dos degraus do Capitólio dos EUA e cercado por insurgentes que tentavam invadir o edifício no dia 6 de janeiro de 2021.

Fotografia de Mel D. Cole

Na quarta-feira passada, enquanto uma violenta multidão pró-Trump tomava de assalto o Capitólio dos EUA – escalando paredes, partindo janelas, destruindo portas, vandalizando escritórios e invadindo as galerias da Câmara e do Senado – ativistas dos direitos humanos e de justiça racial assistiam com espanto e indignação à atuação da polícia federal, que aparentemente recuou e deu rédea solta aos desordeiros.

Este tumulto aconteceu poucos meses depois de a polícia norte-americana ter disparado, espancado, usado gás lacrimogéneo e detido manifestantes negros que protestavam pacificamente contra a brutalidade policial. Os observadores estão chocados com o que descrevem ser uma disparidade flagrante na forma como a polícia respondeu agora aos manifestantes, na sua maioria brancos, que invadiram o Capitólio dos EUA na quarta-feira.

“Quando são manifestantes brancos a cometerem atos de violência, a polícia fica parada”, diz Jeralyn Cave, assessora de comunicação do Advancement Project, uma organização nacional de direitos civis e justiça racial. “E quando os organizadores são negros ou hispânicos e exigem justiça, a polícia é violenta e ataca os manifestantes.”

“O que se passou no Capitólio na quarta-feira é um verdadeiro testemunho do poder branco na América”, diz Jeralyn.

Apoiantes do presidente Donald Trump abrem caminho em direção aos degraus do edifício do Capitólio enquanto gritam “EUA invadem os EUA”.

Fotografia de Mel D. Cole

Durante uma conferência de imprensa feita na quinta-feira, o presidente eleito Joe Biden disse que havia um padrão duplo evidente na resposta dada pela polícia aos partidários de Trump que invadiram o Capitólio, e no tratamento dado às pessoas do movimento Black Lives Matter que se manifestaram pacificamente em Washington no verão passado.

“Para além de termos assistido ao fracasso na proteção de um dos três ramos do nosso governo, também assistimos a um claro fracasso na justiça igualitária”, disse Biden. “Todos sabemos que, se ontem fosse um grupo Black Lives Matter a protestar, teria sido tratado de forma muito, muito diferente da multidão de bandidos que invadiram o Capitólio. Todos nós sabemos que isso é verdade, e isto é inaceitável.”

Esquerda: Apoiantes de Trump subjugam as forças de segurança e derrubam barricadas no exterior do edifício do Capitólio.
Direita: Polícia e manifestantes violentos enfrentam-se no meio de jatos de gás pimenta. Apesar dos esforços dos agentes, a multidão invadiu o Capitólio.

Fotografia de ROBERTO SCHIMDT, AFP / GETTY (ESQUERDA) E VICTOR J. BLUE, BLOOMBERG / GETTY (DIREITA)

As autoridades dizem que o ataque ao Capitólio foi incitado pelo presidente Trump, que passou semanas a atacar falsamente os resultados das eleições presidenciais dos EUA e tentou impedir uma transferência pacífica de poder. Trump recusou-se veementemente a conceder a eleição de novembro e tentou impedir o vice-presidente Mike Pence de supervisionar a contagem formal dos votos do Colégio Eleitoral no Congresso.

Na quarta-feira de manhã, enquanto falava protegido atrás de um escudo à prova de bala no relvado da Casa Branca, Trump incitou milhares de apoiantes políticos a marcharem até ao Capitólio.

O presidente Trump dirigiu-se aos seus apoiantes no relvado da Casa Branca na manhã de quarta-feira e afirmou que as eleições lhe tinham sido roubadas. “Nós nunca iremos desistir. Nunca iremos ceder. Isso nunca irá acontecer. Nós não concedemos quando há roubo envolvido”, disse Trump.

Fotografia de Mel D. Cole

“Ninguém aqui hoje quer ver a nossa vitória eleitoral roubada por democratas radicais e entusiasmados, que é o que eles estão a fazer. E roubada pela imprensa de notícias falsas. Foi isso que fizeram e estão a fazer”, gritou Trump. “Nós nunca iremos desistir. Nunca iremos ceder. Isso nunca irá acontecer. Nós não concedemos quando há roubo envolvido.”

Trump exortou a multidão a derrubar os resultados eleitorais. Milhares dos seus apoiantes marcharam depois em direção ao Capitólio.

De acordo com Robert J. Contee III, chefe do Departamento da Polícia Metropolitana de Washington D.C., a multidão que saiu do comício de Trump na Casa Branca ficou mais agitada à medida que marchava para o Capitólio. “À medida que os manifestantes se aproximavam do Capitólio dos EUA, houve uma mudança percetível no seu comportamento”, disse Robert Contee aos repórteres durante uma conferência de imprensa na quarta-feira. “Eles derrubaram vedações e confrontaram os polícias em torno do edifício.”

Steven Sund, chefe da Polícia do Capitólio dos EUA, força policial que tem cerca de 2.300 agentes e é responsável pela proteção do Congresso e do Capitólio dos EUA, disse que os agentes foram subjugados pelos milhares de manifestantes que invadiram o edifício.

“Aqueles indivíduos atacaram ativamente a Polícia do Capitólio dos Estados Unidos e outros polícias com tubos de metal, usaram químicos irritantes e empunharam outras armas contra os nossos agentes”, disse Steven Sund através de um comunicado. “Eles estavam determinados a entrar no edifício do Capitólio e a provocar muitos danos.”

Enquanto os habitantes de Washington e pessoas pelo mundo inteiro assistiam incrédulas às notícias, manifestantes invadiram o Capitólio e ocuparam o edifício durante mais de quatro horas, recusando-se a sair. Pareciam cenas de um filme distópico, mas estavam a acontecer em tempo real.

“O que estamos a testemunhar neste momento é a manifestação e o culminar de uma liderança imprudente, um uso indevido do poder e anarquia”, disse em comunicado Derrick Johnson, presidente da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP). “Isto não é protesto ou ativismo; é uma insurreição, um ataque à nossa democracia e um golpe incitado pelo presidente Trump.”

A presidente da câmara de Washington D.C., Muriel Bowser, criticou a resposta da Polícia do Capitólio e pediu que o presidente Trump fosse responsabilizado pelo ataque.

“Foi obviamente um fracasso”, disse Muriel Bowser, “caso contrário não teríamos linhas de defesa derrubadas e pessoas a entrarem no edifício através de janelas partidas.”

Muriel Bowser pediu ao Congresso “para criar uma comissão para investigar as falhas de segurança que aconteceram no Capitólio, no dia 6 de janeiro de 2021, não só para responsabilizar os culpados, mas também para garantir que não acontecem novamente”.

Muriel acrescentou que a resposta da polícia foi mais agressiva em junho passado, durante os protestos antirracismo em Washington. “Também devemos compreender as razões pelas quais a resposta da polícia federal foi muito mais forte nos protestos do verão do que durante o ataque de ontem ao Capitólio.”

As cenas no Capitólio revelaram um enorme contraste na forma como a polícia respondeu no verão passado, quando milhares de manifestantes negros saíram à rua por toda a América após as mortes de George Floyd, Ahmaud Arbery e Breonna Taylor. As imagens desses protestos mostram a polícia com equipamento anti-motim completo a espancar os manifestantes e a usar gás lacrimogéneo para dispersar as multidões.

Esquerda: A polícia detém uma pessoa que se manifestava contra o assassinato de George Floyd em Minneapolis, cinco dias depois de George Floyd ter sido sufocado a 25 de maio de 2020. “Todos sabemos que, se fosse um grupo Black Lives Matter a protestar ontem, teria sido tratado de maneira muito, muito diferente da forma que foi tratada a multidão de bandidos que invadiram o Capitólio”, disse o presidente eleito Joe Biden sobre a invasão de janeiro ao Capitólio.
Direita: Apoiantes de Trump confrontam a polícia no interior do Capitólio. Mais de 50 polícias ficaram feridos durante a rebelião e um morreu. Quatro manifestantes morreram, um baleado pela polícia e três devido a emergências médicas.

Fotografia de MALIKE SIDIBE, REDUX (ESQUERDA) E MANUEL BALCE CENETA, AP (DIREITA)

Um manifestante no meio de uma nuvem de gás lacrimogéneo e gás pimenta enquanto marchava por George Floyd em Raleigh, na Carolina do Norte, no dia 30 de maio de 2020. As imagens dos protestos do verão passado mostram a polícia com equipamento anti-motim a usar força excessiva para dispersar multidões desarmadas.

Fotografia de Mehmet Demirci, Redux

Esquerda: No dia 2 de junho de 2020, membros da Guarda Nacional de Washington D.C. vigiavam o Memorial Lincoln enquanto manifestantes se reuniam para protestar contra a brutalidade policial.
Direita: Uma linha de polícias defende uma barricada de metal enquanto membros da multidão tentam invadir o Capitólio dos EUA no dia 6 de janeiro de 2021. O chefe da Polícia do Capitólio demitiu-se no dia seguinte.

Fotografia de JULIO CORTEZ, AP (DIREITA)

As reações nas redes sociais foram rápidas e muito revoltadas.

“Eu vi muito mais gás lacrimogéneo nas ruas de Minneapolis. Vi mais balas de borracha em Portland contra o movimento Black Lives Matter”, disse uma das pessoas no Twitter. “Já vi mais detenções em protestos a favor do ambiente do que vi hoje, quando terroristas invadiram o Capitólio.”

Um relatório divulgado em agosto pela Amnistia Internacional citava 125 incidentes de violência policial contra manifestantes, médicos de emergência, repórteres e observadores em 40 estados e em Washington D.C. De acordo com este relatório, “a polícia usou força física e produtos químicos, como gás lacrimogéneo e gás pimenta, e projéteis de impacto cinético como primeira tática de recurso contra manifestantes pacíficos, não como resposta para qualquer tipo de ameaça ou violência real”.

Ernest Coverson, um dos autores do relatório da Amnistia Internacional, escreveu que “o uso excessivo da força por parte da polícia demonstra o racismo e a impunidade demasiado sistémicos contra os quais as pessoas tinham saído às ruas para protestar”.

Apesar dos apelos dos manifestantes para se poderem manifestar pacificamente contra a violência policial, a repressão violenta da polícia aumentou durante o verão. O presidente Trump pediu mais força policial, exigindo uma resposta ao estilo militar para dispersar os manifestantes.

“As ações do presidente Trump representam uma inclinação para o autoritarismo e devem parar de imediato”, afirmava o relatório da Amnistia Internacional. “Precisamos que a abordagem do país ao policiamento de manifestações seja alterada de raiz ao nível local, estadual e federal.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler