ADN Revela que o Primeiro Povo das Caraíbas Foi Quase Exterminado Antes da Chegada dos Espanhóis

Novos dados genéticos de ossos antigos sugerem que uma vaga de marinheiros sul-americanos devastou os ilhéus das Caraíbas.

Publicado 1/01/2021, 08:10 WET
Comerciantes caribenhos aproximam-se de uma ilha nas Bahamas, parte de uma antiga rede de trocas que ...

Comerciantes caribenhos aproximam-se de uma ilha nas Bahamas, parte de uma antiga rede de trocas que unia estas ilhas antes da chegada dos espanhóis.

Fotografia de MERALD CLARK, TROCAS DE PEDRAS NO ARQUIPÉLAGO DAS BAHAMAS (PINTURA)

Abrangendo 260 milhões de quilómetros quadrados com mais de 700 ilhas, o Mar das Caraíbas foi um dos últimos lugares colonizados pelos nativos americanos enquanto estes exploravam e colonizavam as Américas do Sul e do Norte. Os arqueólogos tentam há muito localizar as origens e os movimentos destes intrépidos marinheiros. Agora, graças ao material genético recolhido de ossos de antigos residentes das Caraíbas, a história invisível deste arquipélago tropical está a vir à tona.

Entre as descobertas surpreendentes está o facto de a maioria dos habitantes originais das Caraíbas poder ter sido exterminada por sul-americanos mil anos antes da invasão espanhola que começou em 1492. Para além disso, as populações indígenas de ilhas como Porto Rico e São Domingos eram provavelmente muito mais pequenas do que se pensava quando os espanhóis chegaram.

A extração de ADN de ossos em lugares quentes e húmidos como as Caraíbas era impossível até recentemente. Mas, graças aos avanços recentes na tecnologia genética, um laboratório da Universidade de Harvard, dirigido pelo geneticista David Reich, conseguiu recuperar ADN de 174 indivíduos escavados em locais desde a Venezuela às Bahamas.

Os resultados, publicados no dia 23 de dezembro na revista Nature, seguem os passos de um artigo publicado em julho na Science que analisou os genomas de 93 indivíduos caribenhos num laboratório da Universidade de Copenhaga. “Com esta descoberta conseguimos pintar um quadro muito mais detalhado da história da migração inicial das Caraíbas”, diz Johannes Krause, diretor do Instituto Max Planck e coautor do artigo da Science .

Ambos os estudos confirmam que uma vaga de agricultores que produziam cerâmica – conhecidos por povo da Era da Cerâmica – partiram em canoas da costa nordeste da América do Sul, há cerca de 2.500 anos, e percorreram as ilhas das Caraíbas. Contudo, não foram os primeiros colonizadores. Em muitas das ilhas, este povo encontrou pessoas que já lá tinham chegado há cerca de 6000 ou 7000 anos vindas das costas da América Central e do norte da América do Sul.

Os agricultores ceramistas chegaram às Caraíbas vindos da América do Sul há cerca de 2500 anos, substituindo em grande parte os habitantes anteriores das ilhas, que viviam da recolha de alimentos. Os ceramistas – conhecidos por povo da Era da Cerâmica – também continuaram a fazer e a usar ferramentas de pedra semelhantes às usadas pelos habitantes do Período Arcaico anterior.

Fotografia de KRISTEN GRACE, MUSEU DA FLÓRIDA

Os habitantes anteriores – conhecidos por povo do Período Arcaico – parecem ter praticamente desaparecido após a chegada dos novos colonizadores. Existem traços genéticos muito limitados de indivíduos “arcaicos” na Era da Cerâmica, um sinal de que os dois grupos raramente se misturavam. Os ceramistas, parentes dos povos de língua aruaque da atualidade, suplantaram os primeiros habitantes – presumivelmente através de doenças ou violência – à medida que colonizavam as novas ilhas.

Mas existem exceções intrigantes que revelam um cenário mais complexo sobre as interações entre estes dois povos distintos.

“O mais notável é que o modo de vida arcaico parece ter sobrevivido na região oeste de Cuba até cerca de 900 d.C.”, diz William Keegan, arqueólogo do Museu de História Natural da Flórida e coautor do estudo da Nature. “Aparentemente, viveram sem serem molestados e quase não se misturaram.”

Descoberta provocadora

Uma das descobertas mais provocadoras do estudo de Harvard revela que as populações indígenas de grandes ilhas como Porto Rico e São Domingos eram muito mais pequenas quando os espanhóis lá chegaram do que o sugerido pelos registos espanhóis.

Uma década depois da chegada de Colombo, um frade espanhol estimou que havia cerca de 3.5 milhões de pessoas em São Domingos, hoje Haiti e República Dominicana. Mas as extrapolações dos dados genéticos, com base em novos modelos matemáticos, apontam para apenas dezenas de milhares de habitantes. Isto coloca em causa a antiga suposição de que centenas de milhares, senão milhões, de indígenas morreram de doenças e de outros impactos da invasão europeia.

O estudo de Harvard baseou-se no ADN recuperado dos restos mortais de 174 indivíduos, incluindo esta mulher lucaiana que viveu nas Bahamas no século XIII. O povo lucaiano praticava o achatamento craniano, conforme se pode ver pelo formato do seu crânio.

Fotografia de William F. Keegan, Museu da Flórida

“Esta nova abordagem nas estimativas populacionais tem potencial para revolucionar a nossa visão sobre as migrações e mudanças culturais do passado”, diz Johannes Krause.

Embora um grande número de indígenas tenha morrido após a chegada dos espanhóis, os estudos de genética mostram que o seu ADN sobrevive nos ilhéus da atualidade, misturado com genes de colonizadores europeus e africanos escravizados.

Muitos grupos indígenas alegam que os geneticistas – muitas vezes brancos europeus e americanos – não os consultam ou mostram o devido respeito pelas suas tradições quando investigam as suas origens. Porém, neste caso, os autores do artigo da Nature colaboraram com comunidades de descendentes, bem como com estudiosos locais das Caraíbas, na recolha e análise dos seus dados. Esta investigação foi apoiada em parte por uma bolsa da National Geographic Society.

Fazer ligações

Há um mistério ainda por resolver: Como é que as populações de ilhas relativamente pequenas evitaram a endogamia ao longo de tantos séculos? Não existem sinais de quaisquer migrações subsequentes para o continente. Mas os arqueólogos dizem que as novas evidências apontam para vários contactos entre ilhas que provavelmente ajudaram a garantir a diversidade genética.

O arqueólogo Michael Pateman e Anthony Maillis, um habitante local, começam a escavar uma duna em Long Island, nas Bahamas. Em 2015, um furacão erodiu a duna e expôs ossos humanos, que Anthony Maillis e amigos detetaram e relataram às autoridades. A duna continha três cemitérios antigos, incluindo a mulher lucaiana (na fotografia anterior).

Fotografia de William F. Keegan, Museu da Flórida

A investigação publicada na Nature “destaca a conectividade dos povos da região”, diz Jada Benn Torres, antropóloga genética da Universidade Vanderbilt que não esteve diretamente envolvida no estudo. Jada Torres e os seus colegas dizem que o passo seguinte passa pela compreensão das ligações entre as ilhas num sistema que permaneceu relativamente fechado até à chegada dos espanhóis em 1492.

“Esta era uma região dinâmica e interligada”, diz Miguel Vilar, antropólogo da Universidade de Maryland. “A história das Caraíbas”, diz Miguel, “está finalmente a ser compreendida através do ADN de uma forma que a arqueologia por si só não conseguia fazer anteriormente”.
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

Continuar a Ler