Descodificação dos Símbolos de Ódio da Insurreição no Capitólio

Desde martelos viking a bandeiras de países fictícios, muitos dos desordeiros exibiam símbolos que identificavam a sua identidade nacionalista branca. Eis a sua origem.

Publicado 15/01/2021, 18:28
Uma forca exibida pelos apoiantes de Trump em frente ao Capitólio no dia 6 de janeiro. ...

Uma forca exibida pelos apoiantes de Trump em frente ao Capitólio no dia 6 de janeiro. Embora alguns símbolos de violência e supremacia branca usados durante a insurreição fossem percetíveis, outros eram mais obscuros para o observador casual.

Fotografia de Shay Horse, NurPhoto/Getty Images

Quando os manifestantes chegaram ao Capitólio, chegaram com símbolos.

Alguns eram imediatamente reconhecíveis pela maioria dos americanos que assistiam ao desenrolar do caos pela televisão. Entre estes símbolos estava a bandeira da Confederação, que primeiro foi hasteada nos campos de batalha do país pelos estados separatistas que viam um futuro na escravatura de outros; e a forca, símbolo do assédio terrorista feito aos afro-americanos ao abrigo das leis Jim Crow.

Mas havia outros símbolos, ou sinais visuais obscuros, que agiam como um piscar de olho ou um aceno de cabeça entre os grupos heterogéneos de apoiantes de Trump. Entre os grupos que espalharam o caos e morte na capital dos EUA, no dia 6 de janeiro, estavam defensores de teorias da conspiração e grupos de supremacia branca. Os símbolos nas bandeiras ou tatuados na pele dos manifestantes partilhavam um objetivo comum, remetendo para uma história idealizada com homens cristãos brancos ao centro.

Jake Angeli, o autoproclamado “Xamã QAnon”, tem tatuagens de símbolos nórdicos que, num contexto de extrema direita, evocam a cor branca dos antigos escandinavos.

Fotografia de Selcuk Acar, NurPhoto/Getty Images

O autoproclamado “Xamã QAnon” – com o seu manto de peles e capacete com chifres, possivelmente o manifestante mais fotografado naquele dia – exibia a sua ideologia no peito desnudado. Tatuagens de traços amadores de Yggdrasil, ou árvore da vida, cobriam o lado esquerdo do seu peito. O Mjolnir, o martelo de Thor, emergia da sua cintura. O valknut, o “nó dos mortos” viking, estava gravado na zona do seu coração. Estes símbolos escandinavos antigos foram ressuscitados e distorcidos por nacionalistas europeus no século XIX e pelos nazis no século XX, e a sua apropriação enfurece os pagãos contemporâneos.

Para Matthew Gabriele, chefe do departamento de religião e cultura do Instituto Politécnico e Universidade Estadual da Virgínia, o uso da iconografia viking e dos cruzados por parte da extrema direita é uma forma de “dupla nostalgia”.

“Eles estão a saltar mais de mil anos de história de regresso à Idade Média ou algo assim”, diz Matthew. “Mas, ao mesmo tempo, também estão a apelar às associações que se formaram em torno destas imagens na era moderna.”

Entre a multidão violenta que invadiu o Capitólio – que era esmagadoramente composta por homens brancos – a “masculinidade militante” dos vikings é apelativa, diz Matthew. “São imagens de guerreiros, pelo menos nas cabeças deles.”

Membros dos Three Percenters, uma organização antigovernamental, hastearam uma bandeira Betsy Ross modificada durante a insurreição no Capitólio.

Fotografia de Tasos Katopodis, Getty Images

“Nenhum daqueles indivíduos quer viver numa cabana ou algo parecido. Mas querem esse tipo de imagem.”

Entre as bandeiras hasteadas no Capitólio, algumas eram expectáveis, como por exemplo a bandeira de batalha da Confederação; e a exortação desafiadora “Don't Tread On Me” da bandeira Gadsen, que foi recuperada na década de 2000 pelo movimento Tea Party.

Mas também havia outras bandeiras, que a maioria dos americanos só conhece dos livros, que agora foram apropriadas pelos manifestantes. Por exemplo, a bandeira “Join or Die”, que apresenta uma cobra desenhada por Benjamin Franklin. E uma variante da bandeira Betsy Ross onde as 13 estrelas circundam três algarismos romanos, representando os três por cento dos americanos que os grupos antigovernamentais acreditam ter lutado sozinhos contra os britânicos na Guerra da Independência. E, num vídeo particularmente perturbador, um polícia ferido está deitado na calçada ao lado de uma bandeira Betsy Ross descartada.

“A utilização de imagens históricas funciona como uma saudação invisível entre os supremacistas brancos e serve de desculpa conveniente quando estes lidam com pessoas que não partilham os seus pontos de vista”, diz Matthew. “Eles esperam que os outros observadores compreendam e concordem. Ou, se não concordarem e houver consequências, eles podem ignorar e dizer que estão simplesmente a fazer referência à história ou algo assim.”

Quer sejam runas viking com mil anos de idade ou imagética que celebra a Revolução Americana e a Confederação, os supremacistas brancos acreditam que o peso histórico deste simbolismo confere credibilidade e precedentes à sua causa.

Esquerda: Desordeiros no Capitólio com uma bandeira Gadsen modificada.
Direita: A bandeira da nação fictícia de Kekistan tem associações com a supremacia branca.

Fotografia de SPENCER PLATT, GETTY IMAGES (ESQUERDA) E EVELYN HOCKSTEIN, THE WASHINGTON POST / GETTY IMAGES (DIREITA)

Um membro dos Proud Boys (ao centro, a segurar um chapéu) com tatuagens inspiradas nos vikings.

Fotografia de Alex Lourie, Redux

“Isto não é uma coisa nova – a afirmação de que estão a ser fiéis a um passado real e de que a sociedade moderna se desviou de alguma forma do que deveria ser”, diz Matthew. “No caso dos supremacistas brancos, no caso da extrema direita, é uma sociedade masculina cristã branca que não tem espaço para as mulheres, para as minorias, etc. Mas isso é algo que lhes falta.”

Alguns dos símbolos em exibição na insurreição do Capitólio – por exemplo, a bandeira do Kekistan, que representa um país imaginário comandado por um sapo supremacista branco, ou a apropriação do sinal OK – pareciam compreensivelmente inescrutáveis para a maioria dos americanos. Mas isso não significa que estes símbolos sejam inofensivos, diz Lecia Brooks, chefe de equipa no Southern Poverty Law Center.

“É importante salientar que, independentemente de o observador casual poder ou não compreender o que isto significa, esse observador precisa de saber que significa algo”, diz Lecia. “Porque de outra forma [os desordeiros] não os teriam levado.”

A maioria dos americanos também pode ter ficado confusa com a aparência bizarra de alguns dos manifestantes – por exemplo, o Xamã QAnon, que visualmente se distancia das massas disciplinadas que associamos às ideologias de Hitler. Mas esta combinação tóxica de folia e fascismo é implicitamente americana e tem as suas raízes no Ku Klux Klan, cujos membros vestiam capuzes e mantos brancos como se fossem “fantasmas” para intimidar os afro-americanos, que eram vistos como incultos e supersticiosos. Os membros do Klan também se vestiam de bobos da corte e até de menestréis para gozarem com as suas vítimas, diz Talia Lavin, autora de Culture Warlords: My Journey Into the Dark Web of White Supremacy.

“Isso servia sobretudo de cobertura para os seus aliados políticos os considerarem pouco sérios, embora soubessem da gravidade da violência. E era uma forma de desrespeitar ainda mais as vítimas”, diz Talia.

“Assim podiam dizer que estavam apenas na brincadeira, certo? É o mesmo que acontece com os Proud Boys, quando dizem que são apenas um clube.”

Depois temos as siglas, como a abreviatura que todos nós adotamos quando digitamos “LOL” em resposta a algo engraçado. Mas algumas destas siglas surgiram de recantos mais sombrios da internet. Os manifestantes no Capitólio usavam emblemas que diziam WWG1WGA, “Onde vai um, vamos todos”, uma mensagem de solidariedade partilhada entre os seguidores de QAnon, que é uma teoria da conspiração centrada na crença de que a elite mundial é composta por adoradores de Satanás que assassinam crianças e bebem o seu sangue. Em dezembro, um fotógrafo captou um Proud Boy a marchar pelas ruas de Washington D.C. com uma camisa que dizia 6MWE: 6 Milhões Não Foi Suficiente. O Holocausto, de acordo com esta mensagem, é um assunto por resolver.

O que impressionou Lecia Brooks e Talia Lavin foi a convergência visual de tantos símbolos políticos diferentes – por exemplo, um homem com uma camisa que fazia alusão ao campo de concentração de Auschwitz ao lado de alguém que agitava uma bandeira dos EUA. “O que vimos foi uma espécie de cruzamento real entre a direita MAGA, a direita de Trump, e as facções mais insurgentes, os Boogaloo Boys, os supremacistas brancos abertamente declarados e as tendências da extrema direita que – até agora – não têm sido particularmente visíveis”, diz Talia Lavin.

Matthew Gabriele diz que a apropriação de imagens históricas por parte da extrema direita também suscitou algumas questões entre as pessoas que ensinam história, particularmente o período medieval em que Matthew se especializou. “Acho que houve um impulso maravilhoso no mundo académico para levarmos realmente isto em consideração e para pensarmos realmente sobre as implicações do nosso ensino, porque estas coisas estão a ser lidas e por vezes consumidas de formas que acreditamos serem abomináveis. Para ser sincero, há alguns académicos que estão a ajudar a incentivar estas atitudes. Precisamos, enquanto professores, de lidar e lutar contra estas coisas.”

“Com isto tudo, já não preciso de explicar a relevância de termos um curso sobre os vikings ou sobre as cruzadas”, acrescenta Matthew, “porque basta mostrar uma fotografia de Charlottesville ou de algo que esteja a acontecer agora.”
 

Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site nationalgeographic.com

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