Capitólio dos EUA: Uma História Turbulenta de Atentados, Tentativas de Assassinato e Violência

A invasão do Capitólio dos EUA por uma multidão de apoiantes de Trump não tem precedentes. Mas este edifício já testemunhou muita agitação.

Publicado 7/01/2021, 15:46 WET
Um homem armado abriu fogo no Capitólio dos EUA em 1995, matando dois polícias do Capitólio ...

Um homem armado abriu fogo no Capitólio dos EUA em 1995, matando dois polícias do Capitólio que defendiam o edifício. Os dois agentes abatidos foram os primeiros cidadãos privados a receber honras na Rotunda do Capitólio.

Fotografia de JOE MARQUETTE/AFP via Getty Images

A invasão do Capitólio dos EUA por uma multidão que apoia o presidente Trump não tem precedentes. Mas a sede do governo da América já sofreu atentados, uma tentativa de assassinato presidencial e até a destruição por parte de forças estrangeiras. E também existiram ataques internos – incluindo um legislador que atacou um colega de forma quase mortal.

Eis um resumo das ameaças que o Capitólio dos EUA enfrentou ao longo dos anos:

Durante a Guerra de 1812, enquanto ainda estava em construção, o edifício do Capitólio dos EUA foi incendiado pelos britânicos.

Fotografia de Universal History Archive, Getty Images

1814: Forças britânicas incendeiam o Capitólio dos EUA

O Capitólio dos Estados Unidos ainda estava em construção quando foi incendiado pelas tropas britânicas que invadiram Washington D.C. num dos conflitos mais famosos da Guerra de 1812. As tropas britânicas “acenderam uma fogueira gigante de mobiliário” no Hall da Casa dos Representantes. O fogo era tão intenso que destruiu a estátua da Liberdade de mármore de Giuseppe Franzoni. Outra fogueira foi acesa na Câmara do Supremo Tribunal, que na época ficava no edifício do Capitólio.

Quando avaliaram os danos, vários membros do Congresso pediram a transferência do governo federal para Filadélfia, ou para outra cidade que considerassem mais segura. (Ironicamente, Washington D.C. tinha sido estabelecida enquanto capital do país depois de uma multidão de soldados embriagados, que estavam furiosos pelos salários em atraso, ter invadido a Câmara Estadual da Filadélfia em junho de 1783.)

1835: Tentativa de assassinato do presidente Andrew Jackson

No dia 30 de janeiro de 1835, um imigrante britânico de trinta e poucos anos chamado Richard Lawrence tentou assassinar o presidente Andrew Jackson enquanto este saía de um funeral do Congresso no Capitólio dos Estados Unidos. Felizmente, a tentativa de Richard Lawrence falhou – duas vezes. Quando a pólvora da sua primeira pistola não acendeu, Richard ergueu uma segunda pistola, mas errou o alvo e foi atacado por transeuntes. Foi a primeira tentativa conhecida de assassinato de um presidente dos EUA.

Esta tentativa de assassinato aconteceu durante um momento de tensão entre os legisladores, depois de o presidente ter vetado um projeto de lei que reautorizava o contrato do Segundo Banco dos Estados Unidos. Mas Richard Lawrence – um pintor desempregado – foi posteriormente considerado inocente devido a insanidade: não só alegou que Jackson tinha matado o seu pai, como também disse que era o rei Ricardo III e que o veto lhe negava os pagamentos a que tinha direito das colónias americanas.

1856: Espancamento do Senador Charles Sumner

Um dos incidentes mais violentos no Capitólio dos EUA surgiu de um dos seus próprios legisladores. Em 1856, enquanto as tensões aumentavam sobre o destino da escravatura nos Estados Unidos, nos momentos que levaram à Guerra Civil, Preston Brooks, representante da Carolina do Sul, espancou violentamente com uma bengala o senador Charles Sumner, do Massachusetts, na Câmara do Senado, por este ter feito um discurso contra a escravatura. Charles Sumner acabou por recuperar e Preston Brooks renunciou. Embora Preston tenha sido reeleito, acabou por falecer em 1857, antes do seu novo mandato no Congresso.

1915: Atentado de 4 de julho na Sala de Receção do Senado

Enquanto a nação se preparava para o fim de semana de 4 de julho de 1915, Erich Muenter, um ex-professor da Universidade de Harvard, explodiu três barras de dinamite na Sala de Receção do Senado. Erich Muenter explicou mais tarde que estava zangado porque os financiadores americanos estavam a ajudar o Reino Unido na Primeira Guerra Mundial, apesar da neutralidade oficial dos Estados Unidos na época. Não houve feridos – o Senado não estava em sessão – mas o New York Times relatou que a explosão tinha partido um lustre, danificado o gesso do teto da sala e aberto portas – incluindo a porta do escritório do vice-presidente.

Quatro nacionalistas porto-riquenhos abriram fogo e agitaram a bandeira do seu território na galeria da Câmara em 1954.

Fotografia de George Skadding, The LIFE Picture Collection, Getty Images

1954: Ataque nacionalista porto-riquenho

Em 1954, muito antes de o Capitólio ter uma segurança apertada ou detetores de metais, quatro nacionalistas porto-riquenhos entraram na galeria da Câmara com armas e começaram a disparar indiscriminadamente. Um deles agitou uma bandeira de Porto Rico. Cinco membros da Câmara ficaram feridos durante este protesto que visava a independência do país, uma independência que os Estados Unidos tinham retirado a Espanha em 1898 durante a Guerra Hispano-Americana. Os agressores cumpriram longas penas de prisão, que foram atenuadas pelo presidente Jimmy Carter em 1979 após uma campanha internacional.

Esquerda: O senador Mack Mattingly observa um buraco de quatro metros feito por uma bomba que explodiu a nove metros da câmara do Senado em novembro de 1983.
Direita: Uma chamada anónima para o Washington Post alertou que uma bomba tinha sido escondida no edifício do Capitólio dos EUA. Este atentado foi uma retaliação pela ação militar dos EUA em Granada e no Líbano. A explosão afetou o lado do Senado do edifício.

Fotografia de BETTMANN ARCHIVE, GETTY IMAGES

1971: Atentado da organização Weather Underground

A violenta organização anti-guerra Weather Underground colocou uma bomba numa das casas de banho no Senado do Capitólio. A explosão nas primeiras horas do dia 1 de março de 1971 provocou centenas de milhares de dólares em danos, mas sem vítimas.

1983: Bomba rebenta perto do Senado

Também não houve vítimas quando uma bomba escondida debaixo de um banco explodiu no lado de fora da Câmara do Senado, rebentando as dobradiças da porta do gabinete do senador da Virgínia Ocidental, Robert Byrd. Um grupo que se autodenominava Unidade de Resistência Armada fez o ataque para protestar contra as ações militares dos EUA em Granada e no Líbano. Foram acusadas sete pessoas por este ataque.

1998: Homem armado abate dois polícias do Capitólio

Um homem armado abriu caminho por um posto de controlo de segurança no Capitólio dos EUA, matando o polícia do Capitólio Jacob J. Chestnut Jr., enquanto se dirigia para o escritório de Tom DeLay. O detetive John M. Gibson disse a outros agentes para se protegerem enquanto trocava tiros com o agressor, Russell Eugene Weston Jr., um homem de 41 anos de Illinois. Embora John Gibson tenha sido morto no confronto, a sua ação permitiu aos outros agentes subjugarem o atirador. Os agentes mortos foram os primeiros cidadãos privados a terem honras na Rotunda do Capitólio.

Bombeiros e equipas de emergência investigam a queda de um avião da United Airlines perto de Shanksville, na Pensilvânia, no dia 11 de setembro de 2001. Os terroristas a bordo do avião tinham como alvo o Capitólio dos EUA, mas foram impedidos pelos passageiros que tomaram de assalto a cabine.

Fotografia de David Lloyd, AP Photo, Tribune-Democrat

2001: Alvo nos ataques de 11 de setembro

No dia 11 de setembro de 2001, na manhã dos ataques terroristas da Al Qaeda aos EUA, quando o World Trade Center colapsou e o Pentágono estava em chamas devido aos ataques suicidas coordenados com aviões, um quarto avião dirigia-se para o Capitólio dos EUA. Porém, o voo 93 nunca chegou a atingir o seu alvo pretendido; os passageiros do avião atacaram os terroristas na cabine e a aeronave caiu na zona rural da Pensilvânia. A Comissão Nacional de Ataques Terroristas determinou posteriormente que o Capitólio era de facto o alvo pretendido.

A Polícia do Capitólio dos EUA guarda o perímetro na Avenida da Independência enquanto o Edifício do Capitólio é evacuado após um tiroteio no Centro de Visitantes, no dia 28 de março de 2016.

Fotografia de Joshua Roberts, Reuters

2013: Mulher transgride posto de controlo e é abatida

Em outubro de 2013, depois de tentar transgredir um posto de controlo na Casa Branca, uma mulher foi perseguida e morta a tiro por agentes da autoridade nos terrenos do Capitólio dos EUA. A mulher foi perseguida pelas autoridades ao longo de 12 quarteirões. Miriam Carey, higienista oral de 34 anos, do Connecticut, estava desarmada e tinha o filho de um ano no banco de trás da viatura. A autópsia mostrou que Miriam tinha sida baleada cinco vezes; um tiro no lado esquerdo da nuca, três tiros nas costas e um tiro no braço esquerdo. A família de Miriam moveu posteriormente um processo judicial de homicídio por negligência contra os Serviços Secretos e a Polícia do Capitólio, questionando se o uso da força tinha sido apropriado.

2016: Tiroteio no Centro de Visitantes do Capitólio

Em março de 2016, Larry Russell Dawson, um homem de 66 anos, do Tennessee, apontou uma arma BB a agentes da autoridade enquanto tentava entrar no Centro de Visitantes do Capitólio dos EUA. O homem foi baleado pela polícia, no peito e na coxa, e acusado de agressão. Não houve mais vítimas neste ataque. De acordo com o Washington Post, os motivos de Larry Dawson não eram claros, mas este homem já tinha sido detido por perturbar o Congresso ao gritar que era um “profeta de Deus”. Larry foi posteriormente condenado a 14 meses de prisão.

Apesar de todo este passado conturbado, a invasão violenta de ontem chocou americanos e pessoas por todo o mundo. O político alemão Armin Laschet disse no Twitter: “Os ataques ao Capitólio feitos por fanáticos que apoiam Trump feriram todos os amigos dos Estados Unidos.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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